Pornografia de vingança: um crime que não para de crescer (Gazeta Online)

Pornografia de vingança: um crime que não para de crescer

“Estava no trabalho, quando minha irmã chegou com um envelope nas mãos, chorando muito. Ela disse: ‘olha o que ele fez’. E mostrou as minhas fotos nua. Quando vi, falei: ‘não acredito’. É uma catástrofe”. Foi assim que Ellen (nome fictício) soube, há 10 anos, que era vítima da pornografia de vingança. A expressão é usada para identificar a divulgação, sem autorização, de fotos e vídeos íntimos. É uma prática criminosa e que vem crescendo a cada ano no Estado. Não há dados oficiais, mas a estimativa de especialistas é que em torno de 20% dos casos de crimes eletrônicos já seja de pornografia de vingança. Em 2014, a delegacia registrou 1.800 ocorrências de delitos pela internet, 38% a mais do que no ano anterior, que teve 1.300 ocorrências. Desses 1.800 boletins, cerca de 360 casos são de cunho sexual, quase um crime por dia.

A maioria desses casos ocorre após o fim de um relacionamento, quando o ex-companheiro não aceita o término e quer se vingar. E as mulheres são as principais vítimas. “Elas aceitam gravar os vídeos ou tirar as fotos nuas ou em poses sensuais para satisfazer o companheiro, sem imaginar que, com o fim do romance, eles podem divulgar esse material para denegrir a imagem delas”, diz o delegado André Luis Ribeiro, da Delegacia de Repressão a Crimes Eletrônicos.

Com base na sua experiência no assunto e pelo acompanhamento das vítimas, o investigador da Polícia Civil e especialista em Crimes Eletrônicos, Eduardo Pinheiro Monteiro, estima que cerca de 90% dos casos de pornografia de vingança atingem mulheres, com idades entre 12 e 30 anos. “Imagens de homens acontecem, mas são raras. Só me lembro de um homem, chantageado por um garoto de programa. Acredito que a cada 10 casos de crimes eletrônicos, dois são de conteúdo íntimo”, diz.

Ellen faz parte desse grupo. Após três anos de relacionamento, aos 21 anos, em um momento de intimidade com o namorado, permitiu que ele fizesse imagens de partes do corpo dela, sem mostrar o rosto e a genitália. “Quando decidi terminar, nem lembrava dessas fotos, que ele havia revelado e guardado. Foi quando ele começou a me ameaçar: ‘Ou você volta pra mim, ou eu acabo com a sua vida’”.

Depois de um mês de ameaças, ela procurou a polícia e contou que estava sendo intimidada pelo ex, que é policial. Não foi o suficiente. Dias depois, a ameaça foi cumprida e o ex distribuiu, no trabalho e nos locais por onde a jovem circulava, uma espécie de folder, com fotos de partes do corpo dela e do rosto. O título era “a insaciável”. No papel, os telefones de casa, do trabalho e o celular de Ellen.

As imagens também foram parar na internet e, até pouco tempo, 10 anos depois da divulgação, a jovem ainda ouvia dizer que alguém recebeu as fotos. “Durante todo esse período, eu recebi várias ligações. Homens queriam marcar programas. Quando soube que minhas fotos estavam na internet, fiquei mais louca. Sabia que não ia ter controle sobre isso”.

E Ellen está certa. “Não há controle sobre o material que é espalhado na web”, alerta Eduardo Pinheiro. E o que é pior: a distribuição do conteúdo acontece em efeito cascata e muito rapidamente. “É como você subir no cume de uma montanha, estourar um travesseiro e querer juntar todas as plumas novamente. Não tem como”, diz.

No caso de Ellen, a Policia Civil só chegou ao ex graças ao código de revelação impresso atrás das fotos, que permitiu identificar a loja onde o processo foi feito. A jovem entrou com processo no Juizado Especial Criminal contra o policial, mas não teve êxito. “Não consegui nada. E se houvesse punição, ele seria condenado a pagar cestas básicas”. Na Justiça Comum, após oito anos, ela conseguiu uma sentença favorável em relação à indenização, mas não recebeu nada até hoje. “Não chega nem a R$ 30 mil. Mas me dou por satisfeita, por ter sido reconhecido que sou vítima”.

O desfecho desse caso é a regra: quase sempre, a punição para os autores é branda. “Pesa muito mais para a vítima. O autor até debocha dela, porque vai pagar uma doação de cestas básicas”, alerta Eduardo.

Ellen conseguiu superar a exposição. Hoje está casada e tem um filho. “A gente tem que se apegar muito a Deus. Foi Ele que não me deixou cair em uma depressão. A vida segue”, diz, conformada.

