Balaio vazio de sonhos extravasa de injustiças
(Jornal de Angola)

Balaio vazio de sonhos extravasa de injustiças

Luciano Rocha

O corpo franzino pára, as mãos pequenas retiram da cabeça a bacia de plástico, feita balaio, e os olhos grandes fixam-se no anúncio do jornal estendido no passeio com uma menina da mesma idade a brincar numa praia.

Os olhos grandes mal têm tempo de ver o riso de alegria natural da menina do anúncio. A voz áspera do homem, que passa sem parar, trá-los à realidade da vida que carrega na bacia: “ficas só aí parada e em casa vais dizer que as pessoas não compram”.

A menina, de corpo franzino, que carrega cedo demais o peso da vida, quando devia estar na escola, a brincar, no mínimo sonhar, ver anúncios de outras crianças que o podem ser, ainda esboçou justificação para estar parada: “mas, pai, desde manhã que estou a andar, foi só agora…”. Ele já não a ouviu. Desapareceu no meio da confusão do quase fim de tarde da Baixa de Luanda.

A menina franzina voltou a pôr a bacia na cabeça. Os olhos que, momentaneamente, lhe permitiram sonhar um sonho proibido já não fixavam o anúncio do jornal, olhavam apenas o caminho. Em sentido inverso ao do abutre com aspecto de pessoa a quem, na ignorância da inocência, ainda chama pai.

A menina zungueira também se perdeu na multidão. De gente com pressa de chegar a casa. Entre as quais crianças. De bata branca e sacola ao ombro. Sem ninguém reparar nela. Prestes a entrar na noite que de repente havia de chegar com os perigos todos à espreita: roubo, convite de predador sexual, violação, espancamento.

Naquela noite, o sono demorou a chegar a mim. A imagem das mãos pequeninas a tirar da cabeça a bacia de plástico, feita balaio, para poder ver melhor a fotografia da outra criança na praia, pegou-se a mim. Tal como a sua vozita a tentar dizer ao verdugo – a quem ainda chama pai – que caminhava “desde manhã”. E imaginei-a, imagino-a, a chegar a casa sem saber explicar que era zungueira, sim, mas menina. Que devia andar na escola, brincar, rir, não trabalhar para quem tem obrigação de a sustentar.

Também continua em mim – julgo que há-de permanecer para sempre – a minha reacção de perplexidade ao ver a cena “da menina e do monstro”. Quando pensei reagir, já ela desaparecera na multidão. Mas, pergunto-me o que podia fazer e que resultados tinha. Alguns hão-de argumentar que o mal não se verifica apenas entre nós, afecta todos os países, principalmente as grandes cidades. É verdade, mas tem de haver solução. Que passa pelo abandono da indiferença, pelo encolher de ombros – “já me bastam os meus problemas”, “não me meto em assuntos alheios”, “o Estado que resolva” -, fingir que não vemos.

Aos Estados cabe, em primeira instância, é verdade, a obrigação de solucionar este problema. Difícil, sublinhe-se, mas resolúvel. O desenvolvimento de um país vai além de boas vias de comunicação, agricultura, comércio, indústria. Avalia-se igualmente pelo bem-estar dos seus cidadãos.

Angola, Nação nova, com um passado recente de guerras, tem registado, apesar disso, melhorias significativas no apoio à criança e aos idosos. Mas, há ainda muito a fazer e nenhum de nós, independentemente de opções ideológicas e partidárias, está isento da obrigação de participar neste combate. Seja sob que pretexto. Tão grave – pior, talvez – é servir-se da situação como arma de arremesso político.

A sociedade angolana tem de debruçar-se de forma aturada sobre o apoio à criança e à terceira idade pela importância de que se revestem no desenvolvimento do país. No primeiro caso, pelo futuro que deve representar, no segundo pela experiência que pode transmitir.

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