A mulher da blusa estampada
(Osvaldo Gonçalves, Jornal de Angola)

A mulher da blusa estampada

Osvaldo Gonçalves |

Se a mulher que entrou no táxi, de blusa vermelha, estampada, smartphone em punho, nos dissesse que era a mesma que uma semana atrás usava uma blusa também estampada amarela e branca, teríamos querido saber como ficara o caso que a tínhamos ouvido relatar quando supostamente regressava do comité da OMA, aonde fora chamada por ter agredido a sobrinha de 17 anos.

A agressão, que para a mulher não passara de um justo correctivo, fora tão inusitada, que virou conversa no bairro inteiro, e de tal forma contundente que a coordenadora chamou a mulher para saber de sua justiça, antes que o caso fosse parar à esquadra da Polícia. Enervada, tinha usado o chinelo “facilita” para surrar a sobrinha, mas bateu-lhe apenas na região do sexo, “para lhe tirar as vontades”.

A menina era filha de um irmão desaparecido na guerra. Criada “como filha de casa”. Tinha direito a tudo. Um anexo do tipo suite fora construído no quintal só para ela. Sem entrar na faculdade, já fizera vários cursos, incluindo de formação profissional e empreendedorismo.

Enquanto esperava respostas aos currículos enviados a empresas privadas e repartições públicas, ajudava nos negócios. Cerveja, gasosa, picolés, pipocas. Até magoga. Sopa, não. Era ela mesma quem cozinhava e atendia os clientes. De resto, tinha direito a tudo.

Foi na suite dela que a tia encontrou o primeiro indício. O outro sobrinho, filho de outro irmão perdido na guerra e que vivia lá em casa igualmente como um filho, com direito a tudo, usava sempre um boné que trazia escrito em cima da pala “50 Cent”, que alguém lhe dissera significar cinquenta centavos, mas era o nome de cantor norte-americano muito famoso, que assim disfarçava o dinheiro que de facto possuía: “50 lwei” no tempo do kwanza burro, tão burro que se esquecera do boné no quarto dela, em cima da cama. Desconfiada, faz uma “estala” e acabou por encontrar os dois. Primos como irmãos apanhados em flagrantes delícias.

No julgamento sumário que se seguiu, primeiro tentaram-se defender um ao outro, mas confrontados com a gravidade do problema logo começaram a trocar acusações. Ela era a mais velha dos dois, tinha estudado mais, mandava mais lá em casa, era como filha mais velha da tia, dizia o rapaz. Até podia ter razão nalgumas coisas, mas no fundo dizia tudo aquilo apenas porque se queria safar. Nada o ilibava ou diminuía a culpa, nem mesmo atenuava a pena do rapaz, mas tudo agravava a da rapariga. Era ela a origem da tentação, com as mini-saias, as collantes e os calções curtinhos, era dela que provinha o odor a sexo. Tudo era culpa dela, do lado sexual dela. Daí a escolha do correctivo: “lhe bati mesmo com o facilita. Mas só lhe dei surra no sexo. Para lhe tirar as vontades”.

Contava o episódio com um quê de orgulho misturado com toda a sinceridade que pode haver à face da terra. Dir-se-ia tratar-se da revolta dos inocentes. Tinha em si reunida todas as características da mulher angolana, a simplicidade das palavras, a humildade, o espírito de humanidade das pessoas que sabem dividir com os outros o pouco que a natureza lhes deu e o outro tanto que foram juntando ao longo da vida. À parte isso, tinha em si toda a arrogância do Mundo.

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