Larry Flynt, o último rei da pornografia: “Nem um escândalo sexual acabaria com Trump” (El País Brasil)

Larry Flynt, o último rei da pornografia: “Nem um escândalo sexual acabaria com Trump”

NOTA: 54 anos atrás, uma previsão foi feita na frente do Congresso dos EUA de que a pornografia inundaria a América sob o disfarce de “liberdade de expressão”. Larry Flynt abriu os portões da inundação.


Ainda em plena forma, pioneiro do ‘pornô hardcore’, dono de um império de mídia e ícone da liberdade de expressão nos EUA, volta a acertar contas com os conservadores do país que o atacam há décadas

PABLO XIMÉNEZ DE SANDOVAL

Nos Estados Unidos é um direito constitucional rir de qualquer pessoa e de sua mãe. Ou dos dois ao mesmo tempo. Graças a Larry Flynt. Fundador da marca Hustler, um império da pornografia. Sobrevivente de uma vida de excessos. Paraplégico por causa de um atentado. Seu nome é sinônimo de incômodo para políticos. Pervertido por profissão e ícone dos direitos civis, Flynt é um personagem irreproduzível em qualquer país que não seja os Estados Unidos. Estamos diante de um ícone norte-americano.

Para quem está fora dos Estados Unidos, Larry Flynt tem o rosto e a energia do ator Woody Harrelson e sua história é aquela contada no filme de Milos Forman O Povo contra Larry Flynt (1996). Hoje ele é um homem de 74 anos preso a uma cadeira de rodas de ouro empurrada por guarda-costas. Fala lentamente e com dificuldade, arrastando as palavras. Tem o rosto inchado. Custa-lhe manter o olhar fixo. É preciso falar com ele bem alto porque não escuta bem. Mas sob as dificuldades físicas continua existindo um gozador com um discurso contundente.

Não oculta sua raiva com o que está acontecendo nos Estados Unidos. No último mês de janeiro, Flynt publicou uma carta aberta aos meios de comunicação de seu país. Acusava-os de ter dado asas a Donald Trump ao cobrir sua campanha pensando só na audiência e sem questionar o que ele dizia. “A falta de jornalismo responsável de vocês traiu esta grande nação”, escreveu. O que irrita Flynt é o fato de, durante a campanha, a imprensa não ter sido capaz de chamar as mentiras de mentiras. “Há artigos mais corretos na [revista] Hustler do que na maioria da cobertura que vimos nas últimas eleições”.

Flynt recebe o EL PAÍS em um escritório enorme com uma ampla vista das montanhas de Los Angeles e uma decoração indescritível. É a ala norte do 10o andar de um prédio marrom com uma placa com as letras LFP (Larry Flynt Publications) no pedaço mais caro de Beverly Hills. Na porta há uma estátua de John Wayne a cavalo em relevo que representa o enterro do cowboy como se fosse uma cena bíblica. De um lado, sobre um cavalete, repousa o livro gigante da editora Taschen sobre nus de Helmut Newton. Em cima de uma mesa do tamanho daquela presente no Salão Oval se acumulam cartas e exemplares tanto da revista Hustler como das concorrentes. Um clipe segura uma nota de dólar na qual está escrito “9-11” (em lembrança aos ataques do 11 de Setembro). O filme sobre sua vida foi rodado aqui. O cineasta Milos Forman decidiu que não fazia sentido tentar reproduzir em um estúdio o delírio rococó onde o magnata trabalha, rodeado de porcelanas, cornucópias, molduras douradas e móveis palacianos. Toda noite, no fim do expediente nos escritórios da Flynt Publications, a equipe de filmagem tomava conta do andar inteiro para gravar no cenário verdadeiro.

Sobre a mesa também há duas charges de jornal emolduradas e fotos com personalidades como o reverendo Jesse Jackson e os presidentes Bill Clinton e Jimmy Carter. Não há retratos com republicanos. “Tenho opiniões muito fortes sobre os republicanos e os democratas”, afirma. “Nenhum deles é perfeito. Mas te digo que os republicanos só se preocupam com eles mesmos. E acredito que, no fundo, há racismo no partido. Não estou dizendo que todos os republicanos são racistas. Estou dizendo que se você é racista, seu partido é o republicano”.

Tínhamos pedido uma entrevista com ele para falar de pornografia, internet e liberdade de expressão. Mas este país entrou em um turbilhão inescapável. Chama-se Donald Trump e inunda toda a vida norte-americana, todas as conversas. Começando por aquela carta aberta e continuando com o jornalismo na “era Trump”. “Não é possível olhar para atrás na história e encontrar um candidato presidencial que mentisse tanto, durante tanto tempo, sem que a imprensa exigisse dele responsabilidades. Deveriam simplesmente chamá-lo de mentiroso. Essa é a definição para aquilo que ele faz. George Washington não era capaz de mentir. Richard Nixon não era capaz de dizer a verdade. E Trump não é capaz de distinguir uma coisa da outra”.

