Por que o Reino Unido está preocupado com a pornografia (NEXO)

Por que o Reino Unido está preocupado com a pornografia

Livre acesso à pornografia online faz governo britânico emitir um documento que prevê “robustos controles” para o conteúdo sexual na rede (AVISO: nudez parcial)

Antes um nicho, a pornografia extrema e violenta foi assimilada pelo mainstream da pornografia on-line. Ela serve de divulgação para estupro e sexo agressivo, está cada vez mais acessível e é preciso proteger as crianças de sua influência. É isso que afirma um documento assinado por quadros do governo que integram o Conselho Britânico para Segurança Infantil na Internet. O relatório diz, ainda, que produtores de pornografia devem ter uma responsabilidade maior sobre o público.

As leis do país já determinam que DVDs e revistas pornográficos não podem ser vendidos para menores de idade, e que na TV conteúdo sexual só seja exibido depois das 22h. O problema é a internet. Embora já haja mecanismos de proteção – filtros pré-instalados pelas operadoras, por exemplo -, o governo defende um endurecimento das medidas.

Nenhum dos sites pornográficos mais visitados no Reino Unido são baseados no país, logo não são objeto da regulação britânica. Por isso, segundo o documento “Segurança infantil on-line: Verificação Etária para a Pornografia”, seria necessário estabelecer uma lei obrigando reguladores a criarem “robustos controles” no país.

Estudos mostram que a pornografia influencia no sexo da vida real#

Segundo informações da empresa de análise de dados digitais ComScore, entre os jovens com acesso a internet, 20% daqueles com menos do que 18 anos de idade assistiram filmes pornográficos no Reino Unido. Na faixa entre 6 a 14 anos, 13% tiveram acesso a esse tipo de conteúdo.

A recomendação por maior regulação do governo britânico aponta que conteúdo retratando sexo agressivo pode influenciar jovens a também fazerem sexo com agressividade.

Ainda não há consenso sobre o tema, mas o relatório do governo cita, entre outros dados, um estudo publicado em 2010 na revista da Sociedade Internacional para Pesquisa em Agressão, que afirma que essa relação existe. O trabalho “Material com classificação XXX e a prática de comportamento sexualmente agressivo entre crianças e adolescentes: há ligação?” afirma, com base nos relatos dos próprios participantes, que a exposição de jovens a pornografia violenta aumenta em seis vezes as chances de que realizem sexo violento.

O documento do governo britânico também menciona um estudo encomendado pelo Departamento para Cultura, Mídia e Esporte sobre o que se sabe a respeito de pornografia. Ele foi compilado por especialistas do Instituto de Internet de Oxford, que concluem que “a cultura jovem parece ter sido afetada por imagens sexuais; que crianças e jovens estão preocupadas com pornografia on-line e que ver tais imagens pode ter efeitos sobre as crianças”.

Um relatório encomendado pelo Conselho Britânico para Segurança Infantil na Internet citado também estabelece uma relação entre o acesso e exposição de crianças à pornografia e imagens violentas e suas crenças sexuais. Essa exposição estaria ligada a “comportamentos de risco”.

“Quando jovens acessam esse material, ele pode transformar em normal um comportamento que pode ser danoso para o futuro de seu desenvolvimento emocional e psicológico no futuro”, diz o relatório do governo britânico, que propõe “proteger crianças de imagens perturbadoras ou não realistas de sexo. Claramente, essas imagens podem danificar sua habilidade de desenvolver relacionamentos pessoais baseados em respeito e consentimento.”

A medida do governo britânico, no entanto, provocou críticas por ser, na interpretação de especialistas, simplista. Para Jaclyn Friedman, autora do livro “Sim significa Sim! Visões do Empoderamento Sexual Feminino e um Mundo Sem Estupro”, o problema não está na facilidade do acesso à pornografia, mas “na falta básica de uma profunda educação sexual”.

Ela propõe a aplicação de um conceito chamado de “educação para a pornografia” (“porn literacy”), que educaria jovens sobre o fato de que aquilo que estão vendo na pornografia não é uma representação de como o sexo ocorre na prática. “Pornografia é uma edição péssima do que o sexo é na vida real. Não é realista”, disse ela em uma entrevista ao site Foreign Policy.

>Ver artigo original.

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