Educação contra o abuso sexual
(UOL especiais)

Educação contra o abuso sexual (UOL especiais)

Por Marília Banholzer, do NE10

O sentimento de revolta contra uma pessoa que abusa sexualmente de uma criança é natural, afinal, pensar em alguém estuprando um ser indefeso é algo que dá repulsa na maior parte das pessoas.

Agora, quando uma criança violenta outra criança, de mesma idade, por exemplo, essa reação inicial passa por uma espécie de busca para encontrar o “culpado” nessa situação. A pergunta “de quem é a culpa?” vira motivo de reflexão e logo surgem respostas como: “são os pais”, “é a internet”, “tem que punir essa criança”. No entanto, especialistas colocam o dedo na ferida e apontam que a própria sociedade é causadora de situações como essas a partir do momento que não debate temas envolvendo sexo e sexualidade com os pequenos. E pior, estatísticas apontam que as crianças que cometem esse tipo de abuso, geralmente, também são vítimas.

A pedagoga e educadora sexual Caroline Arcari, especialista na prevenção da violência sexual na infância, revela que em casos de abuso entre crianças não há como encontrar o famigerado culpado. “É um tipo de comportamento frequente em crianças que sofreram violência sexual. Elas tendem a repetir o processo com brinquedos, animais e, por vezes, com os colegas ou irmãos e primos mais novos. A linha entre agressor e vítima, no caso de crianças, não é traçada para fins de punição. As chances de que todas sejam vítimas em situações assim são altíssimas”, ressaltou.

Recentemente, um caso ganhou repercussão nacional: em junho, um garoto de 9 anos foi estuprado por cinco colegas numa escola de Fortaleza (CE). A mãe do menino cobra uma punição para a escola, que teria sido permissiva com situações de bullying, agressões entre alunos e, por fim, com o próprio abuso. Mesmo com o caso consumado e comprovado por exames do Instituto de Medicina Legal do Ceará, os especialistas em comportamento infanto-juvenil defendem que os meninos responsáveis pelo estupro não devem ser penalizados, mas sim acompanhados psicologicamente, assim como a vítima.

Neste campo de debate, a assessora técnica da Secretaria Executiva de Política pra Criança e Juventude de Pernambuco, órgão vinculado à Secretaria de Desenvolvimento Social, Criança e Juventude do Estado, Inês Dias revela que levantamentos estatísticos não mostram frequência nesse tipo de violência em que crianças estupram outras de idade semelhante. “Posso dizer que desde 2014, por exemplo, não há registro aqui no Estado de crianças que praticaram violência contra outra. É mais ‘fácil’ haver situação de adolescentes contra crianças”, pontuou ela que trabalha na área de proteção infanto-juvenil há 25 anos.

No entanto, ela não descarta que os casos possam ser negligenciados: “Apesar de incomuns, esses casos também podem estar sendo subnotificados por pessoas que não enxergam violência no ato. Mas ainda acredito que quando algo desse nível ocorre é porque a própria criança que realizou o ato tem sido violentada física ou psicologicamente. Vejo uma situação como essa como um caso extremo. É muito mais comum esbarrar com o que chamamos de jogos sexuais, que é quando as crianças estão descobrindo seu corpo, tocando umas às outras, mas a violência sexual não”, opinou Inês Dias.

Com experiência de 36 anos como gestor de escolas públicas e privadas no Grande Recife, o especialista em educação Joel de Carvalho confirma que o ambiente escolar é um dos principais espaços onde as crianças começam as descobertas sexuais. Ele alerta ainda que, na maioria das vezes, as unidades de ensino localizadas em áreas mais carentes são as que registram mais casos envolvendo o despertar precoce da sexualidade das crianças. “Já trabalhei numa escola pública nas áreas de morro do Recife em que havia uma menina de 12 anos que já estava grávida. Quando a gente chama a família para conversar identifica um ambiente desestruturado”, ressaltou Joel.

Ele ainda conta que ao conversar com diretores de outras escolas o tema sexualidade e educação sexual vem sempre à tona. O principal desafio neste campo, inclusive, seria fazer as famílias se envolverem e contribuírem com orientações sobre métodos contraceptivos, prevenção ao abuso, doenças sexualmente transmissíveis, gravidez na adolescência, entre os outros assuntos relacionados. “Nas escolas nós fazemos um trabalho de orientação que muitas vezes não acontece na casa dos alunos. Em outros casos os pais reclamam de tais assuntos serem abordados. Mas a verdade é que quando conversamos com um pré-adolescente que já tem vida sexual ele pouco sabe sobre sexualidade”, comentou o especialista em educação.

