Pornô de quem? Feminismo de quem?
(Caderneta Feminista)

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*Texto original de 2013, em inglês por Maya Shlayen: http://www.fairobserver.com/region/north_america/whose-porn-whose-femnism/ *Tradução livre feita por Maria V.

Nos anos recentes, uma onda conhecida como “pornô feminista” ganhou visibilidade. Incluindo filmes e até mesmo uma cerimônia anual chamada de “Feminist Porn Awards”, um número cada vez maior de mulheres abraça a ideia de que a pornografia, se feita corretamente, é compatível com o feminismo.

Mentiras sobre feministas anti-pornô – de que estamos “na cama” com a direita religiosa (não estamos), de que esnobamos as mulheres na pornografia (não esnobamos), ou que nós apoiamos a censura (também não) – pintaram um quadro do movimento feminista anti-pornô como algo rígido, fora de época e anti-sexo. Feministas que defendem a pornografia afirmam estarem desafiando a conduta tradicional do sexo, pavimentando o caminho para que todos possam explorar sua sexualidade de um jeito novo e desafiador.

Fundo do Poço

Perdido nos empáticos “hurrahs!” sobre liberdade e empoderamento está qualquer discussão honesta sobre o que acontece na pornografia, como as mulheres entram nisso ou como isso impacta a vida das mulheres fora da indústria. “Eu nunca conheci nenhuma mulher que tivesse uma carreira profissional e a tenha deixado para ir para a pornografia só pelo divertimento” fala Vanessa Belmond, uma veterna da indústria que se transformou em uma ativista anti-pornografia. “Muitas entraram por desespero financeiro.

Muitas também foram abusadas na infância. Eu tinha uma colega de quarto que estava nas ruas se prostituindo desde os 14 anos, e daí até a época que ela fez 18 anos e entrou para a pornografia era tudo o que ela conhecia.” Que as mulheres que estão na pornografia estão lá geralmente por falta de opções é um fato bem conhecido – um que até mesmo feministas pró-pornô não negam. Num documentário chamado “After Porn Ends” (Depois que a pornografia acabar) a apologista da pornografia Nina Hartley admite: “Elas não sabem fazer outra coisa. Elas não sabem como trabalhar com vendas, como fazer uma planilha no Excel. Muitas pessoas no entretenimento adulto…não estão preparadas para um trabalho das 9h as 17h.”

Ao invés de perguntar por que algumas mulheres estão tão marginalizadas, feministas pró-pornô parecem felizes em deixar essas mulheres onde elas estão: no fundo do poço.

Algo Individual

Começando no governo de Tatcher e Reagan – dominando a época de 1980 e continuando até hoje, o crescimento do feminismo pró-pornô tem acompanhado uma mudança geral no feminismo, em que o individualismo substituiu o que antes era uma luta coletiva. Numa afirmação típica, Jennifer Baumgardner escreveu em 2000: “Feminismo é algo individual para cada feminista”.

É como se cada escolha que uma mulher faz fosse feminista, simplesmente porque ela a faz. O fato de que a “escolha” dela talvez tenha sido limitada pelo sexismo, racismo ou outras estruturas sociais é convenientemente ignorado, e o impacto que a escolha dela pode ter em outras mulheres nunca é questionado. Mas estruturas sociais desiguais de fato existem, e elas limitam as escolhas e alternativas disponíveis para as mulheres. No Canadá e nos EUA, mulheres continuam ganhando de 25 a 30% menos que os homens.

Como todas as médias, este número está sujeito a variações, para que a classe média e alta de mulheres brancas receba mais (em termos absolutos e em relação aos homens brancos) do que as mulheres de cor, por exemplo. Para uma mulher branca instruída que pode bancar a produção da própria pornografia e escrever livros sobre quão “empoderador” tudo isso é, a diferença nos salários pode ser deixada de lado como uma mera inconveniência. Para uma mulher de cor sem educação superior, como Vanessa Belmond, essa diferença salarial pode significar ter que vender seu corpo x trabalhar longas horas para sobreviver.

“Eu achei que seria glamoroso e excitante estar na pornografia” Belmond explica. “Eu achei que seria esse estilo de vida emocionante. Eu li livros sobre pornô, tipo biografias, e eu pensei que se eu conseguisse evitar algumas coisas ruins, eu faria todo esse dinheiro. Mas como praticamente toda mulher na pornografia, eu saí sem nada. E agora minhas fotos e vídeos estão na internet para sempre, para todos verem e para a indústria continuar fazendo dinheiro disso”.

