A pornografia tornou o panorama da adolescência irreconhecível (Festival Marginal)

A pornografia tornou o panorama da adolescência irreconhecível

Tradução livre do texto Pornography has changed the landscape of adolescence beyond all recognition

Com um estudo revelando o aumento crescente no número de garotas colegiais em risco de problemas emocionais, Allison Pearson diz que precisamos fortalecer nossas filhas a lutarem contra a pornografia – por mais constrangedor que isso seja.

Às vezes ouvimos uma história tão horrível que ela se recusa a sair da nossa mente, não importa o quão fervorosamente a gente implore.

Uma médica de família me contou uma história dessas recentemente. Leitores com estômago fraco podem querer desviar o olhar agora.

Estava jantando com um grupo de mulheres quando a conversa foi para como podemos criar filhos e filhas felizes, equilibrados e capazes de formar relacionamentos significativos em uma era em que a pornografia de internet é tão acessível quanto um copo d’água. Assim como outros pais da nossa geração, estávamos numa jornada sem mapas ou luzes, mesmo que nosso instinto de proteger nossos filhos da escuridão fosse enorme.

Algumas mulheres presentes disseram que já se forçaram a ter conversas constrangedoras sobre esse assunto com seus filhos adolescentes. “Eu quero que meu filho saiba que, apesar do que ele assiste no laptop, existem coisas que não se faz com uma garota no primeiro encontro, nem no quinto, talvez nunca”, disse Joe.

Uma clínica geral, vamos chamá-la de Sue, disse: “Receio que as coisas estejam muito piores do que as pessoas imaginam”. Nos últimos anos, Sue tratou de um número crescente de garotas adolescentes com lesões internas causadas por praticar sexo anal frequente; não porque elas queriam, ou porque elas gostavam – muito pelo contrário – mas porque algum garoto esperava que elas fizessem. “Vou poupá-las dos detalhes macabros, mas essas meninas são muito jovens e pequenas, o corpo delas simplesmente não foi feito pra isso.”

Suas pacientes estavam profundamente envergonhadas por apresentar tais lesões. Elas mentiam para as mães sobre o assunto e sentiam que não podiam desabafar com mais ninguém, o que só aumentava o sofrimento. Quando Sue as questionou mais tarde, elas disseram que se sentiram humilhadas pela experiência, mas simplesmente não sentiam que podiam dizer não. Sexo anal é regra entre os adolescentes agora, mesmo as garotas sabendo que dói.

Um silêncio pairou sobre as mães em volta da mesa de jantar, acho que algumas de nós soltamos gritos involuntários de desespero e descrença.

A clínica de Sue não fica em uma cidade do interior onde crianças foram brutalizadas ou vieram de culturas onde tal pratica é usada como contraceptivo. Sue trabalha no coração de Hampshire. As garotas apresentando incontinência estavam geralmente abaixo da idade de consentimento e eram de famílias amorosas e estáveis. Exatamente o tipo de menina que, apenas duas gerações atrás, estaria provavelmente fazendo balé e sonhando com o primeiro beijo, e não sendo coagida a fazer sexo violento por um moleque que aprendeu sobre intimidade física assistindo um vídeo de sexo em público no celular.

O estrago, obviamente, não é apenas físico. Um estudo revelou que o número de garotas colegiais com problemas emocionais cresceu vertiginosamente. Cientistas do Jornal De Saúde Adolescente ficaram surpresos ao ver um aumento de 7% em apenas 5 anos no número de meninas, entre 11 e 13 anos, relatando problemas emocionais. Meninos se mantém estáveis enquanto meninas enfrentam “pressões inimagináveis”. Pesquisadores dizem que as causas também incluem o desejo de alcançar um padrão de beleza irreal, perpetrado pelas mídias sociais e o aumento na sexualização de meninas mais jovens.

