O efeito Weinstein chega a Crystal Castles, Ducktails, Gaslamp Killer (Público)

O efeito Weinstein chega a Crystal Castles, Ducktails, Gaslamp Killer

Desde que Harvey Weinstein se viu exposto como predador sexual, as denúncias de novos casos, com outros protagonistas, têm sido diárias. O mundo da música independente não ficou imune.

Mário Lopes

Aquilo que as histórias relatam não é novo. De tempos a tempos, ouvem-se acusações semelhantes, descrevendo padrões de comportamento semelhantes. De tempos a tempos, uma voz, ou vozes, erguia-se para denunciar comportamentos reprováveis e/ou passíveis de acção criminal por parte de alguém do meio musical. Tomemos como exemplo alguém que convive há muito com acusações deste tipo, R. Kelly. Desde meados dos anos 1990 que têm sido publicadas na impresa alegações de assédio, de agressão sexual e de sexo com menores, acompanhadas por processos interpostos na justiça por mulheres alegadamente abusadas pelo músico. R. Kelly saiu ileso em todas as ocasiões, absolvido em tribunal ou através de acordos extra-judiciais, e, até ao momento, a sua carreira não sofreu com as polémicas.

Em Julho, novas acusações caíram sobre o autor de Trapped in the closet, quando os pais de três jovens contactaram a polícia pedindo auxílio para as retirar daquilo que descrevem como “um culto” – segundo as suas alegações, R. Kelly manterá as filhas prisioneiras em casas alugadas, impedindo-as de contactar amigos e família e obrigando-as a obedecer a todas as suas ordens. No artigo que expôs o caso, publicado no Buzzfeed, lê-se que “seis mulheres vivem em propriedades alugadas por Kelly em Chicago e nos subúrbios de Atlanta e ele controla todos os pormenores das suas vidas: ditando o que comem, como se vestem, quando tomam banho, quando dormem, como se comportam nos encontros sexuais que ele filma”.

Os pais descrevem o comportamento das filhas, nas raríssimas ocasiões em que têm a oportunidade de se encontrar com elas, como o de alguém que tivesse sido alvo de “lavagem cerebral”. A polícia, porém, pouco pode fazer para investigar as acusações dos pais: são maiores de idade e afirmam estar com R. Kelly de livre vontade. Quanto ao músico, negou peremptoriamente as acusações e prometeu lutar nos tribunais para repor o seu bom nome.

A descrição do controlo exercido sobre as mulheres foi possível porque a reportagem do Buzzfeed conta com depoimentos de três pessoas que pertenceram ao círculo íntimo de Kelly. Uma foi sua assistente pessoal, as outras mantiveram um relacionamento com ele e habitaram as suas mansões, convivendo com alguém que descrevem como abusivo emocional e fisicamente – uma delas, Kitti Jones, uma DJ que em 2011 abandonou a sua carreira para se dedicar à relação com Kelly, contou recentemente a sua história numa grande reportagem para a Rolling Stone.

O timing escolhido para publicação da história, três meses depois da reportagem original do Buzzfeed, não será alheio ao contexto. É o efeito Weinstein. Weinstein, Harvey Weinstein, o fundador da Miramax caído em desgraça pela revelação de uma prática reiterada de assédio e agressão sexual ao longo de décadas. Desde a revelação do escândalo, têm-se multiplicado as denúncias de condutas incorrectas e criminosas, quer por parte de actrizes reconhecidas, quer por milhares de anónimas, como as que aderiram à iniciativa #metoo que correu recentemente as redes sociais.

Ducktails, Gaslamp Killer, Crystal Castles
Desde então, o mundo do entretenimento (e para além dele) tem sido abalado com uma cadência de denúncias quase diárias, onde se inclui o universo da música independente, habitualmente visto, injusta ou injustamente, como um espaço tendencialmente mais progressista e igualitário. Desde que rebentou o caso Weinstein, Matt Mondanile, ex-guitarrista dos Real Estate, actualmente nos Ducktails, Gaslamp Killer, o produtor de música electrónica e hip hop experimental nascido William Bensussen, e Ethan Kath, metade do duo Crystal Castles, foram acusados de abusos sexuais.

