Primeira reportagem em HQ da agência Pública revela bastidores do turismo sexual no CE (Portal Imprensa)

Primeira reportagem em HQ da agência Pública revela bastidores do turismo sexual no CE

Duas viagens de apenas dez dias ao Ceará foram suficientes para a repórter Andrea Dip e o quadrinista Alexandre de Maio verem com os próprios olhos o que o Brasil parece não enxergar: a teia da exploração sexual de meninas para a Copa do Mundo. Os detalhes dessa história estão na reportagem “Meninas em Jogo”, a primeira em quadrinhos da agência Pública.

Lançada exatamente um mês antes do início do torneio, no dia 12 de maio, a série dividida em cinco capítulos foi vencedora do “VII Concurso Tim Lopes de Jornalismo Investigativo“* na categoria especial “Violência sexual contra crianças e adolescentes no contexto da Copa do Mundo de 2014“.

A reportagem mostra, por exemplo, que durante a primeira entrevista a equipe flagrou uma menina nova com um homem muito mais velho, ligou para o Conselho Tutelar e falou com policiais que estavam próximos – sem sucesso. Além disso, o texto relata visitas a danceterias que ficavam em frente a uma delegacia e como em Canoa Quebrada, onde a situação parece mais crítica, a repartição de segurança pública fica no fim da rua dos locais onde tudo acontece.

“Esperamos jogar luz sobre esse assunto, porque a Copa do Mundo está chegando e o objetivo de tudo isso é alertar as pessoas e as autoridades para algo que já está acontecendo”, afirma Andrea, repórter especial da Pública.

Segundo ela, a repercussão tem sido muito boa; mas ela gostaria de fazer o mesmo nas demais cidades-sede da Copa. “Adoraria, mas este foi um projeto muito grande e demorado. Focamos na cidade onde a situação é mais grave. Infelizmente, não teríamos tempo hábil”, lamenta.

Formato HQ só ajudou

Andrea iniciou a carreira em 2001 na Caros Amigos e já escreveu para veículos como Revista do Brasil, Retrato do Brasil, Marie Claire, GQ, Nota de Rodapé, Trip, Fórum entre outros. Com cinco prêmios de jornalismo em direitos humanos, ela conta que fazer uma reportagem em HQ era um sonho antigo e por isso chamou De Maio, um “grande incentivador do jornalismo em quadrinhos”.

O quadrinista editou HQs de 1999 a 2009, quando se tornou sócio do site Catraca Livre. Ele lançou em 2006 sua primeira revista do gênero com o escritor Ferréz, com quem também fez o livro “Desterro”, em 2013. Atualmente, ele é gerente de tecnologia do site e professor de um projeto social em Heliópolis, zona sudeste de São Paulo.

Durante a apuração, ambos tomaram notas e conversaram sobre as “cenas” que entrariam na matéria. As fontes dos desenhos foram registradas por celular ou presenciadas em situações controversas pelos autores.

“A linguagem dos quadrinhos potencializa o poder de uma matéria investigativa, além de ter recursos visuais oportunos para essa pauta, como esconder a identidade das pessoas”, explica De Maio.

Andrea acredita ainda que o formato aproximou a pauta do leitor. “É como se ele participasse de todo o processo de apuração, das conversas e da caminhada com os repórteres”.

Orientações, riscos e problemas

A série “Meninas em Jogo” foi a primeira na qual Andrea e De Maio trabalharam com o tema violência sexual contra crianças e adolescentes. Diante da pauta, eles foram orientados por organizações especializadas na questão, pela própria Pública e pela ANDI, realizadora do Concurso Tim Lopes.

Os direcionamentos deixaram a equipe mais segura e ajudaram a minimizar os riscos. Durante a investigação, não sofreram nenhum tipo de ameaça, mas enfrentaram dificuldades pela falta de dados e números, a desorganização por parte de alguns órgãos oficiais e a “falta de vontade” das entidades em responder às solicitações de entrevistas.

“Nossa maior preocupação durante as investigações foi não abordar as meninas nas ruas para não colocá-las em risco ou em um processo de revitimização. Essa é uma discussão polêmica e fica em uma linha muito fina. Tento focar sempre no objetivo principal, que é denunciar o sofrimento humano e o que o está causando”, diz Andrea.

Pai de três filhas, De Maio definiu as cenas que viu como “revoltantes”, mas manteve a consciência de seu papel como jornalista. “Acredito que a divulgação da matéria e um trabalho mais amplo como esse é um forma mais eficaz de contribuir com o tema”, afirma.

O resultado da reportagem chegou ao conhecimento de autoridades do Estado, mas ninguém entrou em contato com a equipe até o dia 13 de maio, quando falaram à IMPRENSA. O silêncio sobre o tema continua.

*O Concurso Tim Lopes de Jornalismo Investigativo é uma realização da ANDI – Comunicação e Direitos, do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) e da Childhood Brasil, com o apoio da Organização Internacional do Trabalho (OIT), da Federação Nacional dos Jornalistas (FENAJ) e da Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji).

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