Escândalo Weinstein gera novas denúncias e reacende alegações de pedofilia em Hollywood (Público)

Escândalo Weinstein gera novas denúncias e reacende alegações de pedofilia em Hollywood

Responsáveis das influentes revistas Artforum e New Republic alvo de denúncias. Corey Feldman quer fazer documentário sobre alegada rede de abusos sobre jovens actores.

JOANA AMARAL CARDOSO

Três semanas de escândalo Harvey Weinstein têm um saldo significativo no que toca ao volume de denúncias, que têm como alvo não só o outrora poderoso produtor mas também muitas outras figuras de vários sectores e países. Jornalistas e responsáveis dos media, das artes e da política, foram acusados e afastados dos seus cargos e o actor Corey Feldman está a angariar dinheiro para um documentário em que promete expor uma rede pedófila que há muito diz existir em Hollywood.

Mais de 60 mulheres, entre actrizes, assistentes, modelos ou jornalistas, acusam o produtor e distribuidor norte-americano de alguma forma de assédio ou violência sexual. A dinamarquesa Natassia Malthe detalhou como o produtor irrompeu pelo seu quarto, visivelmente alterado, e a violou em 2008 após a cerimónia dos prémios Bafta. “Não foi consensual”, frisou numa conferência de imprensa em que esteve ladeada pela sua advogada, e de outras alegadas vítimas de Weinstein, Gloria Allred. Mais tarde, e após outra proposta de índole sexual, a actriz diz ter telefonado a Weinstein e dito que fazer parte dos filmes que produzia “não valia o que ele queria em troca”.

Harvey Weinstein não comentou a nova denúncia, que se segue às queixas de uma ex-assistente, também representada por Allred, mas as declarações dos seus representantes legais têm sido de que o produtor recusa ter praticado actos sexuais não consensuais. Weinstein estará numa clínica de reabilitação e foi demitido de todos os seus cargos na Weinstein Co., que se encontra em dificuldades financeiras e que está a retirar o seu nome dos filmes que tem para estreia em breve. 

A conferência de imprensa de Malthe decorreu em Nova Iorque na quarta-feira; Corey Feldman, por seu turno, usou há dias um vídeo na internet para anunciar a sua intenção de fazer um filme que “quebre a barragem de silêncio” que o envolve e a outras alegadas vítimas do que descreve como uma “rede de pedofilia” de que diz estar ciente desde que era criança. Feldman, com Corey Haim, era um dos jovens ídolos adolescentes dos anos 1980, tendo feito Stand by Me ou Os Goonies, entre muitos outros projectos. Os dois Coreys foram, diz Feldman há anos, vítimas de abusos sexuais quando ainda não eram adolescentes. Haim morreu em 2010, após problemas com drogas, de pneumonia.

Três semanas de escândalo Harvey Weinstein têm um saldo significativo no que toca ao volume de denúncias, que têm como alvo não só o outrora poderoso produtor mas também muitas outras figuras de vários sectores e países. Jornalistas e responsáveis dos media, das artes e da política, foram acusados e afastados dos seus cargos e o actor Corey Feldman está a angariar dinheiro para um documentário em que promete expor uma rede pedófila que há muito diz existir em Hollywood.
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O seu filme, para o qual está a angariar donativos via Indiegogo, quer ser “a representação mais honesta e verdadeira de abusos sobre crianças”, o que fará contando a sua história “de uma forma muito honesta, sem edição, sem censura, sem qualquer estúdio por trás”, diz no vídeo. Até à hora de publicação deste texto, a campanha já recolheu 99 mil dólares, mas tem o objectivo de reunir 10 milhões – não só para toda a operação de filmagem, produção e distribuição, diz o actor e músico, mas também “segurança e equipa legal” para si e para a sua família, visto que diz estar a ser alvo de ameaças de morte.

O tema não é novo, não só pelas denúncias de Feldman mas de outros actores como Elijah Wood, que falou da existência de “víboras na indústria” que agem como predadores sobre os jovens actores, ou, recentemente e na esteira do escândalo Weinstein, do que James Van Der Beek contou sobre ser agarrado e apalpado por homens de poder em Hollywood.

Entretanto, numa nova investigação do New York Times, nove mulheres acusam Knight Landesman, responsável pela influente publicação de arte Artforum, de assédio sexual. Landesman demitiu-se na quarta-feira, com os seus pares na administração da Artforum a descrever um “comportamento inaceitável” e a garantir que querem transformar a publicação num espaço com “tolerância zero para qualquer tipo de assédio sexual”. Um processo legal envolve as queixas de nove mulheres que descrevem como Landesman as terá assediado, quando estas se encontravam em início de carreira, e ameaçado retaliar profissionalmente quando rejeitado. Algumas das queixosas dizem ter informado a Artforum há bastante tempo e nada ter visto acontecer a Landesman.

Noutro trabalho do New York Times — que a 5 de Outubro publicou a primeira investigação sobre Weinstein —, o editor da revista New Republic Leon Wieseltier pediu desculpas por “ofensas contra algumas colegas no passado”. Fê-lo após ter sido acusado por várias mulheres de assédio sexual e ficou por isso sem financiador para o seu projecto de uma nova revista. Um analista político da NBC, Mark Halperin, admitiu ter assediado várias mulheres no seu antigo emprego na ABC News e demitiu-se. A NBC News, presidida pelo também argumentista Noah Oppenheim (Jackie, Maze Runner), rejeitou publicar o trabalho do seu jornalista Ronan Farrow (filho da actriz Mia Farrow e denunciante do alegado abuso de Woody Allen sobre a sua irmã Dylan enquanto criança), que acabaria por ser publicado na New Yorker como um segundo capítulo do escândalo Weinstein; como analisava na altura a Variety, a famosa gravação em que Donald Trump dizia que as mulheres não resistiam a um homem famoso e que podia “grab’em by the pussy” estava com o canal mas acabou por ser revelada pelo Washington Post.

Nas primeiras semanas do escândalo, com o seu efeito catalisador de novas denúncias e invectivado pelo incentivo à partilha de histórias nas redes sociais sob o hashtag Me Too, o presidente da Amazon Studios Roy Price foi demitido após uma acusação de assédio ter sido tornada pública – fora apresentada à Amazon antes, mas só depois de surgir na Hollywood Reporter e na esteira do caso Weinstein teve consequências. O realizador James Toback é acusado de assédio e abuso sexual – e nega – por mais de 30 mulheres, segundo reportou o Los Angeles Times; o jornal deu depois sequência à sua investigação com mais de 200 novos nomes a juntarem-se às quixas. Quinta-feira, as actrizes Selma Blair e Rachel McAdams juntaram-se a esse grupo de denúncias, sendo os nomes mais célebres entre as denunciantes e que detalharam agora à Vanity Fair alegadas ameaças de rapto e morte por parte de Toback.

Vários outros sectores, como o musical, o político ou a moda, têm estado a viver um processo de denúncia em grande parte desencadeado pelo escândalo Weinstein, que encontrou um tempo em que os temas da igualdade de género em vários sectores são cada vez mais discutidos e em que outros casos de homens em posições de poder, como os conservadores Bill O’Reilly ou Roger Ailes sofreram consequências públicas e legais por casos de assédio sexual.

Notícia actualizada com novos dados sobre o caso James Toback

>Ver artigo original.

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