Uma empresa de análise da mídia calculou que as televisões deram de graça a Trump publicidade que deveria ter custado 2 bilhões de dólares. “Se levam alguém a um programa e a pessoa mente, não deveriam voltar a convidá-lo”, prossegue Flynt. “Se você diz uma mentira para uma audiência de milhões de pessoas, esse moderador tem uma responsabilidade. Mas há pessoas em suas torres de marfim que só se preocupam com seus lucros, e Trump é bom para aumentar a audiência. É bom para o mais básico. Esta não é a América onde quero viver”. A carta aberta que publicou no início do ano foi um puxão de orelhas indignado na imprensa. “Essa gente tem que ter orgulho e batalhar, defender os princípios de uma imprensa livre”.

Entre as várias dedicações profissionais de Flynt está a de revirar os lençóis dos políticos para revelar seus escândalos sexuais. Um de seus maiores êxitos foi fulminar o congressista republicano Bob Livingston ao descobrir que estava envolvido em um affaire quando liderava o processo de impeachment contra Bill Clinton. Agora ofereceu 1 milhão de dólares por qualquer gravação comprometedora de Trump. “Obtivemos algumas respostas”, afirma. Nada conclusivo ainda. “Mas chegamos a um ponto em que há mais hipocrisia em Washington do que em qualquer outro lugar, um ponto no qual um affaire não seria suficiente para acabar com ele. Há 30 anos, sim. Mas hoje, não. É preciso também de corrupção”.

Larry Flynt cresceu como indigente em Kentucky. Sua ascensão até este escritório de ouro em Beverly Hills começou com um bar no fim dos anos sessenta, em Ohio. Ali colocou garçonetes nuas. Em poucos anos tinha transformado o pardieiro em uma rede de clubes de strip-tease chamada Hustler (“malandro”). Flynt começou então a distribuir um boletim entre os clientes sobre as garotas de seus clubes. O boletim acabou se transformando em uma revista pornográfica, a Hustler, em 1974. A publicação ficou famosa no verão de 1975, quando revelou fotos roubadas de Jacqueline Onassis nua em uma piscina. A partir daí, Flynt se tornou uma autoridade em mau gosto. Sua revista viria a mostrar as fotos mais explícitas e as brincadeiras mais ofensivas da florescente indústria de revistas e filmes pornôs da época. Choveram reclamações. Em 1978, recebeu um tiro de um supremacista branco na porta de um desses julgamentos. Ficou paraplégico e desde então está em uma cadeira de rodas. No meio da espiral de drogas em que se meteu nos anos seguintes, passou seis meses na prisão por se apresentar em um tribunal usando a bandeira dos Estados Unidos como fralda. Sua mulher e co-fundadora da Hustler, Althea, morreu de Aids em 1987. Um retrato dela ainda decora a sala de reuniões da Flynt Publications.

Eram os anos da revolução moral do presidente Ronald Reagan. O homem que tinha feito da imoralidade um modo de vida encontraria a causa de sua existência. Flynt publicou na revista um falso anúncio satírico contra um dos grandes nomes daquele momento: o reverendo televisivo Jerry Falwell. A peça imita uma publicidade de Campari, com uma foto do reverendo e o texto: “Jerry Falwell fala de sua primeira vez”. O texto é uma falsa entrevista com Falwell em que aparecem delícias como estas:

“— Minha primeira vez foi em um banheiro em Lynchburg, Virginia.

— Não era um pouco apertado?

— Não, depois de expulsar a cabra.

— Entendi. Vai ter que me contar tudo.

— Nunca esperei que o faria com minha mãe, mas como ela tinha feito tão bem a todos os outros rapazes da cidade, pensei: ‘Que diabos!’

A piada não foi bem recebida pelo reverendo Falwell. Graças à sua insistência em pedir uma indenização pelo atentado à sua honra, o caso acabou na Suprema Corte, e essa página da Hustler terminaria se tornando um símbolo da liberdade de expressão nos Estados Unidos. Em uma sentença histórica, em 1988, o tribunal decidiu por unanimidade que a sátira é liberdade de expressão e é protegida pela Primeira Emenda.

