A Jane Fonda “não tem moral” para falar de abuso sexual (Expresso)

A Jane Fonda “não tem moral” para falar de abuso sexual

PAULA COSME PINTO

Sm, há muita gente que responde o que escrevo no título deste texto depois de ler a mais recente entrevista da atriz. “Para teres uma noção de quanto um sistema patriarcal tem impacto na vida das mulheres: fui violada, fui abusada sexualmente quando era criança, fui despedida porque não dormi com o meu chefe e sempre achei que era culpa minha, que não tinha dito ou feito a coisa certa”, disse Jane Fonda à revista digital The Edit. Uma revelação que em vez de gerar indignação geral pela barbárie que o abuso sexual continua a ser nos dias de hoje, está sim a ser alvo das críticas mais irracionais que se possa imaginar.

Mas antes de chegarmos lá, aqui fica um pequeno resumo dos aspectos mais importantes que a atriz focou na conversa conduzida por Brie Larson: Fonda assume que foi vítima de abuso e assédio sexual, começando quando era ainda criança. Ressalva que conhece várias “jovens que foram violadas e que nem percebem que foi violação”, e que ela própria achou durante muito anos que a culpa do que lhe tinha acontecido era sua. Para Fonda, a eterna culpabilização da vítima “é uma epidemia”. Nesta conversa, a atriz revela também que foi alvo de sexismo ao longo da sua carreira, incluindo coação sexual por parte de superiores hierárquicos, e que perdeu oportunidades de trabalho por se recusar a ter relações sexuais. Sobre o universo do cinema, a atriz critica também o abuso da utilização imagem do corpo feminino (“tens de te despir tanto, hoje ainda há maior ênfase no aspeto”).

Nascida há 79 anos, Jane Fonda enaltece a importância do ativismo na rua e bate palmas aos movimentos feministas dos tempos de hoje, mas relembra que falar sobre feminismo na década de 50 e 60 não era fácil e que demorou muito até o conseguir fazer. Admite que parte da sua vida foi vivida com a “doença de querer agradar” e que demorou 60 anos até aprender que não faz mal “dizer não”. “Houve muita gente a tirar proveito, quem me dera saber o que sei hoje”, conclui.

Esta conversa, de mulher para mulher, é honesta, corajosa, direta e bastante crítica, sem nunca apontar dedos a nenhum nome em específico, mas sim a um sistema patriarcal instituído que funciona como grande catalisador das experiências mais difíceis vividas pela atriz. Um sistema que ainda hoje continua vivo, embora muita gente não o queira admitir. E as críticas feitas a esta declarações de Fonda são um belo exemplo disso.

“AGORA QUE ESTÁ VELHA E ACABADA”, FONDA SÓ QUER “CHAMAR À ATENÇÃO”
Começamos logo pela desvalorização do abuso sexual, algo que na cabeça dos muitos que têm comentado esta entrevista não passa de uma “moda em Hollywood as mulheres dizerem que foram violadas”. E porque é que o fazem? “Para chamarem à atenção”, ou seja, por uma questão de protagonismo fácil (exato, falar publicamente de uma situação traumática é fácil e agradável para qualquer vítima de violência sexual). Por outro lado, a sua sexualidade aparentemente ativa e com diferentes parceiros ao longo da vida também parecem justificar que este crimes sejam menores no seu caso. Ou seja, uma mulher que tem vários parceiros e/ou que desfruta da sua vida sexual livremente, não só não tem direito a dizer não, como, vai na volta, e até gosta que ser abusada.

Há também quem ache que o facto da atriz ter pousado para a revista Penthouse torna “ridículo” que agora critique a sexualização constante da imagem feminina. As pessoas esquecem-se que uma coisa é participar por vontade própria numa revista do género, outra coisa é achar pertinente e sensato que a sexualização da mulher seja usada para vender coisas tão descabidas como iogurtes, automóveis ou cartazes de filmes de alienígenas. Basicamente, que mostrar o corpo seja uma imposição para se ser aceite enquanto profissional num emprego, projeto, evento e demais situações que nada têm a ver com erotismo e sensualidade. Acho igualmente curioso que digam que só agora que Jane Fonda está “velha e acabada” (esta expressão também dá pano para mangas… uma mulher quando envelhece fica ‘acabada’?) é que vem fazer revelações destas. Resumindo, se o fizesse quando era nova, Fonda tinha muito a perder porque tornar-se-ia menos sensual ou desejável enquanto atriz por ter sido vítima de violação.

Todas estas questões atrás descritas fazem com que Jane Fonda não possa “vir agora armar-se em moralista”, como se fazer uma revelação destas e dar conselhos a mulheres que passam pelo mesmo fosse simplesmente uma questão de moralismo e não de solidariedade, coragem, alerta social e justiça, usando o mediatismo para fazer passar uma mensagem. O facto de ser uma mulher com vida sexual ativa, ter tido diversos parceiros aos longo da vida e de ter participado em filmes e sessões fotográficas de cariz sensual por vontade própria parecem retirar-lhe o direito à crítica feroz sobre algo que é um crime público, punido severamente por lei. No fundo, segundo este tipo de críticas, Jane Fonda se calhar até teve mesmo cota parte de culpa quando foi violada e assediada. Já para não falar do patrão, que provavelmente até teve todo o direito de prejudicar a sua carreira porque uma mulher que tem “este tipo de vida” não tem direito a dizer não a um avanço sexual. Enfim, que vergonha perceber que ainda andamos com esta linha de pensamento nos tempos de hoje.

Não é de estranhar que ainda haja tantas vítimas que prefiram a dor do silêncio, à desvalorização, banalização e descredibilização da sua palavra e trauma aquando da denúncia.

>Ver artigo original.

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