O mal da pornografia (Nádia Lapa)

Para parecermos modernas ou não desapontarmos parceiros, nos submetemos a situações degradantes no sexo

A pornografia, afinal, é inofensiva? Não. E digo isso não apenas baseada na corrente feminista que sigo, mas também como educadora sexual. Jovens estão “aprendendo” sobre sexo com vídeos pornôs – e eu costumo dizer que nada ali é sexo. Uma feminista inglesa escreveu sobre como tais filmes influenciaram na sua vida sexual. Traduzi um trecho:

***

Tenho 23 anos. A minha geração é a primeira a ser exposta à pornografia online desde cedo. Nós aprendemos o que é sexo assistindo estranhos pela internet. Não sabemos nada além disso.

Cá vão algumas coisas que vivi:

– ter minha cabeça empurrada contra a virilha dele, sendo segurada enquanto o chupava;
– ouvir que meu gag reflex (aquela ânsia de vômito quando algo atinge determinadas partes da boca) era muito forte, será que eu não poderia melhorar isso?
– ser coagida a aceitar que ele gozasse no meu rosto. Eu não queria. Ele disse (brincando?) que iria ejacular no meu rosto enquanto eu estivesse dormindo. Ele não estava brincando – eu acordei com ele se masturbando na minha frente.
– ser coagida a tentar sexo anal. Doeu tanto que eu pedi para ele parar. Ele parou, mas reclamou que eu estava sendo muito sensível e que isso não poderia ser “tão ruim”. E continuou a insistir.
– ter meu cabelo puxado.
– sugestões frequentes para participar de sexo a três.
– sugestões frequentes para deixá-lo me filmar.

E em todas as ocasiões, eu me senti culpada por não ser uma “garota moderna”. Eu o estava desapontando. Eu era pudica.

ISSO AGORA É COMUM. Qualquer mulher heterossexual que eu conheço teve experiências similares. Qualquer.Uma.Delas. Algumas viveram coisas piores. Algumas se submeteram, algumas resistiram, todas se sentiram culpadas e inadequadas por não terem dado ao parceiro o que ele queria.

Há alguns poucos anos, quando descobri o feminismo radical, eu percebi que era ok dizer não. Sou sortuda por estar com um homem que me respeita e me entende. Ainda assim, foi apenas há pouco tempo que eu decidi que não iria mais engolir. Eu nunca gostei, mas sempre me senti obrigada a isso. Contei para meu namorado e ele ficou numa boa; mas na verdade ficou aterrorizado ao saber que eu não gostava antes. Por qual razão ele pensaria outra coisa? Isso é o que a pornografia representa para a nossa geração.

Eu sou uma mulher privilegiada – sou de classe média, com bom nível de instrução, minha família é incrível – e mesmo assim tive dificuldade em criar a coragem de dizer não. Os homens com quem transei hoje são advogados, dentistas, gerentes – são homens poderosos, influentes, e ainda acham que tratar suas parceiras de maneira degradante é normal.

A pornografia fez isso.

***

Na minha experiência aqui no blog e nas aulas, vejo como o que ela disse – vivendo lá na Inglaterra – é compartilhado com muitas brasileiras. Até os termos de busca do meu antigo blog eram nesse sentido. Eu também me submeti a situações absolutamente desconfortáveis porque pensava ser minha obrigação como mulher. Eu deveria dar prazer, mesmo que isso significasse sentir dor e vergonha. Ou simplesmente desconforto.

Demorei muito a entender que sou sujeito nessas relações, que o prazer é meu também e que não devo fazer nada que não seja do meu agrado. Compartilhar prazer é maravilhoso, é incrível. A própria palavra diz: “compartilhar”. Se apenas um dos lados está se satisfazendo, não se trata de uma relação saudável.

Sei que muitas de nós ainda estão no caminho de descoberta e que dizer “não” é dificílimo. Somos socializadas para dizer “sim”, sempre, porque só assim seremos amadas e desejadas. Independente da corrente feminista que você se filia (ou até mesmo se você se reconhece como feminista), o seu corpo é seu. E a palavra sobre ele sempre será sua.

>Ver artigo original.

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