À porta do hotel, as meninas chamam por quem passa (Rede Angola)

Prostituição em Luanda é discreta mas não se esconde. O RA foi conversar com algumas prostitutas.

Prostituição em Luanda é discreta mas não se esconde. O RA foi conversar com algumas prostitutas.

Synthia tem 20 e poucos anos. Simpática, terna na sua forma de conversar, é ela que nos chama e nos faz sinal para parar. Estamos numa das ruas adjacentes da Avenida Van-Dúnem Loy e Synthia está rodeada de outras mulheres que aparentemente se dedicam à mais antiga profissão do mundo. A conversa não é profunda e a proposta “aliciante” chega rapidamente.

O grupo está concentrado junto a um hotel de esquina no sentido Gamek Vila-Futungo.

A conversa com Synthia acaba por se prolongar, talvez porque enquanto falamos nenhum potencial cliente se cruza connosco. “É devido à crise”, refere num sotaque carregado de quem tem como língua materna o inglês.
Synthia é da Namíbia, está há dois meses em Luanda, mas não é a primeira vez. Por norma, fica três meses, regressa à Namíbia e volta um mês depois. O negócio é rentável, explica. Com o que ganha em Angola consegue sustentar os irmãos e os dois filhos no seu país.

Como explica o último Relatório Global de Tráfico de Pessoas de 2015, elaborado pelo Departamento de Estado dos Estados Unidos – equivalente ao MIREX angolano -, Angola é país de “origem e destino” para o tráfico de mulheres e crianças para escravidão sexual – há meninas de 13 anos obrigadas a prostituir-se refere o relatório. A maioria são vietnamitas, brasileiras, chinesas, congolesas, namibianas e sul-africanas.
O mesmo relatório, de Julho do ano passado, sublinhava que “o governo de Angola não cumpre os padrões mínimos para a eliminação do tráfico”, mesmo assim, fazia notar os “esforços significativos” para “melhorar a sua capacidade para lidar com este crime”.

Synthia vai bebendo a Cuca de lata que as colegas lhe passaram – “essa cerveja é muito boa”, diz – enquanto nos vai dando pormenores de si e da sua vida. Bacharel em Relações Internacionais, fala quatro línguas, entre elas francês e neerlandês, hospeda-se no hotel que fica na esquina a seguir ao restaurante Fininho, o Tchingengue, onde divide a diária de Kz 10 mil com uma colega sul-africana.

A prática é conhecida, mas o método vai se sofisticando. Quem passa pela Van-Dúnem Loy, a princípio, não se apercebe da presença das meninas que estão proibidas de se acercar à avenida, de forma a evitarem conflitos com os patrulheiros da polícia que volta e meia passam por ali.

As mulheres passam 24 horas no hotel e só se vêem na rua a partir das 19h, quando se juntam aos grupos no portão. Sempre sob o olhar atento de dois seguranças.

Há cerca de dois anos este hotel era uma referência para a saída dos jovens, que desfrutavam do bar e das animadas raves com direito a banho de piscina aos fins de semana.

A crise também está a afectar o negócio do prazer. Segundo Synthia, em 2014 conseguiam juntar Kz 2 milhões (USD 12.500 dólares) em três meses. Para Synthia seriam quase 200 mil dólares namibianos, quantia considerável tenho em conta que, por exemplo, um apartamento de três quartos no centro da cidade custa 13 mil dólares namibianos mensais.

“Há quem foi e não regressou”, diz. Mesmo assim, para ela ainda vale a pena: “É mais do que ganho na minha terra”.

Mercadoria em camiões

Há uns dois anos, a Bloomberg escrevia que muitas das jovens mulheres entravam em Angola em camiões de mercadorias ou trazidas por indivíduos que viam nelas uma oportunidade para garantir um rendimento regular. A fuga ao desemprego transforma Angola num bom destino para as namibianas.

Rejoice junta-se à conversa. Morena, cabelos lisos e compridos, esbelta no seu 1,70m é de poucas palavras. Sem a fluência de Synthia no português, pergunta-nos se falamos inglês e perante o assentir do repórter, resolve elogiar os angolanos por comparação com os namibianos. Os namibianos, “além de não pagarem bem tratam-nas como putas. Os angolanos parece que fazem amor. São mais carinhosos”, diz.
Tal como Synthia, Rejoice também tem carreira universitária e, talvez por isso, vai pedindo desculpas a cada instante pelo seu sofrível português. Está no seu último dia de estadia em Angola, três meses passados, e regressaria no dia seguinte para junto da família.

