Nudes: O que fazer quando seus alunos estão enviando esse tipo de foto pela internet (Huffpost Brasil)

Nudes: O que fazer quando seus alunos estão enviando esse tipo de foto pela internet

Toda a escola fica sabendo. E, nesse movimento, professores e funcionários também.

Por Laís Semis

Cutting, suicídio, Baleia Azul, bullying e cyberbullying. Essas expressões se tornaram comum no ambiente escolar, com estudantes passando por abusos sistemáticos de colegas. E com um celular no bolso, todo esse universo está a um clique de distância de obter mais informações e de ser alvo ou ator de uma dessas ações. Por isso a série 13 Reasons Why (“Os 13 Porquês” em português) repercutiu tanto (se você ainda não sabe sobre o que se trata, vale dar uma espiadinha na resenha que publicamos em NOVA ESCOLA sobre o tema).

No fim de maio, a redação de NOVA ESCOLA e Gestão Escolar recebeu 30 educadores para discutir clima escolar a partir de algumas situações apresentadas pela produção da Netflix. A maior parte da conversa passou pelos comportamentos citados acima e tinha, em diversos casos, uma arma poderosa para se propagar: o celular. Como indica a pesquisa TIC Domicílios 2015, 70% dos indivíduos de 10 a 15 anos e 87% dos de 16 a 24 usam a internet no dispositivo móvel.

“Recentemente minha filha contou que a amiga mandou nude para um menino e a escola inteira recebeu a foto”, contou uma das participantes do evento que é estudante de Pedagogia. A menina era do 7º ano e o menino do 9º. “Era uma foto só da parte da frente, mas é uma situação que a menina está tendo que lidar e minha filha, por ser amiga dela, também. Estou sempre orientando, falando que tudo o que se coloca em mídia fica e perdemos o controle sobre ela. É uma situação complicada e que aparece com frequência nas escolas”, continua.

De acordo com Marcelo Clementino, vice-diretor da EE Carlos Maximiliano Pereira dos Santos e um dos convidados de NOVA ESCOLA para mediar as conversas, os nudes circulam desde as séries iniciais do fundamental, mas se intensificam quando os estudantes ficam mais velhos. “Nossa instituição desenvolve um projeto de professores tutores que acompanham o aluno além da vida acadêmica, o que nos aproxima deles e abre um canal de diálogo. É cada coisa que contam para gente que nos deixam de cabelo em pé!”, relata.

Essas fotografias e vídeos nus enviados e instantaneamente dissipados pelas redes sociais abalam a convivência e saúde mental das vítimas do cyberbullying.

Alvo de rótulos e comentários maldosos, a consequência pode se manifestar com a vergonha de ir à escola, baixo rendimento em aula e até a vontade de abandonar os estudos. “O celular maximiza a comunicação. Se entro em contato com uma situação, mas não tenho um celular na mão, tenho todo um período até encontrar as pessoas e tomar uma atitude”, diz Gustavo Estanislau, especialista em Psiquiatria da Infância e da Adolescência e integrante do grupo Cuca Legal, da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), que promove o tema saúde mental nas escolas. “Esse período me ajudaria a trabalhar essa questão de uma forma bem mais racional”, completa.

Os relatos dos educadores mostram que em diversas situações o responsável pelo vazamento das fotos não é o receptor do nude. “Às vezes, a culpa fica apenas entre quem mandou e quem recebeu, mas muitas vezes o problema está ao redor. Já aconteceu caso de um celular ser furtado e vazarem fotos. Tanto o menino quanto a menina saíram da escola”, compartilha uma das professoras presentes. “Eles próprios também emprestam o celular e são sabotados pelos colegas. Os nudes são frequentes. Eles chegam para mim e mostram. A relação de comunicação entre eles é muito complicada, porque eles praticam muitas vezes o bullying sem saber que é por esse meio”, complementa o vice-diretor Marcelo Clementino.

Para lidar com um nude ou outra agressão virtual, os procedimentos são os mesmos do bullying tradicional. “Temos que conversar com quem foi agredido e com o agressor, mas são conversas individuais. Sempre será necessário fazer um trabalho com os que são espectadores também porque eles também estão envolvidos”, explica Luciene Tognetta, professora de psicologia escolar da Universidade Estadual Paulista (Unesp) e coordenadora do Grupo de Estudos e Pesquisas em Educação Moral (Gepem).

De acordo com a especialista, a situação pede um protocolo de atuação. Por isso, é importante que a conversa seja feita pelo orientador educacional ou que os professores recebam uma formação para saber como introduzir o diálogo em cada caso, levar o autor a reparar o dano causado e lidar com os espectadores. “O professor tem que estar bem preparado, com linguagem e abordagem que não seja de exposição”, aponta Luciene Tognetta.

Clementino concorda: “Temos que estudar e nos preparar para conseguir buscar soluções e dar feedback para as famílias de como ajudar esses adolescentes”. Após a conversa, os alunos envolvidos nos casos de cyberbullying precisam ser responsabilizados. “Quem ajuda a pensar a responsabilização é o próprio agressor. Não deve ser uma punição, mas pensar como é que ele vai reparar o dano causado para vítima”, indica a professora da Unesp.

Quando o caso acontece com um adolescente e a escola tem conhecimento, o ideal é sugerir ao aluno que os responsáveis sejam informados. No entanto, para não quebrar o elo de confiança criado, é preciso respeitar a decisão do adolescente. “No caso das crianças, [os pais] devem ser convocados porque eles precisam saber. Não se trata apenas de uma relação de confiança, mas de obediência”, esclarece Tognetta.

Mas a escola não pode trabalhar apenas quando os casos vêm à tona. O trabalho preventivo deve ser feito durante todo o ano letivo. “A superação da condição da agressão física ou virtual só se dá com a mudança na verdade do clima da escola, e mudá-lo é dar aos estudantes a possibilidade de serem protagonistas das suas ações, discutir os problemas que têm e fazê-los com que se sintam respeitados”, explica a especialista em psicologia escolar.

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