(Censurado) : esta é a pornografia do Tinder (VICE PT)

esta é a pornografia do Tinder

por Katharina Bloom

Paulita é amiga de uma amiga e produz filmes pornográficos. Quando me encontrei com ela pela primeira vez, tinha a cabeça cheia de ideias pré-concebidas sobre os realizadores de pornografia: homens de cinquenta anos, calvos e hipertensos. Paulita é bastante pequena, tem o cabelo castanho escuro, apanhado com um rabo de cavalo, e embora pareça tímida, quando se ri faz muito barulho. “Na pornografia tem de haver variedade, para que possam superar-se certos preconceitos. Hoje em dia, por exemplo, há mais mulheres atrás da câmara, e isto é um factor importante para o desenvolvimento da indústria”.

Paulita é uma das fundadoras de Ersties, uma produtora pornográfica berlinense. É composta por estudantes de fotografia e cinema que criam e partilham filmes no seu site – uma espécie de Netflix pornográfico onde, mediante o pagamento de uma quota, podes descarregar mensalmente uma série de conteúdos.

“Faço pornografia porque me parece divertido e porque quero criar imagens que me emocionem”, diz. “Ainda existe uma grande quantidade de pessoas que trabalham à antiga, e também há uma certa estigmatização em relação às mulheres, mas para nós é muito importante que todos se sintam bem e seja divertido”. Ela e as suas amigas, Nina e Sahra, estavam fartas da pornografia de sempre. Todas fazem um pouco de tudo, embora Paulita se ocupe principalmente da realização e Nina da câmara, enquanto Sahra realiza o casting. Entre as três vão gerindo o site e as redes sociais. Paulita também é a directora da série First Sex, e convidou-me a participar numa das rodagens.

Aqui é onde nos encontramos, e começo a compreender o funcionamento do seu negócio. Para esta série Paulita pediu à sua amiga Cleo que encontrasse, no Tinder, um homem que quisesse ter relações sexuais em frente a uma câmara. Mas, é possível encontrar rapazes assim em Berlim? Parece que sim porque, de acordo com Paulita, as respostas não se fazem esperar. No trailer, aparece a dar voltas por Berlim, dentro de um autocarro, em busca de rapazes interessados em participar na rodagem.

Quando cheguei, a Paulita e a Cleo já tinham seleccionado os candidatos. Procuram mensagens novas, e Cleo lê as melhores em voz alta. Também receberam alguns vídeos. Explicam-me que escolheram um jovem italiano “com uma voz muito bonita”. Quando Paulita lhe ligou para dar-lhe a notícia, Dave parecia surpreendido e contente.

Embora tanto Paulita como Cleo tenham falado com ele, nenhuma o conhece pessoalmente. Dave conhecerá a Cleo – que também será a actriz – directamente no set. É assim que funciona First Sex. A única mobília é uma grande cama iluminada, com lençóis vermelhos. Antes de começar, os dois sentam-se de olhos fechados na cama. Paulita dá o sinal de “acção”, e já não há volta atrás. Dos seus lábios sai um “olá” inseguro. A Cleo leva uma camisola com Furbys, e o Dave uma blusa azul. “Encantado de conhecer-te”, balbucia. Quando se aproximam, ela pega-lhe na mão, e beijam-se.

A cena termina aqui, aproximo-me deles e pergunto à Cleo: “Porque é que decidiste viver esta experiência?” Sorri e responde como se fosse a coisa mais normal do mundo: “É algo novo e divertido.” Cruza as pernas. Faço a mesma pergunta ao Dave, que passa a mão pela cara e diz, “Porque é uma experiência única”. Sorri para a Cleo. Conheceram-se há uma hora, mas parecem bastante cúmplices. Tenho curiosidade e pergunto se o “namorico” vai continuar. “Quem sabe?”, responde Cleo, e pouco depois Dave acrescenta, “talvez”. Parece muito relaxado. Neste momento dou por mim a pensar que talvez tenha uma vida muito aborrecida: nunca teria a coragem de fazer algo assim, mas parece-me altamente que haja quem o faça.

Paulita leva-me a dar uma volta pelo plateau. “Qual é o objectivo de um producto como o First Sex?”, pergunto. “Queria levar ao extremo o fenómeno dos chats de encontros. Uma rapariga contacta um rapaz pelo Tinder, que terá uma relação sexual com ela no primeiro encontro, em frente a uma câmara. O mais importante é que nada é planeado. Tudo é real”, diz.

Pergunto a Paulita porque escolheu o Tinder. “Tinder é a última fronteira deste mercado, adapta-se bem ao nosso objectivo”. Sorri. Estou no centro de um plató onde se filmam filmes pornográficos que não têm muito a ver com o que se vê por aí. “A nova fronteira da pornografia vem de Berlim?”, pergunto. “Berlim sempre foi uma cidade especial. As pessoas que se mudam a Berlim escapam de algo, vêm à procura de liberdade, de uma forma de expressar-se. É por isso que aqui se experimentam tantas coisas, nomeadamente na pornografia”. Berlim também é o epicentro da pornografia feminista a nível internacional, diz-me. Mas basta que detrás da câmara haja uma mulher, e que os actores se divirtam falando de pornografia feminista? A que público se dirige o vídeo?”, pergunto a Paulita. Ela sorri e convida-me amavelmente a abandonar o set, para respeitar a privacidade dos actores.

Foi um dia estranho, cheio de expectativas e medos. Mas há uma coisa que está bastante clara: não vou contar nada aos meus pais, acho que não iam entender.

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