Diga-me se você ainda pensa que a prostituição é empoderadora depois de ouvir o que os prostituintes têm a dizer (The Independent, medium)

Diga-me se você ainda pensa que a prostituição é empoderadora depois de ouvir o que os prostituintes têm a dizer

Conheci um prostituinte¹ que me disse que a prostituição “evita estupros” e que, inversamente, se os homens fossem impedidos de prostituir por feministas torpes, seriam levados a estuprar “mulheres de verdade”

Julie Bindel

Quando comecei a fazer campanha contra a violência doméstica, há 35 anos, os perpetradores eram invisíveis. Praticamente, ouvíamos falar apenas das vítimas, e o perpetrador era o homem invisível. Foi o mesmo com o estupro e com o abuso sexual contra crianças. As mulheres sobreviventes dessas atrocidades eram frequentemente empurradas a falar sobre “sua recuperação”, ou sobre como ajudaram outras mulheres a superarem sua provação, enquanto o elefante na sala era visível apenas para alguns.

É por isso que decidi que um dos meus capítulos no meu próximo livro sobre o comércio sexual mundial seria sobre o comprador de sexo — esse enigma, a nuvem de fumaça, o rosto pixelado, o homem que raramente é nomeado.

Durante minhas conversas com as 50 sobreviventes do comércio sexual que entrevistei para esse livro, ouvi muito sobre os prostituintes. Nada bom, a menos que você classifique assim o estranho comentário “pelo menos ele tomou banho”, ou “ele não me estuprou daquela vez, o que foi um alívio para mim”.

Minha amiga Emma Humphreys, que morreu em 1998, foi quem primeiro me abriu os olhos para o abuso no cerne do encontro entre o prostituinte e a pessoa prostituída. “Por que ele faz isso?”, ela me perguntou. “Se não o fizer, seu pau não cairá, e é ele quem escolhe fazê-lo, não a mulher. Ela está apenas desesperada, ou viciada em drogas, ou tem medo de seu cafetão”.

Emma está dizendo o que todas as mulheres na prostituição sabem muito bem. O prostituinte tem máxima escolha, as mulheres, mínima. Eles estão pagando por sexo porque sem o dinheiro a mulher não consentiria. Que outra coisa chamamos sexo sem consentimento?

Estive entrevistando compradores de sexo desde 1999, quando eu, com sobreviventes do comércio sexual e com outras ativistas feministas, criei em West Yorkshire um programa de reeducação para homens que pagam por sexo. Em 2009, fui pesquisadora em um grande estudo em seis países sobre homens que compram sexo. Eu fazia parte da equipe que entrevistou 103 compradores de sexo em Londres. Mais de 50% dos homens, que foram entrevistados longa e presencialmente, admitiram saber que as mulheres que eles compraram foram traficadas, exploradas por um cafetão, ou coagidas de outra forma. Nenhum homem escolheu não fazer sexo com as mulheres ao perceber isso.

Os homens, principalmente britânicos brancos, falaram sobre como decidiram com que mulher fazer sexo, geralmente com base em como percebiam sua etnia ou sua submissão.

“Eu fiz uma lista na minha cabeça. Eu disse a mim mesmo que estaria com diferentes raças, por exemplo: japonesa, indiana, chinesa… Uma vez que tivesse estado com uma delas, riscava-a da lista. É como uma lista de compras”, disse-me um prostituinte.

“Selecionar e comprar tem algo a ver com dominação e controle”, disse outro.

Como me disse uma mulher prostituída, as mulheres são nada mais que uma “escarradeira para o esperma dos homens”. Isso é confirmado pelo que nos dizem os homens.

“Uma prostituta é como uma válvula de escape para uma panela de pressão”, disse um. “Você paga pela conveniência, um pouco como ir a um banheiro público”, disse outro dos sedutores.

Meu livro explora como e por que a sociedade em geral compra e perpetua a mitologia sobre por que os homens pagam por sexo. Mesmo entre homens de esquerda, que afirmam ser pró-feministas, há uma visão de que os homens “precisam” de uma “válvula de escape”. Owen Jones, por exemplo, escrevendo sobre um caso em que três juízes foram demitidos por assistir a pornografia enquanto supostamente deliberavam no tribunal, refletiu: “Nada disso era ilegal, mas, ainda assim, eles foram envergonhados publicamente e demitidos… Quem sabe um juiz, que de outra forma estaria tenso, possa concentrar-se melhor, se buscar um pouco de alívio.”

A ideia de que assistir a pornografia — que é prostituição filmada e fotografada — pode aliviar a tensão é uma justificativa clássica do prostituinte, conforme ilustrado no comentário acima.

Durante uma das minhas viagens de pesquisa para o meu livro, aos Países Baixos, onde o comércio sexual foi legalizado em 2000, conheci um prostituinte que me disse que a prostituição “evita estupros” e que, inversamente, se os homens fossem impedidos de prostituir por feministas torpes, seriam levados a estuprar “mulheres de verdade”. Esse é um dos mais perniciosos dentre todos os mitos sobre a prostituição. Em primeiro lugar, é repugnante e deveria ser um anátema para todas as feministas que nos digam que os homens estão programados para estuprar se não descarregarem seu esperma. É uma das visões mais pessimistas e imprecisas da sexualidade masculina que já ouvi.

Mas, igualmente perigosa é a visão de que algumas mulheres devem ser disponibilizadas aos homens para que sejam violadas sexualmente, de modo que as “outras” mulheres possam estar a salvo do estupro.

Comprar sexo não é uma necessidade, nem um direito humano. Mas é um direito das mulheres e das meninas crescerem em um mundo onde a prostituição seja uma ruína do passado.

O livro de Julie Bindel sobre o comércio sexual mundial será publicado pela Palgrave McMillan no dia 27 de setembro de 2017.

¹ (N.T.) No original, punter: aquele que “compra sexo”.
Tradução: Leonardo Paradeda

>Ver artigo original.

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