Redes sociais viram terreno fértil para pornografia de vingança (O Tempo)

Redes sociais viram terreno fértil para pornografia de vingança

RAQUEL SODRÉ

Uma história já vista muitas vezes: um casal se separa e, tempos depois, um dos dois divulga fotos ou vídeos do parceiro ou da parceira em momentos íntimos, com o objetivo de ferir a moral da outra parte. Essa prática, ainda que condenável, se tornou tão frequente que ganhou até nome, “pornografia de vingança”.

“Isso vem se tornando comum, até pela facilidade de acesso ao equipamento. Atualmente, qualquer celular tem câmera e muitos têm acesso à internet”, afirma o professor de direito processual da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), Dierle Nunes.

Segundo o site CyberJustiça, 80% das vítimas desse tipo de agressão são mulheres. No fim do ano passado, a adolescente Karina Veiga, 16, entrou para essa estatística, e seu caso ficou famoso na internet. Ela e seu namorado, também de 16 anos, se fotografaram em uma relação sexual. Com a justificativa de que a moça o teria traído, o namorado postou as fotos do ato no perfil dela no Facebook.

No início deste ano, um policial militar de Ricardo de Albuquerque, no Rio de Janeiro, publicou fotos sensuais de sua ex-namorada no Facebook, após o término da relação. O ex-namorado da ex-BBB Renatinha também reforça o coro: ao ver a moça com outro na casa do programa, divulgou nas redes sociais fotos dela nua.

Em um caso menos típico, mas que também ganhou fama nas redes, a jovem Fabiana Karla – homônima da atriz da Rede Globo – postou na rede social fotos da suposta amante do namorado. A mulher em questão estava nua, e as fotos foram encontradas no celular do homem.

Violência. De acordo com a psicóloga Marissa Sanabria, coordenadora da Comissão de Mulheres e Questões de Gênero do Conselho Regional de Psicologia de Minas Gerais, divulgar materiais íntimos de alguém sem autorização pode ser considerado uma forma de agressão. “A violência pode se dar de várias formas. Nesse caso, trata-se de uma violência de gênero, em que o homem se sente dono da mulher e acha que ela é um objeto que ele pode usar e abusar”, comenta.

Apesar do julgamento social sofrido pelas mulheres que têm sua intimidade devassada, para a psicóloga esse tipo de comportamento diz muito mais sobre o agressor do que sobre a vítima. “Há uma reação imatura não equilibrada e não sadia, típica de alguém que não suporta ser ferido em seu narcisismo. Essa pessoa tem uma estrutura infantilizada e não suporta a ideia do abandono – como os bebês”, explica.

Machismo. Segundo especialistas, o fato de a maior parte das vítimas do “vazamento” desses materiais ser mulher se explica pela estrutura patriarcal da sociedade. “Há vestígios de machismo e patriarcalidade em achar que alguém é dono do corpo ou dos afetos da mulher. Expor a mulher é um traço de violência machista, como outros de nossa cultura. Por mais modernos que sejamos, a leitura do corpo feminino continua sendo do século XIV, e há castigos e punições individuais e culturais para a mulher que se dá o direito de escolher (o que fazer com o próprio corpo)”, aponta a psicóloga.

O advogado Dierle Nunes concorda. “Só a divulgação do material em si não é um ato difamatório. Mas um grande nível de ‘vazamento’ desses materiais pode gerar constrangimento até pelo machismo de afirmar que a mulher que assume práticas absolutamente normais tem menos valia diante da sociedade”.

>Ler mais.

Facebooktwittergoogle_plusredditpinterestlinkedinmail

Comentarios:

AlphaOmega Captcha Classica  –  Enter Security Code
     
 

*