Joel de Carvalho também relata que os conflitos sexuais nas escolas não são bem solucionados. Quando algo mais sério acontece, como um assédio sexual, o caso é levado ao Conselho Tutelar, mas os casos acabam sendo minimizados. “Nunca aconteceu numa escola que eu trabalhasse, mas há histórias envolvendo crianças que mantém relação sexual nas escolas, principalmente nos banheiros. Já soube até de uma situação em que dois meninos de nove anos foram flagrados nus, um em cima do outro”, contou o diretor pedagógico.

Em meio aos debates sobre como agir perante tal situação de abuso, especialistas em sexualidade advertem que a melhor forma de combater é prevenir através de conversas sobre sexo e sexualidade. Explicar as diferenças entre os corpos feminino e masculino, falar sobre masturbação, reforçar que ninguém pode tocar em seu corpo sem consentimento, entre outros temas que podem ser considerados tabus.

“Pra esse desenvolvimento psicossocial sobre educação sexual ser saudável, ser protegido de violência e abusos, nada mais efetivo do que o diálogo. Porque o adulto que protege, que cuida da criança, vai entender as dificuldades dela e identificar qualquer situação de atenção e risco, inclusive dentro de casa, já que a maioria dos abusos acontece dentro do ambiente familiar”, ponderou Caroline Arcari.

A educadora sexual Julieta Jacob, que mantem o blog Erosdita, parceiro do Portal NE10, ainda complementa: “Não existe idade para conversar sobre sexo com as crianças. A diferença é a forma que isso será feito. Com os menores usamos uma forma mais lúdica, com os maiores temos que conversar sem medo do tabu. Estudos comprovam que a educação sexual não acelera o processo de amadurecimento sexual. Uma criança que teve mais orientação sobre sexo e sexualidade não desenvolverá seus instintos sexuais primeiro do que aqueles que não tiveram. Isso é mito”, explicou.

Na casa da fisioterapeuta Luana Jordão Emerenciano, 28 anos, as conversas sobre sexo e sexualidade não enfrentam muitos obstáculos. Ela garante que debate os temas com os filhos Maria Lilian, 5, e Diego Manoel, 7, de maneira mais leve e sem muitos tabus. “Conversamos de uma maneira simples, com uma linguagem que eles entendam […] Quanto à idade que deve ser abordada, acho que o interessante seria em torno dos 5 ou 6 anos, abordando de maneira lúdica, um pouco mais sucinta, e que, posteriormente, a conversa fosse sendo intensificada de acordo com o desenvolvimento da criança”, pontuou.

Sobre o trabalho conjunto entre família e escola no esclarecimento de dúvidas e situações envolvendo sexo e sexualidade, Luana Emerenciano revela que este ainda é um ponto em que ela e o esposo não concordam. Enquanto a mãe acredita no trabalho conjunto, o pai das crianças pensa que esse papel deveria ser assumido apenas pela família.

“Esse assunto deve ser abordado em casa e na escola, de acordo com o conhecimento da criança e sempre mantendo uma certa vigilância e cuidado porque muitas vezes a dúvida só é esclarecida no conhecimento prático. Quanto mais conhecimento e instrução, acredito que o risco da criança ser violentada seja menor. Já meu esposo, discorda na questão de ser abordado na escola. Na visão dele, cada criança vive um situação familiar diferente e muitas vezes influenciada pela posição religiosa.”

Números do Disque-Denúncia Nacional, Disque 100, apontam que mais de 17,5 mil crianças e adolescentes podem ter sido vítimas de violência sexual no Brasil em 2015. São quase 50 por dia durante um ano inteiro. Os números são relativos às denúncias feitas no passado e divulgados este ano no Dia Nacional de Combate à Exploração Sexual de Crianças e Adolescentes, em maio.

As denúncias de violência sexual contra crianças e adolescentes no Disque 100 foram apenas uma parcela das 80.437 registradas em 2015 contra esse grupo etário. Negligência e violência psicológica são outras violações registradas pelo telefone nacional. As meninas são as maiores vítimas, com 54% dos casos denunciados. A faixa etária mais atingida é a de 4 a 11 anos, com 40%. Meninas e meninos negros/pardos somam 57,5% dos atingidos.

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