“MEU NAMORADO ADORA PORNOGRAFIA” (Escreva Lola Escreva)

Meu namorado adora pornografia

(NOTA: Este artigo contém linguagem explícita, e as opiniões do autor sobre a moralidade não concordo com aqueles de porndestroi.com.)

“Acompanho seu blog, foi um dos primeiros que me fez entrar em contato com o feminismo. Gostaria de pedir uma opinião. Esses dias, estava fazendo um trabalho no computador do meu namorado e encontrei muito material de pornografia. Eram mais de 50 gigas de filmes pornôs, mais de duas mil fotos, e isso me incomodou e MUITO.

Não pelo fato d’ele ver pornografia. Eu também vejo, mas vejo pelos sites por aí. Achei super estranho essa necessidade dele de armazenar, baixar e guardar essas coisas. Fiquei triste, pois 100% das fotos e vídeos eram de garotas com um corpo impecável, coisa que meu corpo está longe de ser.

Tenho sérios problemas de autoestima, ainda mais depois de ter passado por um namoro abusivo (esse ex me largava na rua no meio da madrugada, me agrediu duas vezes, e dizia coisas horríveis, como: ‘Estou com você porque é óbvio que mulher top eu nunca conseguiria levar pra cama, a não ser pagando’).

Quando conheci meu atual namorado, me senti aliviada em ver que ele não era (tão) machista e tinha uma visão parecida com a minha sobre o mundo. O que me incomoda é: do que adianta ele vir me falar que simpatiza com o feminismo, que luta contra o machismo e as formas de opressão, sendo que ele é um grande consumidor de uma indústria que sustenta isso?

Que adianta ele vir me dizer que não liga para o corpo das mulheres, que todo corpo é bonito em sua forma de ser, sendo que nas fotos/vídeos pornôs que ele guarda 100% eram corpos dentro do padrão de beleza?
Será que estou sendo radical demais? Será que tem algum fundamento ou isso tudo não passa de uma neurose da minha cabeça?”

Minha resposta: Eu realmente não sei, querida B. Sou uma pessoa que nunca gostou de pornografia. Minha opinião é que a pornografia é uma indústria que vive da exploração do sexo e das mulheres. Tem gente que entende a pornografia como algo de vanguarda, meio rebelde, que vai contra o sistema. Eu não penso assim. Pra mim, pornografia é capitalismo. Faz parte do sistema. Não está de jeito nenhum contra ele.

Acho que pornografia pode ser prejudicial à quem assiste. Não que eu pense que um cara que vê um vídeo pornô vai sair e estuprar uma mulher, não é isso. Mas a pornografia em geral tem uma narrativa de que uma mulher está sempre a fim de transar (no máximo ela se faz de difícil), que todas as mulheres se depilam e tem peitões, que todos os homens têm pênis enorme (ou devem ter pra dar prazer a uma mulher), que tudo bem transar sem camisinha, que toda mulher adora sexo anal, sexo com outras mulheres, penetração dupla, tapinhas, eperma na cara, o escambau.

E isso que só estou pensando no pornô mais mainstream, o que não se baseia na humilhação de mulheres. Porque há um mercado gigantesco também pra humilhação e misoginia explícita.

Um dos problemas é que vivemos numa sociedade moralista, ainda cheia de tabus. Eu acho que se o mundo fosse mais livre, sexualmente falando, sem padrão duplo de sexualidade, haveria menos pornografia, menos prostituição, enfim, menos exploração comercial do sexo. Mas, no nosso mundo, meninos aprendem sobre sexo vendo filmes pornôs.

A educação sexual nas escolas e em casa é irrisória, e toda uma geração de meninos muito novos “aprende” tudo que sabe sobre sexo através da pornografia. Ou seja, aprende um monte de coisa errada. E a primeira vítima é ele mesmo, que vai ter certeza que seu pênis é minúsculo. Virará consumidor vitalício de fórmulas que prometem aumento peniano.

Imagino que, com a idade, boa parte dos homens perceba que filme pornô é ficção, não documentário. Que o que se vê em filmes pornôs é tão real quanto nesses filmes de ação em que um carinha pula de um prédio em chamas pra um helicóptero e consegue derrubá-lo com as mãos.

Mas será? Muitas de nós mulheres sabemos que as imagens femininas que vemos na mídia não são verdadeiras. Que são photoshopadas até a morte. Que nem a Angelina Jolie é a Angelina que aparece nas revistas. Mesmo que saibamos tudo isso, ainda somos afetadas pelas imagens que vemos. Elas afetam nossa autoestima. E as meninas, que talvez ainda não saibam que na vida real mulheres de 1,80 que pesam 50 quilos não são o padrão? Essas meninas que veem 500 imagens distorcidas por dia, como a indústria da moda e da propaganda as afeta?

omo a indústria pornô afeta a cabeça de um menino de dez anos? Ele sabe que aquilo não é real? Se ele sabe, isso evita que ele seja afetado por milhares de imagens de uma indústria que determina como deve ser sua sexualidade?

Eu pessoalmente não me importo se meu marido assistir pornografia. Quero dizer, certas coisas seriam inadmissíveis: pedofilia, zoofilia, pornô com violência sexual, que simula espancamentos e estupros.

Mas fantasias, pensamentos, todo mundo tem. Se seu namorado fantasiar que está transando com dez atrizes pornôs enquanto está transando com você, paciência. Não dá pra querer controlar o que cada pessoa pensa. Mas uma coisa é fantasia durante o sexo, na nossa cabeça (mulheres também fantasiam: imaginam que estão transando com um astro do cinema, ou com atores pornôs; muitas fantasiam que são atrizes pornôs ou prostitutas, ou que estão sendo estupradas — o que é totalmente diferente de querer ser estuprada de fato). Outra é sustentar uma indústria pornô que interpreta essas fantasias. Ou, como diz Gail Dines, “fantasias acontecem na cabeça, pornografia acontece nos bancos internacionais”.

Na realidade, eu estou por fora de tudo. Sei que a indústria pornô está em crise, porque pouquíssima gente hoje paga por pornografia. Tem um monte de coisa de graça na internet, não? Os cinemas pornôs fecharam quando o vídeo se popularizou; os dvds substituíram os vídeos, e hoje a internet é onipresente.

A indústria musical não vive mais de venda de cds, só de shows ao vivo. O que faz a indústria pornô, então? Imagino que continua forte em outros filões de “entretenimento para (homens) adultos”, como prostituição e casas de striptease. Porque, no fundo, é a mesma indústria.

Gail diz que “pornografia é para o sexo o que o McDonald’s é para a comida”.

Se a gente falar mal do McDonald’s, ninguém vai dizer que somos “anti-comida”, porque obviamente a comida de lanchonete é apenas um tipo de alimentação (logo a mais comercializada, a que gera mais lucro). Mas é só falar contra pornografia que uma feminista se torna “contra o sexo”.

Não sei responder a sua pergunta. Entendo perfeitamente o seu incômodo, mas não saberia o que fazer. Conversar com o namorado, talvez?

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