Impensável Para mulheres mais jovens que cresceram com a internet, se opor a toda pornografia parece impensável. Nós crescemos em um ambiente tão saturado de pornografia que nós mal podemos imaginar sexo sem ela. Para mulheres de todas as idades, aprender a amar e aceitar seu corpo é um desafio. Através da história, sociedades dominadas por homens frequentemente forçaram regras rígidas sobre o sexo.

As punições por quebrar essa regras tem frequentemente recaído desproporcionalmente sob as mulheres, efetivamente tornando impossível para que nós façamos sexo nos nossos próprios termos. Sem dúvida a ideia de um “pornô feminista” apela para nosso desejo por um gosto de liberdade sexual. Mas pode a “liberdade sexual” ser reduzida a mais sexo, não importam as circunstâncias? “Eu cheirava cocaína ocasionalmente, mas o que eu mais usava era o álcool. Depois disso eu entrei na onda dos remédios para dor – estes remédios são muito populares na indústria, especialmente para as mulheres que fazem bastantes cenas de sexo anal.

E eu fumava muita maconha também. Eu não teria como ter feito pornografia de outro jeito. Você não consegue fazer esse tipo de coisa sóbria”, Vanessa Belmond lembra. Este não é um quadro de mulheres sexualmente libertas. É, de fato, o quadro de uma mulher que deve deitar e pensar sobre a Inglaterra pra conseguir “aguentar” o sexo. Aquelas que denunciam o feminismo anti-pornô como “puritano” tem ignorado o fato de que Pornógrafos fazem exatamente a mesma coisa que os puritanos fizeram: negar as mulheres a auto-determinação sexual.

A escrita da mulher escrava sexual

A palavra “pornografia” vem do Grego porne, que significa “mulher escrava sexual” e grafos que significa escrita. Na Grécia Antiga, porne se referia à classe mais baixa de prostituas, considerada vil, indigna e que estava lá para ser usada. A palavra “pornografia” literalmente se refere a “representação de mulheres como prostitutas vis”. Se a pornografia frequentemente se coloca como representando o sexo neutralmente é só porque já existe e é amplamente divulgada uma percepção do corpo das mulheres como indigno e disponível para o uso e abuso masculino.

A violência na pornografia pode ser extrema e a misoginia, o ódio a mulheres mostrado nos vídeos não podia ser mais comum. É esta fusão de crueldade com sexo que define a pornografia como gênero. E é a razão pela qual a pornografia é tão efetiva em mudar a atitude dos homens em relação às mulheres e ao sexo para pior. Em um estudo inicial conduzido pelo psicólogo Neil Malamuth, homens saudáveis sem histórico criminal foram expostos a 10 minutos de pornografia “hard core”. Depois da exposição, foi pedido a eles que respondessem questões como se “havia alguma vez que uma mulher “merecia” ou gostava do estupro”.

Os homens que haviam assistido pornografia esmagadoramente concordaram com os mitos sobre estupro, de uma maneira que não ocorreu com o grupo de controle. Incontáveis estudos desde então mostraram que a exposição à pornografia dessensibiliza os homens para a violência contra a mulher, frequentemente moldando sua sexualidade de uma maneira que os torne incapazes de ter experiências de excitação sem algum elemento de dominação ou violência. A evidência tem sido tão condenadora que, em determinados períodos, universidades tem recusado a permissão de uma pesquisa mais profunda no tópico. Quando um estudo mostra efeitos danosos que não podem ser revertidos, os comitês de ética vão frequentemente recusar que estudos similares continuem.

Isso tem acontecido repetidamente com pesquisas sobre os efeitos da pornografia. Na verdade, Ed Donnerstein, um pesquisador da Universidade do Arizona, conclui: “Bons colegas meus argumentariam que a relação entre pornografia, agressão subsequente e mudanças em atitudes para com mulheres são muito mais fortes estatisticamente que a relação entre fumar e câncer de pulmão.” O Santuário para Famílias, um abrigo para mulheres abusadas e suas crianças em Nova York, é um dos muitos abrigos para mulheres que falou sobre o efeito da pornografia em mulheres agredidas. Uma advogada que trabalha no abrigo, Amairis Peña-Chavez, explica: “Em mais ou menos 70% dos casos de abuso sexual com as minhas clientes, a pornografia estava envolvida.

Ou o homem está assistindo e quer recriar aquilo ou ele está a fazendo assistir e então querendo filmar e ter seu próprio filme”. Outra advogada trabalhando no Santuário para Famílias, Hilary Sunghee Seo, enfatiza: “Este é um padrão que estas mulheres acham particularmente degradante e humilhante…faz elas ficarem vermelhas, chorarem, ficarem paralisadas quando contam essas histórias”. O que terá que acontecer para que essas mulheres se tornem importantes para um movimento “feminista” que supostamente deveria estar lutando pela vida delas? O quão alto uma mulher deve gritar para ser ouvida?