Alvos fáceis

Adolescentes são vítimas preferenciais da divulgação de fotos e vídeos íntimos, porque são os que mais usam câmeras e telefones celulares. “Há pouco tempo, uma mãe me ligou para contar que a filha de 12 anos tirou 15 fotos nua e enviou para um colega da escola. A mãe ficou horrorizada e foi conversar com a menina, mas ela achou tudo muito normal. Você vê que elas não têm noção do estrago que uma atitude como essa pode fazer na vida”, lamenta o investigador.

“Geralmente, a própria adolescente se expõe, se fotografa e divulga para um namorado ou amigo, e ele passa adiante. E todo mundo que for compartilhando esse vídeo, está praticando crime previsto no Estatuto da Criança e do Adolescente”, alerta o titular da delegacia de Repressão a Crimes Eletrônicos.

Para combater esse tipo de crime, família e a escola têm um papel fundamental. “Melhor do que vigiar, é a orientação, no sentido de que não se produza esse tipo de material. A fiscalização pode ser burlada. Se você orienta, ele vai pensar melhor antes de fazer. É claro que se você consegue encontrar o equilíbrio entre orientação e fiscalização é o ideal”, sugere o delegado.

Como evitar

O caminho para evitar ser uma vítima de pornografia de vingança é nunca produzir fotos e vídeos íntimos. E também avaliar melhor o relacionamento. Algumas características ajudam a indicar que o parceiro pode virar um criminoso: ciúme em excesso, possessividade e desequilíbrio emocional são atitudes que levam o parceiro a divulgar conteúdo íntimo após o término.

“Essas pessoas têm a falsa impressão do anonimato. Acham que, criando um perfil falso, ninguém vai identificar quem ele é. E também tem o fator comodidade: de casa, só com alguns cliques, se vinga de alguém que o contrariou”, explica o investigador Eduardo.

Estuprada pelo ex

Ana (nome fictício), 39 anos, só sai de casa para trabalhar. Está traumatizada há dois anos, desde que foi vítima de um covarde. Depois de cinco anos de relacionamento, ela decidiu terminar o namoro. O ex não aceitou e começou o drama de Ana. “Um dia meu telefone tocou e um homem disse que tinha fotos minhas tiradas em um motel e que iria publicá-las se eu não pagasse R$ 20 mil. Como não havia feito as fotos, falei: ‘pode publicar’. Bati o telefone”. Mas o telefonema era só o início do pesadelo.

Dias depois, a mulher recebeu outro telefonema. “Ele dizia que não queria mais dinheiro. Se eu não fizesse tudo que mandasse, iria pegar meu filho. Foi quando meu ex apareceu e disse que tinha recebido o mesmo telefonema, com ameças ao filho dele. Falei que ia procurar a polícia, mas ele me convenceu a não denunciar. Disse que não iria arriscar a segurança do filho dele, que também teria sido ameaçado”.

O ex disse à Ana que se encontraria com o criminoso e resolveria. “No outro dia, contou que apanhou e foi violentado por três homens. Eu acreditei e fiquei apavorada. Já não tinha mais coragem de ir à polícia denunciar”.

As ligações também deram origem a e-mails anônimos. As mensagens exigiam que Ana gravasse vídeos íntimos com o ex, para que o material feito pelos dois fosse comercializado e os criminosos pudessem “fazer dinheiro”. “Cedi a todas as ameaças e virei refém. Gravei os vídeos, inclusive um com participação de um garoto de programa. Foi muito nojento”.

Honra destruída

“Eu não conseguia dormir mais, pois o telefone tocava à noite. Eu não comia, não dormia, nada. Em um mês, perdi 12kg. Até que eu decidi que não aguentava mais essa situação. E a única forma de resolver tudo era se eu morresse. Olha a que ponto eu cheguei. Comecei a planejar como iria morrer sem que meu filho soubesse que eu fiz isso”, desabafa Ana.

Nesse período, Ana contou com a ajuda preciosa da chefe, que a liberou do serviço por um mês. Na volta, a vítima tomou coragem e buscou ajuda. Ela procurou a Delegacia de Repressão a Crimes Eletrônicos, onde aprendeu a, por conta própria, seguir os passos do criminoso. Era mesmo o seu ex-companheiro.

“Fiz uma planilha com todos os endereços IP (espécie de endereço do computador de onde as mensagens são enviadas) dos e-mails anônimos e dos que meu ex mandava. Quando comecei a anotar, vi que a maioria era igual. Foi um choque. Levei à delegacia e o policial disse: ‘você já sabe, né. Vamos pedir a prisão dele’. Eu só consegui responder: ‘faça isso’”.

O ex-companheiro de Ana foi preso em abril de 2013 e condenado a 18 anos de prisão por estupro. Dois anos depois, Ana ainda tem um novo desafio: reaprender a confiar nas outras pessoas. “Namorar de novo? Como? Isso não dá, não. Nunca mais me relacionei, não consigo. Imagina se alguém descobre que tudo isso aconteceu?”.

>Ver artigo original. (AVISO: nudez parcial.)

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