Tudo parece bem agendado no negócio. As meninas têm horários controlados para entrar e sair do hotel – e nem lhes passa pela cabeça infringir as regras. À porta só podem ficar das 19h até à meia noite. Passada a hora, o segurança obriga-as a permanecerem do lado de dentro do portão e só os clientes regulares podem entrar. O negócio não pára, mas a partir daí tudo se faz pelo telefone e é o segurança que controla as entradas.
Os preços são negociáveis e depende muito das aparências – do cliente e da viatura em que se faz transportar. A “rápida” pode custar de Kz 10 mil a Kz 30 mil, consoante, também, a capacidade de regateio do cliente.

Nem Synthia, nem Rejoice querem falar sobre como chegaram até Luanda. Quem as aliciou? Que tipo de conivência tinham com os donos do hotel? A quem respondiam?

O ano passado no aeroporto de Mavalane, em Maputo, a polícia moçambicana deteve uma mulher de 40 anos acusada de tentativa de tráfico humano, ao tentar viajar para Luanda com duas jovens de 23 anos. Estas, dizia, iriam trabalhar como empregadas domésticas em Angola, no entanto, as averiguações efectuadas pelas autoridades permitiram saber que a mulher tinha um bordel em Angola onde as jovens iriam trabalhar. A polícia ficou mesmo com a ideia de que a mulher fazia parte de uma rede que aliciava jovens mulheres para serem exploradas sexualmente em Angola.

Raparigas do sul

Embora grande parte das mulheres venham da Namíbia e África do Sul, também encontrámos jovens originárias do Cunene a trabalhar na prostituição em Luanda. De pele clara e com dificuldades no português, parecem menos experientes no negócio. E mais retraídas para falar. Foi preciso uma segunda ida ao local para podermos saber mais sobre elas.

“Algumas têm marido e vêm a Luanda com pretexto do negócio”, explicou-nos Synthia. Ao contrário das estrangeiras, as angolanas vivem em divisões mais desconfortáveis e as sacolas acumulam-se. “De certeza que já está de malas feitas”, acrescenta.

Um dia antes da partida, as locais deslocam-se aos mercados e armazéns mais baratos de Luanda, na companhia de um dos funcionários do hotel para compra de produtos que servem para serem revendidos na sua terra e assim justificar o alegado negócio que vieram fazer a Luanda.

Como é normal, os nomes dados nunca são os de registo. Yara é natural do Cunene. Aparenta os seus vinte anos de idade e é uma das mais jovens do grupo. Ainda vive com os pais e vem a Luanda mês sim, mês não. Os pais acreditam que trabalha numa empresa de prestação de serviços no sector petrolífero com sede em Luanda, daí as constantes deslocações à capital. Há um ano que está “empregada” nessa petrolífera e ajuda no sustento da casa, com os cerca de Kz 500.000 por mês que vai juntando.

“Antes até podia levar um pouco mais porque tinha amigos que chegavam a nos pagar mais do que o normal. Era bom. Mas hoje as coisas estão bem difíceis, não consigo muito mais. Quis voltar a estudar mas dessa forma vou ter que ficar mais um ano em casa”, explica.

Ao contrário das duas mulheres do Cunene que precisam de carregar as sacolas de produtos adquiridos no mercado até à sua terra natal, as mais jovens podem levar directamente o dinheiro e entregar aos pais. O emprego fictício permite entregar o dinheiro directamente aos pais.

No hotel, Yara divide o quarto com Alice, a quem chama de mana. Alice aparenta ser mais velha e comporta-se como se fosse a sua tutora. Foi ela quem se chegou à frente para negociar o “preço” da mais nova.

Obras de reabilitação

Embora nestes últimos dias o hotel esteja temporariamente encerrado para obras de reabilitação que vão durar seis meses, conforme se lê no placar, ainda assim é possível encontrar-se lá uma ou outra rapariga. “O hotel fechou mas falámos com o guarda e ele nos deixa vir cá durante as noites”, explica uma das meninas.
O negócio mantém-se mas agora por conta e risco dos seguranças que dão acesso às meninas em troca de alguns kwanzas. De realçar que tal prática estende-se a outros pequenos hotéis nos bairros de Luanda. Dominados por mulheres provenientes de países como Namíbia e África do Sul o negócio parece próspero apesar da crise.
A nossa reportagem tentou por várias vezes falar com a gerência do hotel mas, em vão, nunca conseguimos obter resposta.

>Ver artigo original.

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