Vício em pornografia: uma catástrofe silenciosa na vida dos viciados e das suas famílias (Aleteia)

Vício em pornografia - uma catástrofe silenciosa na vida dos viciados e das suas famílias

A pornografia age no cérebro como uma droga, prejudicando a capacidade de relacionamento

Em plena semana de Natal, o seu amor verdadeiro manda para você… três aplicativos pornográficos e vários vídeos de sexo em alta resolução. A situação não é tão forçada quanto você pode imaginar. O dia do ano em que um dos mais populares sites de pornografia da internet recebe mais acessos é 27 de dezembro, de acordo com as informações do próprio site.

Boa parte dos adultos ainda considera o consumo de conteúdo pornográfico moralmente inaceitável, mas não há consenso sobre o que pode ser feito para restringir com mais severidade o acesso à pornografia na internet.

A Igreja católica mantém uma posição firme quanto ao assunto: a pornografia é uma ofensa grave contra a dignidade da pessoa humana e as autoridades civis devem impedir a produção e a distribuição de material pornográfico (cf. Catecismo, nº 2354).

Nos Estados Unidos, o bispo dom Paul S. Loverde, da diocese de Arlington, no Estado da Virgínia, tem sido um dos líderes mais destacados na luta contra a pornografia. Ainda em 2006, ele escreveu a carta pastoral “Um preço a pagar: o dever de todo homem de proteger a si mesmo e a sua família da cultura pornográfica”. A carta, de 80 páginas, foi reeditada e atualizada em março deste ano. Em 5 de dezembro, a organização sem fins lucrativos Morality in Media [Moralidade na Mídia] nomeou Loverde como seu conselheiro.

Aos 74 anos, o bispo conta que lhe apresentam contínuas objeções à condenação da pornografia por parte da Igreja. “Isso é só uma visão religiosa”, dizem-lhe muitas pessoas. Loverde discorda: “Não. A oposição da Igreja se baseia em estudos muito sérios da psicologia. A ciência mostra o que a pornografia faz no cérebro humano. Por que prejudicar o nosso cérebro com uma droga?”.

O bispo levanta um ponto importante. De acordo com o site YourBrainonPorn.com, assistir a conteúdos pornográficos libera uma carga de dopamina no cérebro humano que leva o espectador a sentir prazer e continuar assistindo. Pesquisadores descobriram que a pornografia pode agir de maneira semelhante a uma droga como a cocaína ou a heroína. “O que sabemos até o momento nos indica que existe uma rede comum entre a reatividade à propensão sexual e à propensão às drogas em grupos com comportamento sexual compulsivo e dependência de drogas, respectivamente. Estas descobertas sugerem sobreposições nas redes subjacentes aos distúrbios do consumo patológico de drogas e de recompensas naturais”, informa um estudo publicado pela revista acadêmica da Universidade de Cambridge.

A ideia de que a pornografia seja semelhante a uma droga não é uniforme entre os psicólogos. Segundo alguns estudos, os consumidores ocasionais de pornografia não apresentam diferenças no cérebro em comparação com os chamados viciados em sexo. “Os problemas e queixas relatados pelas pessoas autoidentificadas como dependentes de pornografia e de sexo têm a ver com o contexto em que esses indivíduos estão dando vazão à sua alta libido, e não com um distúrbio em particular”, escreveu o psicólogo clínico David J. Ley na Psychology Today, em 2013.

O lucro anual da indústria de filmes adultos é de 10 a 12 bilhões de dólares só nos Estados Unidos. Embora a queda nas vendas de DVDs tenha reduzido os lucros dessa indústria, a pornografia é hoje mais acessível e mais explícita do que nunca. Se antes os homens tinham que ir a cinemas pornô, agora basta ter um computador, um tablet ou um smartphone.

A visão de que a pornografia já faz parte da cultura não é novidade; a mídia destaca com frequência a crescente aceitação da pornografia. Mas há o outro lado da história: se a pornografia se tornou mais popular, a reação contra ela também vem crescendo. E com um fato que chama a atenção: há 30 ou 40 anos, quem mais acusava a pornografia de degradar as mulheres eram as ativistas do sexo feminino; hoje, são os ativistas do sexo masculino os que afirmam que a pornografia prejudica os homens.

O site YourBrainOnPorn.com é um dos principais defensores da tese de que a pornografia representa um perigo para a saúde pública. Escritores como Brett McKay, fundador e editor do site Art of Manliness [Arte da Masculinidade], argumentam que a pornografia está mais para “junk food sexual” do que para vício. E há também o crescente movimento “No Fap”, em redes sociais como Reddit e YouTube, cujo nome usa um eufemismo em inglês para a masturbação; o movimento afirma que a pornografia esgota emocional e psicologicamente os homens e os deixa menos propensos a estabelecer um relacionamento amoroso com uma mulher.