Meninas sempre passaram fome para serem mais amadas, ou talvez para terem menos corpo para se odiar. A morte trágica de Eloise Perry, uma linda estudante de 21 anos envenenada com “pílulas para emagrecer” ilegais num esforço para manter seu corpo supermagro é mais prova do que podemos suportar.

O que é novo e perigoso é a habilidade de postar selfies e esperar que a enxurrada de aprovação venha. Você não precisa passar muito tempo com uma garota adolescente insegura (e existe outro tipo?) pra saber que sua felicidade está ligada a ganhar likes ou coraçõezinhos no Facebook ou Instagram.

Pegue essa insegurança feminina, distorça e aumente na Sala De Espelhos da internet, acrescente o desejo de ser “sarada” e popular, misture tudo numa confusa cultura pornográfica e você terá uma receita infernal para meninas tristes e abusadas.

Isso explica porque na Inglaterra mais de 4 em 10 garotas, entre 13 e 17 anos, dizem que já foram coagidas a fazer atos sexuais, de acordo com a maior pesquisa europeia sobre experiências sexuais adolescentes.

Pesquisas recentes da Universidade de Bristol e Centro Lancashire descobriram que um quinto das garotas sofreram violência e intimidação por parte de seus namorados adolescentes, uma grande proporção que vê pornografia regularmente, e 1 em cada 5 garotos apresentaram “atitudes extremamente negativas contra as mulheres”.

O resultado final é o que Sue vê em seu trabalho no consultório. Meninas jovens – crianças, na verdade – que tentam passar por normal numa sombria cultura pornificada.

Outro estudo sobre adolescentes britânicos descobriu que as primeiras experiências com sexo anal aconteceram dentro de relacionamentos, mas que isso raramente foi “sob circunstâncias de mútua descoberta de prazer sexual”. Ao contrário, com meninos forçando meninas a tentarem, e esses meninos relatando que sentiam que era “esperado” que eles assumissem esse papel.

Além disso, ambos os sexos esperam que homens tenham prazer em práticas em que é esperado que as mulheres “suportem os aspectos negativos como dor ou uma reputação manchada.”

Você não precisa ser de um grupo moralista para sentir que alguma coisa deu drasticamente errado. Ainda não superei o tutor da minha filha dizendo que um terço das garotas do mesmo ano da faculdade estão com depressão e se auto-mutilando. Que mais provas precisamos de que nossas meninas estão em crise?

Claire Lilley, chefe de segurança infantil da NSPCC (organização contra violência e abuso infantil) , afirma que as últimas pesquisas devem servir de alerta para que o governo garanta que adolescentes recebam educação sobre relações sexuais saudáveis. Pode apostar que sim. Mostrar como colocar camisinha numa banana já não quer dizer nada, não num mundo onde milhares de meninas revelam sofrer “profunda angústia e danos causados pelo comportamento abusivo de seus namorados.

Mulheres mais velhas geralmente conseguem decidir sobre o que elas estão preparadas ou não a fazer na cama. É um assunto privado entre dois adultos, embora eu não conheça uma única mulher que não ache que um homem insistindo em sexo anal é um ato de agressão desumanizante. Para garotas adolescentes inexperientes a história é outra. Toda sua cultura sexual/textual manda uma mensagem insidiosa e cruel: que elas não têm escolha.

Por mais constrangedor que seja, precisamos educar e fortalecer nossas filhas a lutar contra a pornografia, que é rebatendo o comportamento dos garotos que deveriam ser seus amantes, não seus abusadores. Qualquer coisa que te machuque e humilhe nunca é ok. Sugiro que no futuro a educação sexual comece com a seguinte piada:

“Pedi pra minha esposa tentar sexo anal. ‘Claro’, ela disse: ‘Você primeiro.’”

PS: mandei uma mensagem para minha própria adolescente pedindo sua opinião. Ela respondeu: “Há muita verdade nisso. Acho que consentimento ambíguo é o maior problema da nossa geração”.

>Ver artigo original.

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