Travestis exploradas obedeciam hierarquia e tinham comida limitada (Correio Braziliense)

Travestis exploradas obedeciam hierarquia e tinham comida limitada

Vítimas eram atraídas pela promessa de casa, trabalho e alimentação. Por causa da alta hierarquização, grupo será enquadrado como organização criminosa

Lucas Vidigal – Especial para o Correio

Oito das 10 pessoas presas por exploração sexual e tráfico de pessoas no início da manhã desta terça-feira (26/9) devem responder por organização criminosa, crime previsto pela Lei 13.260/2016. Cada integrante do grupo desmantentelado pela Operação Império seguia uma rígida hierarquia, que contava até mesmo com travestis armados responsáveis por ameaçar e extorquir as vítimas do aliciamento.

Segundo a delegada Elisabete Maria de Novais, da Delegacia Especial de Repressão aos Crimes por Discriminação (Decrin), seis travestis lideravam o grupo — uma delas morreu em 8 de setembro, vítima de assassinato. Cada uma era responsável por manter uma “casa”, como chamavam as pensões onde vivam as prostitutas aliciadas.

Nesses apartamentos, três deles em Taguatinga Sul e dois no Riacho Fundo, as travestis pagavam entre R$ 50 e R$ 70 de diária. O valor também era cobrado daquelas que atuavam nas ruas controladas pela organização criminosa, principalmente na frente da fábrica da Brasal Refrigerantes. Os valores dos programas variava entre R$ 80 e R$ 100, “a depender da classe social do cliente”, segundo uma das travestis ouvidas pelo Correio.

As moradoras das pensões, de acordo com a delegada Elisabete, tinham direito a alimentação. “Mas havia um limite de consumo. Havia uma quantidade determinada para cada travesti a cada dia”, detalha.

Tráfico de pessoas

As cafetinas entravam em contato com as vítimas de exploração sexual por meio das redes sociais, principalmente Facebook. Segundo a Polícia Civil, as chefes faziam uma primeira abordagem pela internet e, também, por telefone. Com o “acordo” feito, a organização pagava as passagens aéreas das travestis aliciadas, geralmente de baixa renda. “Não era difícil convencê-las. Em Brasília, elas ganhariam casa, alimentação, trabalho e apoio, coisas que elas não tinham em outras cidades”, afirma a policial.

Até o momento, a Decrin não contabilizou de quantos estados vêm as mais de 50 travestis aliciadas. As transexuais com quem o Correio conversou disseram ter chegado de estados como Amazonas, Goiás e São Paulo. Uma das amazonenses contou que desembarcou em Brasília na segunda-feira (25/9).

As travestis mais novas chamavam as líderes de “mãe”. Apesar do indício de relação maternal e de as vítimas de exploração defenderem as cafetinas, as chefes ameaçavam as prostitutas com facões, cassetetes e até mesmo armas de fgo, como as duas pistolas .38 apreendidas durante a operação. “Nesses casos de exploração sexual, as travestis não reconhecem as cafetinas como algozes. As vítimas tinham uma relação de dependência com as chefes”, pontua Elisabete Novais.

Conflito

Além das líderes da organização e dos “soldados” do grupo, a Operação Império deteve duas outras travestis de uma quadrilha rival. No entanto, a segunda equipe não tinha o mesmo nível de hierarquia e coerção das inimigas.

As investigações indicaram que uma das travestis aliciadas decidiu sair da organização e formar outro grupo. A Polícia Civil ainda apura casos de agressões e homicídios entre as duas facções rivais.

Para a delegada, o desmantelamento dos grupos que controlam a exploração sexual de travestis em Taguatinga não acabará com a prostituição na área. “Nesse meio, novas lideranças sempre surgem quando outras caem”, finaliza.

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