BBB 17: A violência contra a mulher ganha mais um capítulo na rede Globo (El País Brasil)

BBB 17: A violência contra a mulher ganha mais um capítulo na rede Globo

Expulso do Big Brother Brasil, Marcos responde inquérito por agressão de sua companheira Emily

Andre de Oliveira

Nesta segunda-feira, uma semana depois da TV Globo ter afastado o ator José Mayer, acusado de assédio sexual, a edição do Jornal Nacional já anunciava que algo diferente aconteceria no Big Brother Brasil, reality show de maior sucesso da televisão brasileira. Poucas horas depois, quando o programa veio ao ar, o apresentador Thiago Leifert anunciou que o competidor Marcos Harter, 37 anos, estava sendo expulso da competição. O motivo foram as contínuas discussões entre Marcos e a estudante Emily Araújo, 20, que terminaram, em diferentes ocasiões, em gritos, apertões, beliscadas e terror psicológico.

As cenas, em que Emily reclamou de dor diferentes vezes, impressionaram um país já sensível com a temática do assédio sexual desde que a denúncia da figurinista Sullem Tonani veio a público. Alguns internautas e telespectadores já cobravam ações da TV Globo para o caso, mas foi na última discussão, em que Marcos encurralou Emily e gritou em seu rosto, que as redes sociais foram tomadas por pedidos de expulsão do competidor.

Nas imagens, vê-se que num primeiro momento o participante tentou passar uma impressão de autocontrole. Deu risada do nervosismo de Emily, que reclamava de falta de apoio do parceiro na competição, e fez gestos para que, em português corrente, ela abaixasse a bola. Se a tentativa foi mostrar que controlava a situação, não conseguiu. A atitude exalava cinismo. Não à toa, daí ao momento em que ele encurralou seu par contra a parede, botou o dedo em seu rosto calando sua boca, e começou a gritar, foi uma virada de centésimos de segundos.

As cenas correram a internet até chegarem à delegada Márcia Noeli, diretora da Divisão de Polícia de Atendimento à Mulher, do Rio de Janeiro. “Eu não assisto ao programa, mas quando vi as imagens logo percebi que se tratava de um caso clássico de violência doméstica que poderia ser enquadrado na Lei Maria da Penha”, diz Noeli. Para ela, a intimidação e o fato de ele não deixar espaço para Emily falar são sinais claros de violência. Ao pesquisar na internet sobre a relação dos dois, Noeli descobriu uma série de outros vídeos em que os dois discutiam e Emily reclamava de dores. Em um deles, depois de ter o braço apertado, a estudante aparecia com um roxo.

“Quando a coisa fica na agressão verbal, na intimidação, não é possível abrir inquérito sem a denúncia da vítima, mas ao ver a imagem em que ela aparecia ferida, levei o caso para a delegada Viviane da Costa que abriu o inquérito”, diz Noeli. Ao anunciar a expulsão de Marcos, Leifert disse que com base na abertura de inquérito, a Globo teve uma “nova e profunda conversa com Emily, inclusive com exame médico” e que “comprovados os indícios de agressão física”, a Globo resolveu tirar o competidor do programa. Agora, o caso segue em investigação. Em seu Facebook, Marcos disse que “como todo casal” eles passaram “por momentos de alegria, ansiedade, euforia e tensão” e que ele nunca teve “a intenção de machucar física ou emocionalmente” a parceira.

Para a promotora de Justiça Gabriela Manssur, especializada em violência contra a mulher, as imagens não deixam dúvidas sobre a intenção de Marcos. Ao saber da expulsão dele, contudo, Emily chorou copiosamente e disse “não saber por que aquilo estava acontecendo”. “Hoje, entre 25 pessoas que atendi, ao menos cinco mulheres estavam na mesma situação de Emily: eram vítimas de um relacionamento abusivo que não conseguiam reconhecer, assumindo para si a culpa pela ação deles”, diz Manssur. Segundo ela, se há algo de positivo no episódio é deixar claro do que se trata o abuso dentro de relacionamentos. “Toda mulher ao assistir essas imagens lembra-se de algo que já viveu ou presenciou”, reflete a promotora.

Não por acaso, quando o programa do dia foi encerrado e durante toda a madrugada e manhã desta terça-feira, a hashtag #EuViviUmRelacionamentoAbusivo dominou as redes sociais. Com ela, inúmeros relatos pessoais de casos de abuso começaram a ser compartilhados. A palavra sororidade, que significa a empatia e companheirismo entre mulheres, passou a ser repetida. Para Manssur, o caso acabou trazendo um salto de percepção: o discurso defendido por ativistas e profissionais ligadas aos direitos das mulheres ganhou uma dimensão nova ao aparecer tão claramente em um programa de massa que oferece ao telespectador a possibilidade de interferir no destino dos participantes. “Ficou claro o que é abuso e ficou claro também que não é apenas uma questão de defender uma causa, mas de conhecer seus direitos”, diz.

A conduta da TV Globo e o papel dos homens

Entre a agressão de Marcos e a expulsão do participante do programa, um dia se passou. Por isso, e por ter emitido sinais trocados – em que o apresentador Leifert chegou a dizer que, “o comportamento do casal nos preocupa” para logo depois afirmar que “as atitudes do Marcos nos preocupam” –, a emissora foi criticada em um primeiro momento. Depois, quando se decidiram pela expulsão, disseram que só o fizeram com certa demora, pois estavam esperando o parecer técnico da Polícia Civil.

Seja como for, a verdade é que a conduta da Globo foi bem diferente do que havia sido em 2012, quando um competidor do mesmo Big Brother Brasil, foi acusado de estupro. Na ocasião, o suposto agressor foi excluído do programa por “comportamento inadequado”. O caso acabou encerrado quando a vítima negou abuso sexual no Tribunal de Justiça do Estado do Rio de Janeiro. Dessa vez, a emissora deixou claro o motivo da expulsão. “A nossa casa está inserida em um contexto maior, que é o da lei”, disse Leifert. E, dirigindo-se ao público, falou que espera que o episódio faça as famílias que assistem ao programa refletirem sobre o que ocorreu.

“É claro que é valoroso que a discussão seja levantada em um programa de tamanha audiência e que a Globo tenha, no final, tomado a atitude correta, mas algumas coisas precisam ser ponderadas”, diz Letícia Bahia, editora institucional da revistaAzMina, publicação independente feminista. “É de se questionar porque a emissora não interviu antes sendo que as agressões vinham acontecendo sistematicamente. A Emily reclamou de dor, reclamou dos apertões, e a produção deixou o programa seguir? É importante lembrar que o Big Brother Brasil é um reality show, mas que ele também é roteirizado”, diz Bahia. Para ela, não se trata de condenar a emissora, mas de problematizar o papel dela no meio do caso.

Por fim, Bahia levanta o papel dos homens em episódios como esse. “Ao mesmo tempo em que surgiu a hashtag de apoio, surgiu também a hashtag #ForçaMarcos. Para além da culpa do Marcos, como fazemos para atingir esses homens que não refletem sobre o ocorrido e levam a questão como uma briga entre opostos?”, diz. A promotora Gabriela Manssur concorda: “A espada da lei não basta, não basta penalizar os Marcos, mas é preciso que eles enxerguem o abuso em suas ações, além de ser necessária a criação de mecanismos efetivos de ressocialização”. Bahia lembra que tais ações estão previstas na Lei Maria da Penha, mas que não fica claro qual órgão é responsável por tocar isso. “Em São Paulo existe um grupo de atendimento psicológico para homens acusado de agressão, mas é o único caso que conheço”, diz.

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