No âmbito da Igreja, o bispo norte-americano Loverde tem feito declarações abertas sobre os perigos espirituais da pornografia, fenômeno que ele compara a uma praga “que se estende muito além dos limites da igreja ou da escola (…) As vítimas dessa praga são incontáveis. Hoje, talvez mais do que em qualquer outra época, o mal da pornografia distorce o dom da visão do homem e, portanto, também a sua visão de Deus“.

Durante uma conversa de 22 minutos por telefone com a Aleteia, dom Loverde falou dos perigos da pornografia para homens e mulheres, para o casamento e para a vida familiar. Ele observou, por exemplo, que, nos pedidos de anulação matrimonial apresentados na sua diocese, a pornografia é citada como uma das razões em 58% dos casos.

A carta pastoral de Loverde sobre a questão traz uma longa citação do apologista cristão britânico C.S. Lewis. Ao conversar com Aleteia, dom Loverde acrescentou que pensa em publicar no YouTube um vídeo complementar à carta.

Confira alguns trechos da nossa conversa com o bispo:

Por que o senhor voltou a publicar a carta pastoral sobre a pornografia?

Dom Loverde: Uma das razões é que nós queríamos atualizá-la e torná-la mais acessível às pessoas. O flagelo da pornografia piorou ao longo desses anos. Ele está engolindo toda a sociedade e arruinando relacionamentos.

Os católicos que se opõem à pornografia são vistos como puritanos, não?

Dom Loverde: Sim. Uma das razões pelas quais nós, cristãos em geral e católicos em particular, nos opomos à pornografia é a elevada visão que temos da sexualidade humana. Dizem que nós odiamos sexo e odiamos o corpo, mas a verdade é o contrário: nós entendemos a beleza do sexo.

O senhor escreveu que a pornografia não é como o álcool, que pode ser consumido com moderação. Por que a pornografia é diferente?

Dom Loverde: O álcool “pode ser” viciante. A pornografia “é”. Os cientistas dizem isso. A pornografia muda o cérebro. Ela degrada as pessoas. As pessoas são reduzidas aos seus comportamentos e acabam ficando insensíveis à própria pornografia. Elas querem mais e mais e mais.

Muitos sacerdotes dizem que os homens, na confissão, relatam o consumo de pornografia. Isso tem relação com a decisão que o senhor tomou de fazer uma campanha contra a pornografia?

Dom Loverde: Eu conversei com muitos sacerdotes e é verdade que, na confissão, a pornografia é muito mencionada pelos homens. E esses homens sofrem. Eu vejo os efeitos devastadores da pornografia na vida dos casais. E digo, como pastor, que as pessoas precisam acordar. As pessoas compraram uma ideia de que “bom, isso é um problema pessoal que tem a ver com os filhos dos outros”. Mas os pais precisam acordar e ver o quanto isso é pernicioso.

O senhor já pediu que os párocos alertassem nas homilias contra a pornografia?

Dom Loverde: Nós falamos sobre o tema. Eu sou membro da Aliança Religiosa Contra a Pornografia. É um grupo ecumênico e inter-religioso. Às vezes trazemos alguém para conversar com os nossos sacerdotes sobre este problema. Vários não sabem da ligação entre a pornografia e o tráfico de seres humanos; por isso, também convidamos um investigador para expor este assunto.

O que os políticos e as autoridades civis podem fazer, de maneira realista, para restringir a pornografia?

Dom Loverde: Bom, eu acho que os cidadãos apoiam as restrições, mas não estão cientes delas. Nós estamos lutando contra uma indústria. Grupos locais são valiosos; eles são bons nas suas jurisdições. Os nossos cidadãos precisam se envolver mais nesta questão. Eu acho que as pessoas não pensam o bastante sobre isso; não é algo em que as pessoas pensem. Eu abordo isso nas igrejas e as pessoas dizem “Ah, isso é só uma visão religiosa”. Não! Isso é um estudo muito sério da psicologia. Por que prejudicar o nosso cérebro com uma droga?

O senhor já viu alguma boa campanha contra a pornografia?

Dom Loverde: A Aliança Religiosa Contra a Pornografia é boa. Precisamos acordar as pessoas. Existe esperança, mas tem muita coisa que precisa ser feita. Como Igreja, nós temos que ser como um hospital de campanha, como diz o papa Francisco, e ajudar as pessoas.

A pornografia não pode ser vista como uma ajuda marital?

Dom Loverde: Eu já ouvi isso. A pornografia é degradante. Ela reduz as pessoas a coisas. As pessoas não são amadas na sua integralidade, não são dignificadas e não existe intimidade real com a pornografia.

>Ver artigo original.

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