“Passamos 200 anos sem que a paródia e a sátira fossem protegidas como liberdade de expressão”, recorda Flynt. “Você podia ser processado, apenas era necessário provarem que você tinha ferido os sentimentos de alguém, de sua mulher, de seu cão. O que mudou com o meu caso é que é preciso provar um dano, senão não se pode pedir indenização. Isso deu cobertura para a imprensa. Conteve muitos processos contra cartunistas. O autor da história em quadrinhos Doonesbury [Gary Trudeau] disse em uma entrevista: ‘Esse cara, o Flynt, me deu um salvo-conduto para evitar a cadeia’. Porque quando um cartunista faz uma charge com intenção, o que quer é causar danos, quer que alguém sinta a adaga bem cravada. Vivem disso, é o que os excita. E, claro, o atingido não fica muito contente”.

Flynt e o reverendo Falwell, dois profissionais com bom olho para a publicidade, acabaram se tornando amigos e dando conferências em universidades e entrevistas conjuntas. Desde então, Flynt não perde nenhuma oportunidade de ofender um famoso. Há três anos, quando hackers ligados à Coreia do Norte atacaram a Sony Pictures para boicotar a exibição do filme A Entrevista, em que se parodiava o ditador norte-coreano Kim Jong-un, Larry Flynt decidiu que precisava reavivar a batalha pela liberdade de expressão. E o fez à sua maneira. Financiou uma versão pornô do filme, ainda mais ofensiva que a original. “Passei a vida inteira lutando pela Primeira Emenda e nenhum ditador estrangeiro vai tirar o meu direito à liberdade de expressão. Se Kim Jong-un e seus capangas estão irritados, espera para que vejam o filme que vamos fazer”, disse ele, na época. Hoje, com Trump, não para. A Hustler é um festival de farpas ao presidente.

Neste século, o império Hustler vai muito além da revista. Se os jornalistas espremem os cérebros para descobrir como valorizar seu trabalho no mundo da internet e do excesso de informação instantânea, mais grave ainda foi a revolução digital para o negócio da pornografia em um contexto em que até casais fazem suas gravações em casa e as divulgam gratuitamente na web. Como tornar rentável a pornografia profissional? “Foi algo que eu pressenti nos anos oitenta e noventa”, diz Flynt. “Continuo publicando a revista em papel, mas faturo 5% do que há 20 anos. Sou o último que ainda está de pé. Não sei quanto vai durar. Mas fomos espertos ao diversificar o negócio, porque a tecnologia da internet mudou tudo”.

A publicação mensal chegou a vender 3 milhões de exemplares em seus melhores anos. Hoje vende pouco mais de 100.000, ainda que Flynt garanta que a revista continua sendo rentável. A diversificação a que se refere e que lhe permitiu sustentar seu império e sua marca passa por vídeos online, cassinos, imóveis e as lojas Hustler, com uma flagship de artigos sexuais que se apresenta como destino turístico no Sunset Boulevard de Los Angeles. “Nossas lojas modernas não são como um estabelecimento para adultos, mas sim um destino. Vêm casais para conferir as últimas novidades, mas também muitas mulheres sozinhas. Nosso cliente médio é mulher”.

Todo o universo de Larry Flynt mudou. As mulheres agora são suas clientes, não sua mercadoria. E ninguém paga para ver sexo explícito. Ser um pervertido não é suficiente para destruir um político. Bem, nem tudo. Atualmente, ele está enfrentado uma nova onda conservadora. Os Reagan e os Falwell agora têm outros nomes. “Sessions, Ryan e esses…, Mike Pence como vice-presidente. Digo para as pessoas não terem tanta pressa para eliminar o Trump porque Pence é pior. Como governador de Indiana, ele aprovou uma lei que obriga as mulheres que abortam a fazer um funeral para o feto. Você não tem condições de pagar um aborto ou mesmo de ter um filho, como vai gastar 5.000 dólares em um funeral? Já conheceu alguém que passou por esse inferno? E ele é vice-presidente dos Estados Unidos, está a um passo da Presidência”.

Larry Flynt foi, em suas origens, um hillbilly nascido na miséria do Meio Oeste, como aqueles que encontraram em Trump uma mensagem de salvação. Completou a viagem até o extremo oposto deste país, um escritório de ouro em Beverly Hills de onde pode reclamar rodeado de milhões. Pelo caminho, viu de tudo. De sua cadeira de rodas de ouro, o pervertido mais famoso dos Estados Unidos não compra o discurso da suposta grandeza do passado. “Isso é o que os populistas dizem sempre. Voltemos à era Reagan. Quando você compara os Estados Unidos com o resto do mundo, estamos levando tudo muito bem. Temos muitos problemas, mas estamos levando tudo muito bem”.

>Ver artigo original.

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