Hugh Hefner: O Playboy que mudou o mundo
(PressX/Los Angeles Times)

Hugh Hefner: O Playboy que mudou o mundo

Foi uma das notícias que ecoou pelo mundo fora no final do mês de Setembro: o playboy Hugh Hefner morreu, deixando um legado de abertura e diálogo sexual incomparáveis na história moderna mundial.

Ao Press X, interessa-nos analisar e perceber o impacto dos seus alegados contributos para a expressão sexual, e para a vida de milhares de pessoas em todo o mundo, no que respeita ao consumo de conteúdos pornográficos.

O artigo e entrevista conduzidos pelo Los Angeles Times a Hugh em 1994 revela não apenas um indivíduo idealista, mas alguém confiante de que a revolução sexual e uma quebra resoluta com os valores mais puritanos eram o segredo para resolver alguns problemas sociais de repressão e constrangimento na sociedade.

Hefner tinha 27 anos quando publicou a primeira edição da revista Playboy, em 1953. A partir daí, as pin-ups da sua época deram lugar a modelos mais ousadas. O sexo passou a estar intrinsecamente ligado ao dinheiro, e ao consumo. A marca do coelho tornou-se icónica, e um fenómeno global.

A Playboy desdobrou-se numa marca de roupa, canais de TV, bares, casinos e outras opções de consumo e entretenimento.

Em 1980, o império foi abalado pela SIDA e a histeria que lhe esteve subjacente, que colocou um travão à revolução sexual.

Em baixo, citamos algumas das declarações de Hefner ao L.A. Times, e discutimos a sua visão para percebermos melhor o contexto, e as repercussões associadas com o surgimento da pornografia comercial na atualidade.

Sobre o puritanismo, e a longa caminhado da sociedade americana até à liberalização sexual, Hugh destaca que existe uma confusão de mensagens no que diz respeito à sexualidade.

“Eu acho que é uma mensagem um pouco confusa, hoje em dia. Eu acho que a nossa sociedade é fragmentada. As mensagens sobre a sexualidade na América sempre foram confusas. Somos uma nação esquizofrénica. Fomos fundados por Puritanos, que escaparam à repressão, apenas para implantarem a sua própria. Depois, os nossos pais fundadores, deram-nos a Constituição para separar a igreja e o estado. Mas aquilo que ficou a faltar dessas leis foi a sexualidade humana.

A relação entre os sexos está a ser alvo de maior confusão, mais do que nunca. Tens a direita religiosa e algumas feministas de esquerda a terem uma visão conservadora de sexualidade e de imagens de sexo. Há um antagonismo no movimento das mulheres em relação à sexualidade e ao sexo oposto que não faz sentido, e certamente não é o que (Betty) Friedan tinha em mente quando escreveu “The Femine Mystique” e começou tudo nos anos 60.

Somos fascinados pela nossa sexualidade, e assustados pela mesma. Durante os governos de Reagan e Bush, tivemos uma década de governo anti-sexo. O sexo não é o inimigo. É o princípio da civilização, da família, das tribos. O sexo pode ser explorado e distorcido, mas na sua forma essencial, é a melhor parte de quem nós somos. E isso assusta-nos.”

Hefner demonstra uma percepção incrível sobre o estado da sexualidade na sociedade, nomeadamente na dificuldade histórica do Homem perceber a sua dimensão sexual, em ligação com a sociedade

No entanto, o último parágrafo parece de extrema relevância para percebermos uma coisa, quando falamos de pornografia e sociedade pornificada: o sexo não é o problema. Está na base fundamental da Humanidade, para ocupação, e intrínseco ao seu florescimento. Aqui concordamos. Hefner, no entanto, parece não relacionar o seu impacto e da sua revista num aspeto importante do sexo: é íntimo, e pessoal. Não tem por bases interesses económicos e de consumo. A máxima “sexo vende” só é em parte porque Hefner impulsionou esta mentalidade.