Dia 13 de Outubro, artigos na Spin e na Pitchfork revelavam que a saída de Mondanile dos Real Estate, em Fevereiro de 2016, não se devera ao guitarrista desejar concentrar-se a tempo inteiro nos Ducktails. Fora despedido, escreveu a banda em comunicado, por terem chegado ao conhecimento desta “alegações de um comportamento inaceitável para com várias mulheres”. Na reportagem da Spin, antigas fãs da banda e músicas que partilharam alguns concertos com Mondanile contavam como o aquele aproveitara o seu ascendente enquanto membro de uma das mais célebres bandas do circuito independente. Descrevem ser empurradas para o interior de casas-de-banho, beijos não consentidos, os seus corpos apalpados durante o sono.

Dias depois, Matt Mondanile emitiu um comunicado, através dos seus advogados, em que reconhece ter tido “comportamentos inapropriados” e que, na sua “ânsia por contacto físico e recompensa”, estivera muito longe de se mostrar “sensível na procura de mulheres”. Dizendo-se “profundamente arrependido”, alertava, porém, que as denúncias contêm muito de “falso e difamatório”. “Há sempre dois lados nestas histórias”, escreve.

Já depois da reacção de Mondanile, Julia Holter, a celebrada autora de Have You in My Wilderness, que manteve uma relação com o ex-Real Estate até há cerca de dois anos, escreveu um post na sua página de Facebook. Nele, diz acreditar em todas as acusações de que o músico é alvo. “As alegações coincidem entre si e estão em linha com o que conheci do Matt no passado”, escreveu. “No meu caso, foi abusivo emocionalmente ao ponto de ter que recorrer à intervenção de um advogado e de temer pela minha vida”. Foi ler os relatos na reportagem na Spin que a ajudaram a dar o passo de falar publicamente sobre Mondanile, diz Holter. “Quando estamos no meio de tudo aquilo, questionamos a nossa própria realidade e perguntamo-nos se estamos a inventar coisas ou a fazer uma tempestade num copo de água. Ajuda quando outras dão o passo em frente e validam a ideia de que não estávamos erradas”.

No mesmo dia em que eram reveladas as acusações a Matt Mondanile, uma mulher usava uma conta de Twitter para expor um acontecimento que “sofria em silêncio há muitos anos”. Em 2013, escreveu @chelseaelaynne, “Gaslamp Killer drogou-me e violou-me e à minha melhor amiga”. Contou depois, numa série de tweets, que, numa festa num hotel, William Bensussen terá alegadamente adulterado a bebida das duas com estupefacientes, antes de, já em sua casa, ter tido sexo não consensual com ambas quando estas se encontravam “completamente incapacitadas”. Chelsea relata que passou o resto da noite e o dia seguinte a vomitar e com sintomas de gripe, consequência da substância alegadamente adicionada às bebidas.

Gaslamp Killer respondeu às acusações com um comunicado no Twitter. “O consentimento é algo íntimo, e isso deixou espaço aberto para que pessoas que não estavam presentes imaginassem o que aconteceu. Neste caso, o consentimento deu-se entre três pessoas, na forma de uma proposta que aceitei. Hoje em dia, as alegações têm muito peso nas redes sociais, e a bravura das mulheres que expõem as suas histórias podem originar um diálogo necessário que conduza a uma mudança real. Mas a versão da Chelsea desta história não é verdadeira”. “Felizmente”, acrescentou, “tenho sido contactado por testemunhas e pelos meus companheiros de casa da altura, oferecendo-me o seu apoio”.

