A sorte de ser abusado sexualmente por uma mulher (Quebrar o Silêncio)

A sorte de ser abusado sexualmente por uma mulher

DESINFORMAÇÃO DOS LEITORES

Em várias das notícias em que um rapaz é abusado sexualmente por uma mulher, há comentários que propagam a ideia de que o rapaz foi teve sorte, deve ter gostado e que não é abuso, como há também leitores que referem como gostavam de ter sido eles abusados quando eram jovens, alimentando uma desvalorização completa do abuso sexual e contribuindo para a normalização desde casos.

No meu tempo de escola sonhei ter um caso com uma prof mas nunca passou de um sonho…Sorte a do adolescente!

Parece existir uma descrença quase total no papel do rapaz enquanto vítima de abuso sexual e ainda uma postura de troça, servindo estes episódios como fonte de piadas e comentários sardónicos que desvitalizam o foco essencial destas notícias.

Que sorte a do rapaz , a mim as “profs” davam era porrada…

OS RAPAZES SÓ QUEREM SEXO

Tal como diz Jennifer Marsh, vice presidente da RAINN (Rape, Abuse and Incest National Network), “temos de acabar com a ideia de que os rapazes estão sempre à procura de sexo e que por isso é correcto se uma mulher tiver relações sexuais com um rapaz”. Os mitos de que um rapaz é sortudo porque uma mulher mais velha o iniciou na vida sexual, estão errados e prejudicam também a forma como adolescentes, vítimas de abuso sexual, vêem e avaliam o caso de abuso.

Sabemos que apenas 16% dos homens reconhecem que são/foram vítimas de abuso sexual. Na base desta forma de rejeição, está o feedback que de uma forma ou outra chega até aos homens. Quando um rapaz, vítima de abuso sexual, ouve (dos amigos, dos pares e da sociedade em geral) o quão sortudo foi por ter tido sexo com uma professora, por exemplo, como se pode esperar que esse mesmo rapaz consiga falar com alguém e desoculte os seus verdadeiros sentimentos?

Quando tinha 17 anos, tive uma “stôra” de geografia, boa, boa, boa, que doía. Ela devia andar pelos 25/30 anos. Pois a filha da mãe, nunca lhe deu para “abusar” de mim.

IDADE E O CONSENTIMENTO

Quando falamos de abuso de adultos com crianças de 6 anos, por exemplo, ninguém duvida da natureza do abuso. No entanto, à medida que a idade vai avançando essa noção de abuso começa a diluir-se para muita gente e é motivo de discordância.

Isto é vergonhoso. Um rapaz com 17 anos já sabe perfeitamente o que faz para além que só têm 10 anos de diferença

Quando a definição de abuso sexual se prende exclusivamente com a idade cronológica, outros factores são ignorados, como o abuso de poder por parte da mulher adulta (como no caso da professora, cargo esse de responsabilidade e de protecção dos alunos), a assimetria de poder (da professora sobre o aluno), o eventual consentimento do rapaz não significa que tenha sido um consentimento neutro e informado, entre outras situações de coerção, chantagem, manipulação.

Com 17 anos, cheio de força e vontades, essa stora foi um sonho tornado realidade. Que exagero.

É necessário haver uma alterações de valores, assente numa cultura de informação, onde as noções de abuso sexual não sejam baseadas em mitos e falsas crenças, mas sim na responsabilidade dos adultos face às crianças e jovens, como no real bem-estar das vítimas de abuso sexual. No caso do abuso sexual masculino, continua a existir ainda muitos valores que são obstáculos que dificultam o processo de cura. Estes mitos não são exclusivos das vítimas de abuso sexual: são ideias e preconceitos partilhados pela sociedade em geral e que afectam a percepção de como lidar com estas questões.

INVERSÃO DE PAPÉIS

Em alguns casos, quando se coloca a possibilidade de em vez de uma professora a abusar de um aluno, ser um professor a abusar de uma aluna, notamos que há uma alteração de posições face à situação e à responsabilidade do adulto. Há quem considere que esses casos já são de abuso, revelando que há uma diferença na forma como os casos são vistos, com base na expectativa social do que é ser rapaz e do que se espera do mesmo.

Eu nasci para não ter sorte que pena eu tenho de ela não ser minha professora

É fundamental haver informação de públicos que sensibilizem para a causa do abuso sexual masculino, de modo a criar públicos formados com consciência e com um conhecimento da real dimensão do abuso sexual masculino e as consequências provocadas nos homens e rapazes vítimas de abuso sexual.

>Ver artigo original.

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