O sexo pode ser distorcido. Foi isso que Hefner, mais ou menos consciente, impulsionou.

“Isto pode ser interesseiro, mas eu considero que a Playboy é uma das poucas bússolas morais no que diz respeito ao sexo na América”.

De facto, parece uma declaração bastante arrojada. Se a Playboy de facto em 1994 era considerada a bússola sexual da América, então conseguiu guiar várias gerações a um sítio muito estranho e inexplorado, décadas depois: à objetificação das mulheres, ao consumismo de cariz sexual, e conseguiu abrir caminho ao fenómeno da pornificação da sociedade.

Sobre se sempre esteve preocupado sobre questões ligadas à sexualidade, Hugh refere que desde cedo teve uma dificuldade em se exprimir e de falar com os seus próprios pais em relação a assuntos de sexualidade.

“Eu tinha uma preocupação sobre a repressão da sexualidade muito antes de inventar algo como a Playboy. Percebi muito cedo que numa sociedade livre, se não és livre no teu próprio quarto, então não és livre de todo”.

Mais uma vez Hugh dá um tiro ao lado, embora para olhos pouco atentos possa parecer uma declaração libertadora bastante aceitável. Ninguém disputa a liberdade que o Sr. Hefner defende sobre a sexualidade no quarto. Mas o que o Hefner fez, não foi iniciar um discurso sobre repressão sexual. Foi criar uma narrativa social com a sexualidade persistentemente subjacente, e que acaba por se impor no consciente coletivo. Isto não é liberdade sexual, mas uma imposição e transformação de algo íntimo e natural, para algo consumível e artificial.

Quando questionado sobre as possibilidades de crescimento da marca Playboy, e se o crescimento derivaria do mercado externo, Hefner mais uma vez coloca a ênfase no produto:

“O coelho [da Playboy] significa liberdade económica, liberdade pessoal e liberdade política. O seu potencial é ilimitado.”

Uma vez que o coelho é um dos símbolos mais conhecidos em todo o mundo, não surpreende que Hefner coloque as prioridades económicas em cima da mesa. Vender, é a palavra de ordem, como já vimos.

Em 2015, a Playboy anunciou que iria acabar com imagens de nu integral a partir de Março de 2016. A estratégia levou a um crescimento de 30%, embora a experiência tenha durado menos de um ano. Porquê?

Uma das possíveis razões será que a mudança não teria sido suficiente para destacar a revista no meio do espólio de conteúdos grátis online. Mais do que uma crise de identidade, a Playboy poderia, como outras publicações, estar a enfrentar uma crise de meio (imprensa).

No entanto, a alternância de estratégia de publicação leva sempre a questionar os motivos económicos.

Finalmente, Hugh Hefner conclui com a entrevista ao Times com as seguintes palavras:

“Uma das razões porque tenho uma grande satisfação nesta altura da minha vida é porque sei que fiz a diferença. Fiz a diferença no que realmente me interessa. Vejo muitas coisas terríveis a acontecer no mundo, mas também há coisas boas a acontecer, e eu sinto que tenho sido parte disso. Eu acho mesmo que tenho estado do lado dos anjos.”

Não sei se o Hugh tem consciência do impacto do seu legado. Por um lado, iniciou uma conversa importante sobre sexualidade para todas as gerações. Foi o primeiro contato da sexualidade para muitos rapazes, através da sua revista. Faltou o resto: perceber o fruto, as consequências da exposição de corpos nus sem limitações. Em defesa de Hefner, ele não podia adivinhar que a pornografia iria assumir um novo meio, um novo formato que torna o sexo ainda mais banalizado e passível de ser consumido. No entanto, como a história da Humanidade nos ensina, cada passo dado antecede um outro, que nos encaminha para algum lado. Só esperamos que alguém resolva caminhar rumo à verdadeira liberdade.

Fonte: http://www.latimes.com/entertainment/la-et-hugh-hefner-sexual-revolution-19940731-htmlstory.html

>Ver artigo original.

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