Como a prostituição é retratada na Mídia
(Bianca/Medium)

Como a prostituição é retratada na Mídia

NOTA: As opiniões expressas neste artigo não podem ser compartilhadas por Pornografia Destrói. No entanto, concordamos que a prostituição deve ser abolida.

A ZH fez uma matéria sobre um prostíbulo, que fica no Centro Histórico de Porto Alegre, composto por 14 apartamentos e com mais de 60 mulheres que diariamente tem seu consentimento sexual comprado — consentimento não se compra e sexo não existe sem consentimento, o nome disso é estupro.

O texto que é escrito por Marcelo Monteiro, e como atitude esperada de um homem, faz seu olhar patriarcal bastante presente ao decorrer da narração. Além do redator ignorar a humanidade delas diversas vezes durante a matéria, revela-se o macho ao tratá-las como se estivesse numa loja escolhendo o que levaria para casa: “(…)mulheres seminuas ou com roupas mínimas, unhas pintadas, variados penteados, a maioria em saltos altos, algumas tatuadas e quase todas com as pernas de fora. Há mulheres de diversas etnias, de todos os portes e pesos, com ou sem curvas.”

Ele também gosta de ressaltar que boa parte das mulheres que ali trabalham são “casadas ou compromissadas” e acha importante pontuar que algumas se casaram com ex-clientes. E também que há maridos que “relutam” em aceitar o trabalho de sua mulher, mas acabam se beneficiando mesmo assim com o dinheiro levado para casa no final do dia. E como se a relação heterossexual homem-mulher já não fosse uma relaçao hierarquica o sufuciente, essas relações só conseguem provar algo pior: mulheres casam-se com seus estupradores, convivem com eles diariamente e a “desaprovação” da renda delas vir da prostituição, por parte dos maridos, é puramente o sentimento de eles não se sentirem donos dos seus corpos.

Ah, pareceu muito oportuno ao redator citar um argumento liberal bastante conhecido: “a prostituição é a profissão mais antiga do mundo”; que basicamente afirma que estupro é o crime mais antigo do mundo, que afirma que as mulheres deixam sua humanidade de lado e não vêem outra opção à não ser a prostituição desde os primórdios da história. Isto pode ser explicado com uma simples analise de socialização de gênero: homens são criados para serem poderosos e as mulheres para serem submissas; a prostituição é violência de gênero na qual marginaliza e suprime mulheres (ou qualquer pessoa que representa a feminilidade), violando, portanto o direito das mulheres.

Por que vender o próprio corpo seria uma “escolha” somente de mulheres? Quem tem a escolha real dentro da prostituição?

“Se as mulheres realmente optam pela prostituição, por que são principalmente as mulheres desfavorecidas e marginalizadas que o fazem? Se quisermos discutir a questão da escolha, vejamos quem está fazendo a escolha real no contexto da prostituição. Certamente a questão não é por que as mulheres supostamente optam por estar na prostituição, mas por que os homens escolhem comprar os corpos de milhões de mulheres e crianças em todo o mundo e chamá-lo de sexo. Filosoficamente, a resposta ao debate de escolha não é negar que as mulheres são capazes de escolher dentro de contextos de impotência, mas de questionar quanto valor real e poder essas chamadas escolhas conferem. Politicamente, a questão se torna, se o Estado sancionar a indústria do sexo com base na alegação de que algumas mulheres optam pela prostituição quando no caso da maioria das mulheres é realmente escolha conformidade com as únicas opções disponíveis? Quando os governos idealizam a alegada escolha das mulheres de prostituírem, legalizando, descriminalizando ou regulando a indústria do sexo, endossam uma nova gama de conformidade para as mulheres. Cada vez mais, o que é defendido como uma escolha não é um triunfo sobre a opressão, mas outro nome para ela.” — Janice Raymond, trecho do capítulo 1 do livro “Não uma escolha, não um trabalho”.

Lá existem várias medidas de proteção para as mulheres que ali trabalham, como é narrado pela Karina, de 49 anos, que é integrante da associação de prostitutas do prédio: “Na portaria, menores e suspeitos de crimes são barrados. A gente tenta afastar todos os meios que possam nos causar problemas”; Mas, o que garante que estas mulheres, mesmo com as “medidas” (olhar identidade e garantir que a pessoa não carregue drogas ou seja um “suspeito” criminoso — o que caracteriza um suspeito criminoso?) podem estar seguras nesta profissão? Muitas mulheres são mortas dentro da prostituição; existem dezenas de manchetes de homens “clientes” que por X motivo as mataram. Elas correm risco de agressão e morte diariamente porque se relacionam diretamente com o seu opressor, essas mulheres vivem em situação de vulnerabilidade, elas tem na prostituição a última saída de renda, como a Bia, que tem 29 anos e é mãe de dois filhos conta:

“Na verdade, isso aqui não foi uma opção. Foi falta de opção, devido ao desemprego”.

