A difícil “vida fácil” (Mundo e Missão)

A difícil vida fácil

O tema “prostituição” é inesgotável e controverso. Nestas linhas, limito-me a encará-lo como uma teia que prende jovens a um inferno de miséria, expostas a todo tipo de abuso.

Por: Pedro Miskalo
pmiskalo@mundomissao.com.br

A prostituição é “a mais antiga profissão” no bojo das civilizações. Recebe diferentes nomes e é exercida com variados fins. Alguns países do mundo legalizaram a sua prática; em outros, é tolerada; os demais, penalizam o seu exercício. Aberta ou clandestina, esta “profissão” persiste na maioria dos ambientes e nas mais diversas classes, castas e status. Atualmente, pode ser exercida através de agenciadores diretos ou em redes sociais. Sem escrúpulos, os intermediários (mafiosos?) faturam alto através de promessas que se esvaem, tão logo as vítimas despertam do engodo.

A prostituição também pode resultar de um livre acordo interpessoal: “Eu lhe dou dinheiro, cocaína, prestígio, poder… o que você quiser. Você só me empresta o corpo e mais nada”. Como sempre, nesta relação o amor e a ternura ficam de fora, pois o que domina são instintos e inconfessáveis fantasias, se bem que efêmeras.

Forçadas ao comércio sexual

Nem sempre a pessoa prostituída – prevalentemente do sexo feminino – entra livremente no ramo. Em todo tempo houve e sempre há pessoas forçadas a ceder o corpo perante uma arma, uma ameaça, um castigo. Ou ainda são empurradas a esse trabalho pela miséria, fome ou baixa escolaridade. Tempos depois, o que lhes resta é o corpo machucado; a vergonha, a honra e a dignidade esgarçadas; o desprezo da família e da sociedade dita tradicional. E, para sair dessa trilha, o “esforço é redobrado, mas eu alimento a esperança de encontrar o grande amor pelo resto da vida”, afirma uma garota de programa na capital paulista.

Pelas estradas do mundo

Basta abrir os olhos para ver que o drama é universal. E tem várias causas. Apenas três casos entre milhares:
“Fui obrigada a vender o corpo para matar minha fome e a de meu filho”, afirma uma jovem mãe ugandense de Campala, que teve uma segunda criança no ano passado, mas não sabe quem seja o pai. “Atendo uma média de nove clientes por dia. Cobro três mil xelins (1 real = aproximadamente 3.500 xelins ugandenses) por relação protegida e seis mil sem preservativo. Entretanto, tenho que trabalhar pelo menos 15 dias por mês para pagar o aluguel do meu cubículo” (revista italiana Africa, julho/agosto – 2015).

“Eriona, albanesa, foi levada à Itália por um pretenso marido. Tinha dezesseis anos. Em um documento falso declarava ter vinte e dois. Uma vez na Itália, começaram as vadiagens, as violências, os estupros que a constrangiam a permanecer nas ruas. Até que ela fugiu do ‘marido’ e acabou em dois centros para menores. Saiu sem nada (Mundo e Missão, ed, 187, nov/2014).

“Na Tailândia, crianças do sexo feminino podem ser legalmente vendidas pelos pais. Naquele país, uma espécie de mascate compra as crianças no interior do país e as revendem aos prostíbulos das cidades maiores. Então, uma menina de seis, oito ou 10 anos é vendida numa transação que provoca dor e choro da própria criança, de sua mãe, de seu pai ou dos avós, mas que assim mesmo se realiza, pois a família, por exemplo, quer trocar o aparelho de TV branco e preto por um colorido, etc.” (1º Congresso Mundial contra a Exploração Sexual e Comercial de Crianças e Adolescentes-1996).

No Brasil, o envolvimento de menores

Segundo dados da Polícia Rodoviária Federal (PRF), divulgados há dois anos, os Estados de Minas Gerais, Pará, Goiás e Mato Grosso respondiam, na época, por 48% dos pontos de exploração sexual de crianças e adolescentes. O mapeamento mostra ainda que, entre 2011 e 2012, o Brasil tinha 1.776 pontos vulneráveis à prostituição infantil. Deste total, 691 eram pontos críticos, 480 pontos eram classificados como de alto risco, 349 pontos de médio risco e 256 de baixo risco. E hoje?

Nem sempre a prostituição de menores tem a ver com a sua situação de pobreza, pois, além desta, o envolvimento com drogas conduzem tais menores ao comércio de corpos. Outro complicador do drama é o chamado turismo sexual, bastante disseminado no litoral nordestino – mas não só aí – por estrangeiros e nativos em busca de sexo.

Avanços positivos

É importante destacar alguns progressos nesta frente. Em 2000, o Governo Federal criou o “Plano Nacional de Enfrentamento da Violência Sexual Infanto-Juvenil”, dividido em seis eixos estratégicos: Análise da Situação, Mobilização e Articulação, Defesa e Responsabilização, Atendimento, Prevenção e Protagonismo Infanto-Juvenil. O Conselho Nacional dos Direitos da Criança e do Adolescente e os Conselhos de Direitos Estaduais e Municipais de cada região coordenam o plano. Outras esferas de acompanhamento e controle foram criadas, além de Varas Criminais especializadas em crimes contra crianças e adolescentes. Há controvérsias sobre a eficiência e a eficácia reais de tais políticas públicas.

Quero aprender a amar

Depois de citar tantas tragédias humanas, concluo com um testemunho pungente: “Dos 32 anos de M, 13 foram de agressão familiar; 12 de exploração sexual, prostituição e uso de drogas, e sete de uma nova vida na reabilitação. ‘Eu nunca amei’, diz ela ao lembrar os anos em que se prostituiu. Ela conta ter tido seis filhos. Cinco deles foram frutos de abuso e prostituição. ‘Eles não sabem. Não sabem quem são os pais deles. Nunca contei. Tenho medo de que não entendam, de que me odeiem’, diz a mulher que, atualmente, trabalha como zeladora com um novo companheiro, no Ceará. ‘Agora, estou aprendendo a amar’”, confessou à globo.com (10/06/14).
Sem moralismos eu afirmo que, assim como M., todos nós somos carentes de amor e nem sempre seus aprendizes. Ora, o caminho dos instintos é mais fácil, enquanto que o do verdadeiro amor é penoso, áspero. Entretanto, parece-me que é o único que poderá nos levar à liberdade plena. Terei exagerado?

>Ver artigo original.

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