Entretanto, esta terça-feira, Alice Glass, ex-membro do duo Crystal Castles (saiu em 2014), banda de synth-pop com culto alargado, publicou no seu site um texto em que relata uma década de alegados abusos físicos e psicológicos às mãos do seu companheiro de banda, Ethan Kath. Glass justifica fazê-lo agora por ter sido criado o “momentum” para a revelação, devido às “várias mulheres corajosas que se abriram em relação às suas próprias histórias”. Antes, “ameaçada”, mantivera-se em silêncio, “por medo”. Agora, escreve, sentiu-se “inspirada” a falar, “independentemente das consequências”, pelos exemplos das últimas semanas.

Glass conta que tinha 15 anos quando conheceu Kath, então um músico famoso na cena local de Toronto, Canadá, dez anos mais velho. Descreve então uma década de abusos sexuais, violência física e psicológica e um controlo paralisante da sua independência – Kath impedia-a de utilizar o telemóvel, controlava o seu uso das redes sociais e o seu cartão de crédito. Refere que, alegadamente frustrado por ver que os focos mediáticos e do público se concentravam em Glass, explorava as inseguranças da companheira, diminuindo-a em privado – segundo ela, Kath tinha o cuidado de nunca se mostrar abusivo em público. “Dizia-me que éramos nós contra o mundo, porque toda a gente achava que eu era uma derrotada, uma piada, uma palhaça dançante sem talento. Eu acreditei nele. Tive instintos suicidas durante anos”. Em 2014, Alice Glass, que prossegue actualmente carreira a solo, abandonou a banda de forma inesperada, deixando como justificativo uma curta frase: “Por uma série de razões, tanto profissionais como pessoais, não sinto que isto seja possível no contexto dos CC [Crystal Castles]”.

Ethan Kath, que continua a liderar os Crystal Castles [Edith Frances é agora a vocalista] respondeu às acusações com um comunicado enviado à Pitchfork. “A história dela é pura ficção e estou a consultar os meus advogados quanto às minhas opções legais. Felizmente, há muitas testemunhas que podem confirmar que nunca fui abusivo com a Alice”.

Entretanto, Twiggy Ramirez, nascido Joerdie White, baixista dos Marylin Manson, foi despedido da banda esta quarta-feira, depois de Jessicka Adams, artista visual, antiga vocalista das Jack Off Jill, actualmente líder dos Scarling, o ter acusado de violação. O crime terá acontecido há 20 anos, quando os dois mantinham uma relação marcada por abusos de vários tipos por parte de Ramirez, conta Jessicka. No post na sua página de Facebook em que surge a acusação, aquela explica que, à época, deu conta à sua editora do que sucedera. A reacção, porém, não foi a que esperara. “Fui avisada pela minha editora que, se revelasse a minha história publicamente, haveria grandes hipóteses de a minha banda Jack Off Jill ser banida por promotores de concertos, programadores de rádio e outras bandas e seus agentes”. Os responsáveis da editora tinham por certo, escreve, “que ninguém alguma vez levaria a sério uma vítima de violação numa indústria musical dominada por homens”. 

Assim foi há 20 anos. Agora, ao contrário do que aconteceu com R. Kelly, mas tal como aconteceu com Weinsten, as consequências foram imediatas para todos os que sofreram as acusações de que aqui demos conta. Ainda que não estejamos a falar, por agora, de processos judiciais em curso e ainda que, obviamente, se imponha a presunção de inocência até prova das acusações, Twiggy Ramirez foi despedido e os Crystal Castles viram cancelados vários dos seus concertos programados para os Estados Unidos e Canadá. A Low End Theory, um grupo que agrega vários DJs de Los Angeles e que tinha Gaslamp Killer como um dos seus membros, anunciou que William Bensussen deixara de fazer parte da equipa. Os Ducktails de Matt Mondanile, por sua vez, viram cancelada a sua próxima digressão europeia, bem como concertos no Japão, nas Filipinas e na Tailândia.
 
Actualizado a 27 de Outubro, às 12h38: inclusão da acusação de violação pendente sobre Twiggy Ramirez, baixista da banda Marylin Manson

>Ver artigo original.

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