Limites da Representação Sexual

“Pornô feminista” é um conceito estranho. Por definição implica que outros tipos de pornô não são feministas, mesmo com feministas pró-pornô tendo passado décadas afirmando, e ainda afirmam que não existe nada de errado com a pornografia em geral. Seria isso finalmente uma admissão de que há algo de podre no estado da pornolândia? O “Feminist Porn Awards”, uma cerimônia de premiação que ocorre em Toronto, lista três critérios que podem qualificar um filme como “feminista” – uma mulher/ ou pessoa tradicionalmente marginalizada teve uma mão na produção, na direção, no roteiro, etc; o filme representa genuinamente o prazer feminino; expande os limites da representação sexual no filme; e desafia estereótipos que são encontrados com frequência na pornografia “comum”.

Como o “pornô feminista” expande os limites da representação sexual não está claro dado que os nominados ao prêmio de 2012 incluíam títulos como “Puta Submissa” e “Babes em Bondage 4”. Mas uma mulher ter participação na direção, roteiro ou produção de um filme? Por esse padrão, até alguns filmes comuns da pornografia poderiam ser considerados “feministas”. Na verdade, a introdução de “The Feminist Porn Book” (O Livro Feminista do Pornô) deixa claro que: “O pornô feminista também é produzido dentro da indústria adulta comum, por feministas cujo trabalho recebe fundos e são distribuídos por grandes companhias como a Vivid Entertainment, Adam and Eve, e Evil Angel Productions.”

Mesmo se “pornô feminista” significasse apenas pequenos estúdios, independentes, fazendo pornografia queer, isso não teria a mínima chance de atenuar o mal feito por uma indústria misógina de 100 bilhões dólares por ano. Mas os ditos “pornógrafos feministas” associando-se com a indústria mainstream mostra sobre o que tudo isso é: dinheiro.

Definições de liberdade

Nenhuma pergunta radical está sendo perguntada sobre o sexo – como, por exemplo, porque nós precisamos de pornografia em primeiro lugar? Apesar de prazer sexual ser saudável e desejável, alguém realmente está intitulado a comprar o corpo de alguém para sexo (em pessoa ou via vídeo)? Ao invés feministas pró-pornô definem “igualdade” como “oportunidade igual de exploração” procurando dar (na maioria das vezes para mulheres brancas e de classe média) o direito de lucrar com o sofrimento alheio tanto quanto homens hoje lucram dele. Mulheres como Vanessa Belmond – aquelas que são feridas no fazer da pornografia, ou como um resultado dela – estão notadamente ausentes dessa definição de liberdade.

“Eu só desejo que os consumidores parem com isso de: “Bom, ela escolheu estar lá, então não preciso me sentir culpado assistindo”. Belmond implora, “Sim, eu sei que escolhi estar ali, eu sei que outras mulheres escolheram. Mas muitas dessas mulheres foram abusadas horrivelmente quando eram mais novas, passaram por muita coisa e tem os problemas com drogas…só porque elas fizeram a escolha não significa que é OK assistir sua dor.” Desde que deixou a indústria, Belmond está trabalhando muitas horas recebendo salário mínimo para mal viver. AntiPornography.org, uma organização de direitos humanos na qual ela trabalha como voluntária, tem ajudado ela o tanto quanto pode. No futuro, Belmond fala que gostaria de trabalhar como Diretora de Alcance a Juventude e a Indústria do Sexo (uma posição paga pela qual eles estão buscando fundos) para ajudar outras mulheres a sair da indústria.

No meio tempo, quantas outras mulheres terão suas dores, suas feridas transformadas em entretenimento para os outros? Quantas mulheres serão estupradas e agredidas em parte porque seus parceiros aprenderam sobre sexo com pornografia, da representação das mulheres como putas vis? E o que vai precisar para que feministas pró-pornô se importem? Feministas precisam reabrir o debate sobre pornografia – não como um assunto teórico, mas como o assunto de vida ou morte que na realidade é. A maioria de nós não são sobreviventes da indústria; nós não sofremos as feridas específicas. Mas como mulheres, todas nós vivemos no mesmo sistema sexista. Cada uma de nós é moldada por e sofre pelo menos alguma consequência disso. Se nós nos recusarmos a parar uma indústria que machuca mulheres para entretenimento público, então estamos nos recusando a parar o próprio sexismo. Quaisquer soluções que inventarmos devem funcionar para mulheres como Vanessa Belmond, ou então elas não funcionarão para nenhuma de nós.

>Ver artigo original.

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