“Mãos teimosas” e intimidação. Cindy Sherman, Filipa César e Suzanne Cotter em carta aberta contra assédio (Público)

“Mãos teimosas” e intimidação. Cindy Sherman, Filipa César e Suzanne Cotter em carta aberta contra assédio

Mais de 150 artistas, curadoras ou galeristas prometem: “Não seremos mais silenciadas”.

Joana Amaral Cardoso

Mais de 150 artistas, curadoras ou responsáveis de museus e galerias subscrevem esta segunda-feira uma carta aberta em que prometem: “Não seremos mais silenciadas”. Na esteira de um Outubro de denúncias e relatos de abusos de poder de teor sexual, as autoras da carta são nomes como o da fotógrafa norte-americana Cindy Sherman ou da directora do Museu de Serralves Suzanne Cotter. E dizem: “Fomos apalpadas, minadas, assediadas, infantilizadas, desprezadas, ameaçadas e intimidadas por aqueles que estão em posições de poder que controlam o acesso aos recursos e oportunidades”.

Entre as signatárias estão não só a ainda directora do museu de Serralves (que fica no cargo portuense até ao final do ano, rumando depois à direcção do Musée d’Art Moderne Grand-Duc Jean – Mudam), mas também a artista e cineasta portuguesa Filipa César, a editora e escritora portuguesa Filipa Ramos ou a curadora brasileira residente em Lisboa Luiza Teixeira de Freitas. Também a crítica de design Alice Rawsthorn, a artista francesa Dominique Gonzalez-Foerster ou a realizadora norte-americana Laura Poitras assinaram a carta, redigida por Cotter, Sherman, bem como pelas artistas Coco FuscoAnicka Yi e Helen Marten (Prémio Turner 2016), pela galerista Sadie Coles, pela curadora Laura Barlow ou pela directora do centro de artes Baltic Gateshead Sarah Munro.

O motivo são os abusos que “ocorrem frequente e internacionalmente em grande escala nesta indústria”. A carta, dizem, “não deve ser surpresa” para ninguém no meio. É essa expressão que dá o mote para o título da carta – e o site onde ela está alojada – e ela própria seja partilhada nas redes sociais com o hashtag #notsurprised. “Não ficamos surpreendidas quando curadores nos oferecem exposições ou apoio em troca de favores sexuais”, denunciam, nem quando “uma reunião com um coleccionador ou potencial cliente se torna uma proposta sexual”, nem quando “retaliam quando não acedemos”. “Não ficamos surpreendidas quando Knight Landesman nos apalpa na feira de arte enquanto nos promete que vai ajudar-nos com a nossa carreira. O abuso de poder não é uma surpresa”.

“Há uma necessidade urgente de partilhar os nossos relatos de sexismo generalizado, de tratamento desigual e inapropriado, de assédio e de má conduta sexual que experienciamos regularmente, amplamente e de forma aguda”, escrevem. A missiva, publicada no diário britânico The Guardian e que está disponível online para recolher novas assinaturas, surge na sequência de uma das réplicas do escândalo Weinstein. Na semana passada, uma nova investigação do New York Times (responsável pelo primeiro de vários artigos sobre os abusos alegadamente cometidos pelo produtor Harvey Weinstein) revelava que Knight Landesman, responsável pela influente publicação de arte Artforum, era acusado de assédio sexual por várias mulheres. Landesman demitiu-se na quarta-feira e está em curso um processo legal que envolve assédio e ameaças de retaliação profissional sobre as queixosas.
  
A demissão de Knight Landesman “não resolve o problema mais amplo e insidioso: um mundo artístico que apoia estruturas de poder herdadas às custas do comportamento ético”, lê-se. “Abusos semelhantes ocorrem frequente e internacionalmente em grande escala nesta indústria. Temos sido silenciadas, ostracizadas, patologizadas, desconsideradas por estarmos a ‘exagerar’ e ameaçadas quando tentámos expor comportamentos sexual e emocionalmente abusivos. Não seremos mais silenciadas”, promete-se.

A mensagem surge como uma espécie de apelo às armas, ou melhor, um apelo à denúncia, ao uso da voz de todos – e não apenas mulheres e heterossexuais, como se detalha – contra situações de abuso. É fruto de uma discussão que nas últimas semanas tem movido pessoas de vários países e que tem em conta que muitas mulheres não-brancas, pessoas transgénero ou pessoas que não se conformam ao género atribuído pela sociedade, falando por isso também de discriminação, exclusão ou situação de imigração. A carta nasce, detalha o Guardian, de um grupo de WhatsApp que discutia as ramificações do escândalo Weinstein e o contexto do sector dos museus e das artes. 

“Não vamos mais ignorar comentários condescendentes, as mãos teimosas nos nossos corpos, as ameaças e intimidações tenuemente veladas como flirt, ou o silêncio de colegas ambíguos. Não toleraremos ser envergonhadas ou desacreditadas, e não toleraremos a recriminação que vem com a denúncia”, escrevem, avisando que não serão os grupos de reflexão ou as comissões que vão resolver os problemas.

As signatárias – aquelas que sofreram abusos e aquelas que estão solidárias – “pedem às instituições artísticas, administrações e pares que considerem o seu papel na perpetuação de diferentes níveis de injustiça e abuso sexual e como planeiam lidar com tais temas no futuro”.

>Ver artigo original.

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