Os manuais do Facebook (Pedro Doria, Estadão LINK)

Os manuais do Facebook

No mês de janeiro, foram registradas 54 mil acusações de pornografia de revanche — quando alguém, por vingança, publica imagens que envolvam nudez de uma ex-parceira.

Moderar a maior rede social do planeta não tem nada de trivial

Por Pedro Doria – O Estado de S.Paulo

O clima anda tão tenso que por vezes esquecemos que há outros temas relevantes no mundo. Assuntos que nos impactam a vida tanto quanto os políticos que batem a cabeça sem saber bem para onde ir, em Brasília. É o caso, por exemplo, do furo que o diário britânico The Guardian trouxe sobre o Facebook esta semana: os manuais internos que detalham como a rede social lida com censura, moderação e postagens denunciadas pelos leitores.

O último levantamento do Centro de Pesquisas Pew sobre jornalismo e mídia faz, por coincidência, um ano hoje. Saiu em 26 de maio de 2016 e focou particularmente na relação do noticiário com as redes. Os números são americanos, mas o comportamento do brasileiro costuma ser muito parecido com o de lá. Abraçamos o digital, novidades tecnológicas e nos relacionamos pela internet com intensidade equivalente ou maior. E, lá, 62% das pessoas se informam sobre o noticiário em redes sociais. Dentre aqueles com contas no Facebook, 66% pensam no site como uma fonte de notícias.

Da maneira como o Guardian o caracteriza, com seus 2 bilhões de usuários, o Facebook é o maior censor do planeta. Censura é um termo discutível. Um jornal, uma revista, editam: selecionam os temas considerados importantes e definem como abordá-los. Quem pensa no Facebook como uma fonte de informação a respeito do que ocorre no mundo pode, perfeitamente, encarar a decisão do que é permitido publicar como um processo parecido com o de editar. Edição é uma responsabilidade quando seu intuito é melhor informar. O leitor espera uma seleção do que é relevante, assim como espera que um veículo não compactue com crimes, não ajude a proliferar informação falsa e garanta segurança a quem precisa de proteção.

O Facebook, porém, não se considera um veículo de comunicação, mas sim uma plataforma que facilita o encontro de pessoas.

O desafio não é pequeno. Toda semana, aproximadamente 6,5 milhões de perfis são denunciados como falsos e os moderadores têm de avaliar se devem ser bloqueados ou não. No mês de janeiro, foram registradas 54 mil acusações de pornografia de revanche — quando alguém, por vingança, publica imagens que envolvam nudez de uma ex-parceira. Em geral, as vítimas são mulheres. Destes todos, 14 mil foram considerados realmente abusivos e, em 2,4 mil, houve indícios de extorsão. Chantagem pura e simples. Pior: 33 casos envolviam crianças.

A questão é realmente delicada. Os manuais tornados públicos pelo Guardian explicam aos moderadores, passo a passo, como avaliar se um determinado conteúdo pode permanecer no ar ou não. No caso destes guias obtidos pelo jornal londrino, tratam de violência, terrorismo e sexo. Tudo precisa ser cuidadosamente definido para que a rede opere com uniformidade.

Mas nenhuma decisão é trivial. Os moderadores, segundo fontes ouvidas pelos repórteres, sentem dificuldade de avaliar caso a caso e o trabalho se torna estressante. Linguagem violenta, por exemplo. A maior parte das ameaças de violência em texto devem ser ignoradas — não são críveis, afirma o manual. Figuras de linguagem. Podem ser desagradáveis, mas fazem parte do jogo da livre expressão. O conceito parece razoável, mas a prática não é. Segundo o texto, quanto mais específica for a ameaça, mais crível ela deve ser considerada.

Moderar a maior rede social do planeta não tem nada de trivial. O esforço pela construção de um código que dê espaço amplo para a expressão e só interfira em casos extremos é louvável. Só há um problema: os manuais são secretos, não há transparência. A maioria sequer desconfia que há moderação.

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