Monopólio da pornografia gratuita na internet ameaça indústria de entretenimento adulto (Revista Samuel)

Monopólio da pornografia gratuita na internet ameaça indústria de entretenimento adulto

Carlos Carabaña | Madri | Yorokobo

Dos dez maiores sites pornográficos, oito pertencem à mesma empresa; atriz Brandi Fox lembra que se trata de um trabalho, não um hobby e que, por isso, é importante que conteúdo seja devidamente remunerado

Quando analisamos a lista de empresas com o maior tráfego de internet do mundo, todos os nomes soam familiares. YouTube, Netflix, Twitch… apenas uma delas é desconhecida: MindGeek. Segundo os dados oficiais da empresa, onde ela é definida como líder em design, desenvolvimento, marketing, SEO e gestão de sites com um grande volume de tráfego, são mais de 1 bilhão de usuários individuais por dia, 3 milhões de anúncios e mais de 1.000 funcionários. Como uma empresa como essa, com tanta força, não se torna pauta dos grandes meios de comunicação? MindGeek se dedica à pornografia. É proprietária da imensa maioria dos clones do YouTube que disponibilizam conteúdo erótico gratuito na Internet.

No total, dos dez sites de pornografia mais vistos da internet, oito pertencem à MindGeek. ExtremeTube, GayTube, YouPorn, SpankWire, Pornhub… só escapam de seus tentáculos xHamster e Xvideos. Se levarmos em conta que, segundo a revista The Richest, a cada segundo há 28.258 usuários vendo pornografia na internet, o que supõe cerca de 35% do total de downloads, sua força se torna evidente. Além disso, já compraram os estúdios Babes.com, Brazzers e Reality Kings. Seu domínio chegou tão longe que já se fala de monopólio, um problema para os profissionais da indústria pornográfica.

“A MindGeek controla um grande número das empresas produtoras e, por isso, se você quiser que te paguem para atuar em pornografia, há uma grande possibilidade de que vá depender deles para receber seu dinheiro, principalmente se quiser fazer do pornô o seu principal meio de vida”, explica Lux Alptraum, por e-mail. A escritora, educadora sexual e consultora, que tratou do tema em seu blog, assegura que “ter tanto controle sobre a fonte principal de receita faz com que os atores, diretores ou qualquer outra pessoa que tenha que confiar na MindGeek para receber seu próximo cheque não se sinta à vontade para criticar a empresa”.

Essa postura faz sentido para a maioria das pessoas que atuam em pornografia. O poder da empresa vem basicamente de oferecer gratuitamente conteúdo protegido por copyright. “A MindGeek consegue suas enormes audiências e, presumivelmente, gera lucro, oferecendo acesso livre ao conteúdo pirateado de sites especializados”, continua Alptraum. “Desta forma, conseguem comprar os concorrentes que ainda não foram expulsos do negócio, chegando ao ponto em que a maior parte da indústria de entretenimento para adultos está sob seu controle”.

Em seu Twitter, atriz Brandi Fox lembra que se trata de um trabalho, não um hobby e que, por isso, é importante que conteúdo devidamente remunerado:

Um dado que se destaca é que, enquanto no início dos anos 2000 uma atriz pornô de primeiro nível costumava cobrar 1.500 dólares por cena, e poucas delas trabalhavam paralelamente como prostitutas, o salário médio agora é de 500 dólares e é possível encontrar muitas delas nas páginas de contatos. Segundo a revista Slate, as produções caíram em 75%; as vendas de DVDs, em 50%.

Dentre os poucos que se atreveram a levantar a voz contra essas práticas estão Mick South, um ator pornô aposentado de 57 anos que tem um blog com certa influência no meio, e Siri, uma atriz ainda em atividade que se projetou como defensora do conteúdo pago. Além disso, a empresa Adult DVD Empire deu início a uma campanha sobre o assunto com a hashtag #PayForYourPorn.

Atriz Kayla Jane postou, em suas redes sociais, um apelo dizendo que ao assistir vídeos dela pirateados – e de graça – não são as grandes corporações que são afetadas, mas ela mesma é furtada enquanto pessoa:

outh mantém em seu blog uma luta constante em que denuncia alguns dos pontos mais vergonhosos da MindGeek. A empresa tem vários, além de seu questionável modelo de negócios. Os principais? Evasão de impostos e lavagem de dinheiro.

A MindGeek foi fundada como Mansef Productions Inc. no Canadá, em 2004, por Ouissam Youssef e Stephane Manos. Mais tarde, foi adquirida por Fabian Thylmann, um investidor alemão da área de tecnologia que havia desenvolvido softwares relacionados à pornografia nos anos 1990.

Sob a direçao de Thylmann, o nome foi alterado para Manwin e um empréstimo de 362 milhões de dólares foi obtido da empresa Colbeck, fundada por ex-funcionários da Goldman Sachs. Com este dinheiro, dedicaram-se a comprar sites de distribuição de conteúdo pornográfico e produtoras e fazer o monstro crescer. Thylmann foi extraditado em 2012 da Bélgica para a Alemanha por evasão de impostos sobre os lucros da empresa, o que fez com que a empresa ficasse sob a liderança de Feras Antoon e David Tasillo, que hoje controlam as operações desde Montreal.

Siri, por sua vez, atreveu-se a falar em público contra a pirataria e, particularmente, contra a MindGeek. Em um em um fórum de perguntas online realizado no site Reddit, um usuário lhe perguntou o que mudaria na indústria pornográfica, se pudesse. Sua resposta foi clara. “Se eu tivesse uma varinha de condão, faria com que a pirataria na pornografia fosse impossível, tornando este um negócio rentável para todo mundo”. Os 1.800 comentários gerados, na sua grande maioria em defesa da pornografia grátis na rede, mais pareciam um linchamento. Pouco tempo depois, no site de perguntas e respostas Quora, Siri respondeu a outra pergunta do gênero afirmando que a situação da indústria pornográfica é como se o famoso supermercado americano Wal-Mart, além de arruinar as pequenas lojas de bairro, estivesse roubando-as com armas de fogo e colocando o resultado de seu latrocínio à venda por um preço inferior.

Os que se dedicaram a estudar este tema sabem claramente o motivo pelo qual os EUA, onde as leis antimonopólio são veneradas como parte integral de uma economia vibrante, não atuam por vontade própria contra uma situação tão flagrante de domínio de uma única empresa: o tabu existente no país em torno da pornografia e o moralismo. Enquanto isso, a MindGeek obtém lucros, compra empresas, apoia a pirataria e estende seus tentáculos. As autoridades olham para o outro lado e não parecem dispostas a tomar qualquer medida a respeito.

Alptraum vê um claro perigo. “Se a MindGeek cair, uma grande parcela da indústria cairá junto com ela”, conclui. “A pornografia sobreviverá, mas com uma pequena indústria formada por poucos estúdios e empresas”. Uma má notícia para os futuros Johns Holmes, Jennas Jamesons, Nachos Vidales e Sashas Greys.

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