Ao decorrer da matéria do ZH pode-se observar como fica clara a naturalização da mercantilização do corpo da mulher. Como as mulheres que “trabalham” com a prostituição deixam de ver seu corpo como algo que lhes pertence, para vê-lo como mercadoria, forma de gerar renda. A Mariana, uma das entrevistadas pelo Monteiro, relata que foi levada para a prostituição pelo próprio marido, porque ELE queria dinheiro e ela deveria dá-lo. Estas mulheres se desumanizam para sobreviver neste meio, como afirma o psiquiatra alemão Dr. Lutz-Ulirich, fundador e diretor do centro de Trauma Psicológicos e Terapia por Trauma de Baixa Sinfônica:

“Isso envolve exploração e humilhação sexual — e é um atentado à dignidade da mulher.”

Dr Lutz-Ulirich também diz: “Os homens pensam: “Eu comprei o corpo de uma mulher, então eu tenho o direito de usá-la.” Essa habilidade em comprar mulheres é o problema real. Homens não percebem isso no momento, porque eles estão pagando dinheiro para um produto de balcão, por assim dizer.”

Note a maneira como Mariana é retratada pelo redator: “(…) Aos 36 anos, Mariana está em plena forma. Corpulenta, coxas grossas e rosto bonito(…); Ele também calcula a relação de horas “trabalhadas” por dia e a renda que ela tem: “(…) trabalha seis horas por dia, de segunda a sábado, e faz entre 20 e 25 programas por dia. Cada período de meia hora custa de R$ 50 a R$ 150. Por mês, chega a ganhar de R$ 6 mil a R$ 8 mil.” Ela diz que trabalha para dar educação aos filhos e Monteiro conta: “Ela garante que a vida de mulher de programa não é “fácil”, como se costuma dizer.”:

“Quando estou na TPM, tenho pavor que toquem em mim. Mas o meu trabalho exige que toquem em mim. Então, fecho os olhos e lembro que estou trabalhando.”

Ele trata o relato dela com completo deboche, além de ignorar qualquer questão psico-social ao escrever uma matéria que deveria totalmente ser voltada à discussão social. A mídia não é preparada para falar de prostituição. Mês passado foi a página Mídia Ninja no facebook, que se posiciona como esquerda revolucionária, mas apoia a mercantilização do corpo das mulheres.

Muitos estudos e analises sociais já disseram que as mulheres trabalham nisso puramente por falta de opção de renda. Isto fica bem ilustrado ao ler os relato de mulheres que trabalhavam em diferentes áreas antes de chegar na prostituição, pois o que ganhavam nunca foi o suficiente para o sustento, porque boa parte delas é mãe solteira e quer dar uma educação e vida de qualidade aos filhos. Isso é relacionado diretamente com a não paridade salarial que existe entre homens e mulheres, com o acesso a educação e com a sociedade que nos trata como objetos e a principal dissipadora desse tipo de discurso machista objetificador é a mídia. Separei, da matéria do ZH mesmo, relatos sobre as dificuldades do mercado de trabalho que elas fazem durante a entrevista com Monteiro:

“Se tu fores trabalhar em uma firma, não tem como sustentar medicação, fralda, mais outra criança, gás e luz. Sendo mãe solteira, não existe como. E eu não pensei duas vezes.” — Tati, 31 anos.

“Trabalhei em outros lugares, mas o dinheiro nunca me manteve. Então, decidi trabalhar na noite. Comecei na noite, há cinco meses, depois, vim para cá” — Bruna, 18 anos.

“Mãe de dois filhos, Bia, 29 anos, trabalhava como cozinheira, mas o restaurante faliu há seis meses. Sem marido e sem condições de alimentar as crianças, optou pelo caminho da prostituição.”

A prostituição é normalizada como uma “opção para as pobres” e disfarçada como migração voluntária para o trabalho sexual. Como a cientista Vandana Shiva escreve,

“As mulheres estão vendendo seus corpos para sobreviver. E esse crescimento na prostituição não é uma escolha que as mulheres estão fazendo. É a derradeira miséria em que estão sendo empurradas pelas forças da globalização… Há dois tipos de sobrevivência — há sobrevivência com dignidade, simplicidade e autonomia e, em seguida, há o tipo de sobrevivência que a globalização está empurrando as pessoas — sobrevivência com violência, indignidade e a miséria total.”

• Referências traduzidas por Carol Correia — pra mais conteúdo sobre a abolição da prostituição (e da pornografia), acessa o site dela! https://solemgemeos.wordpress.com
Créditos nas imagens. Imagem de início de texto de autor(a) desconhecido(a).

>Ver artigo original.

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