Assédio sexual, prostituição e falta de estrutura: conheça a realidade por trás do sonho de ser jogador de futebol (R7)

Assédio sexual, prostituição e falta de estrutura: conheça a realidade por trás do sonho de ser jogador de futebol

Ex-goleiro Alê Montrimas revela detalhes sórdidos sobre categorias de base

Talyta Vespa, do R7

“A realidade do futebol no Brasil é mascarada pelo sonho. Jovens que saem de comunidades carentes são expostos a condições precárias nos alojamentos, dormindo sob arquibancadas, cercados de ratos e se alimentando mal. Além disso, como jovens, inocentes e sem estrutura, precisam enfrentar o assédio sexual de pessoas muito mais velhas e poderosas”. Foi em uma conversa com o R7 que o ex-goleiro da Portuguesa, Aleksander Montrimas, explicou o que realmente se passa dentro das categorias de base de muitos clubes pequenos ao redor do Brasil.

Aos 35 anos e aposentado, Aleksander escreveu o livro Futebol — Sonho ou Ilusão?, onde relata as principais dificuldades que jovens enfrentam quando abandonam tudo em busca do sonho de se tornarem jogadores de futebol. “Eu fui jogador durante 20 anos. Resolvi parar para escrever esse livro porque entendi que era hora de eu utilizar meus conhecimentos para ajudar outros garotos que, como eu, sonhavam com a carreira no esporte”, contou Aleksander, que explicou como a fragilidade desses adolescentes atrai grandes dirigentes.

Vivência e negação

As dificuldades começam logo durante as seleções, feitas por empresários em cidades pequenas e de baixo poder econômico. É lá que esses olheiros encontram a maior parte de suas vítimas: “Muitos empresários que vão a comunidades carentes e encontram um garoto talentoso acabam utilizando desse poder para abusar sexualmente deles. Tanto o garoto como os pais se deslumbram com a oportunidade de jogar em um clube, começar a carreira em categorias de base para que, futuramente, chegue à posição dos ídolos brasileiros. Os pais entregam os filhos nas mãos desses olheiros, confiam, agradecem. E mal sabem eles que podem estar cometendo um grande erro”, explicou o goleiro.

Segundo Aleksander, após essa seleção, muitos meninos ficam em hotéis ou até mesmo na casa do empresário esperando o dia do teste no clube. É nesse momento que há uma aproximação, tendo em vista que esses garotos não têm estrutura psicológica para a imposição: “Estamos falando de crianças pobres, cujas famílias não têm muita estrutura. O menino jamais vai contar ao pai o que houve, ele se sente culpado”, disse.

O ex-jogador explicou que há mais duas formas de aliciação além da explicada acima — essas já acontecem dentro das categorias de base: “A forma mais comum é quando o menino está em um clube com condições precárias, sem receber salário, comendo comida de má qualidade, e um diretor ou detentor de um cargo grande o oferece benefícios em troca de favores sexuais. Pode ser um jantar, uma pizza, R$ 50 ou até mesmo posições no clube”.

De acordo com o atleta, a aproximação se dá em um momento em que o jogador esteja sozinho no vestiário, ou acompanhado de poucas pessoas: “Eu mesmo presenciei um colega de categoria de base sendo aliciado. O diretor sentou ao seu lado, passou a mão em sua perna e o convidou para um jantar. Comigo, já aconteceu. Mas como sou privilegiado e vim de classe média, tive estrutura em casa, e sempre soube como agir nesses momentos. Então não cedi”, explicou.

A terceira maneira de abordagem se dá fora dos clubes, segundo Aleksander. Quando os meninos saem do alojamento para ir à escola, muitos carros os abordam na rua. Esse é um meio de prostituição ilegal ao qual muitos garotos se submetem com esperança de ter uma condição de vida melhor.

O que fazer?

Aleksander explicou que a melhor forma de reagir a esse tipo de abordagem é fingir que não está acontecendo: “Dar uma risada, desconversar e fingir que aquilo não está acontecendo é uma forma de se esquivar sem ser rude. É claro que o melhor remédio é denunciar, mas durante a abordagem, é melhor dar de ombros”.

O silêncio do Brasil

Em novembro do ano passado, o ex-jogador de futebol inglês Andrew Woodward deu uma entrevista excluisva ao britânico The Guardian e confessou que foi abusado sexualmente pelo ex-treinador, Barry Bennell. O técnico foi condenado a nove anos de prisão em 1998, após ter confessado ser autor de abusos sexuais contra seis meninos de idades entre nove e 15 anos.

Woodward afirmou que foi molestado tantas vezes que mal se lembrava. O depoimento do jogador estimulou que outros atletas viessem a público para falar sobre a prática ilegal no futebol: Paul Stewart contou que foi abusado sexualmente dos 11 aos 15 anos por um treinador que se comprometeu a “fazer dele uma estrela”; o ex-jogador da equipe juvenil do Manchester City, Jason Dunford, aproveitou para denunciar um grupo de abusadores que havia migrado para o esporte.

Isso lá fora. No Brasil, a exploração sexual ainda permanece debaixo dos panos. E é exatamente por não haver voz para gritar a realidade que Aleksander fez disso uma missão: após o lançamento do livro, para o qual o ex-goleiro recebeu o apoio do Sindicato dos Atletas Profissionais de São Paulo, ele começou a palestrar em escolas de futebol infantis, uma vez que acredita que a melhor forma de evitar traumas futuros é a conscientização prévia. Com a hashtag #ChegaDeAbuso, Aleksander quer que os jovens tenham o mesmo privilégio que ele teve: conscientização.

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