Um mês de escândalos de assédio sexual é o princípio de uma mudança cultural? (Público)

Um mês de escândalos de assédio sexual é o princípio de uma mudança cultural

Tudo começou com Harvey Weinstein, mas está longe de acabar. Tudo começou em Hollywood, mas já fez cair um ministro. “Chegámos a um ponto de acerto de contas há muito devido.”

Joana Amaral Cardoso

Outubro foi um mês de denúncias, e um mês negro em Hollywood. “Não acho que Novembro vá ser mais bonito”, riposta ao PÚBLICO Alan Poul, produtor e realizador. Há um mês, o escândalo Harvey Weinstein era uma história sórdida de assédio e violência sexual que finalmente saía do território das conversas em surdina para um mundo que parecia mais preparado para o denunciar – e para acreditar nas suas alegadas vítimas. Hoje, quando o efeito Weinstein já é a demissão de um ministro britânico, de vários responsáveis em diferentes sectores e de milhões de mulheres (e homens) a dizer “Me Too”, esse mesmo mundo está preparado para mudar?

Quarta-feira, o realizador e produtor Bret Ratner (X-Men: O Confronto Final, Hora de Ponta) tornava-se em mais um nome com mais uma história que segue o mesmo padrão: nas filmagens ou em espaços privados, pressionava jovens actrizes a actos sexuais ou a testemunharem os seus actos solitários. A frase que usou com uma actriz enquanto lhe percorria o abdómen com o dedo – “Não queres ser famosa?” – faz eco da do seu colega e amigo James Toback, que noutra investigação do Los Angeles Times era acusado por mais de 30 mulheres (hoje são mais de 300) de assédio, violação e agressão sexual. “É assim que as coisas se fazem.” Ou “estou habituado a isso”, como disse Weinstein a uma das suas alegadas vítimas. O produtor agora conhecido como predador era assim citado na investigação da New Yorker de 10 de Outubro, que acrescentava mais actrizes à lista de acusadoras reveladas pelo New York Times cinco dias antes.

“Chegámos a um ponto de acerto de contas há muito devido”, diz Alan Poul, produtor de Sete Palmos de Terra. Numa passagem por Lisboa, considera que era necessário este “ponto de viragem para que as pessoas compreendam quanto se exigiu de forma sistémica às mulheres que se pusessem em posição de desvantagem” e “como o status quo reforça estas tendências que sabemos durarem há centenas de anos”.

Dezenas de actrizes da chamada Lista A contaram pela primeira vez as suas histórias nomeando alegados agressores. Sentiam que era chegada a altura de o fazer. A acompanhá-las tinham outras actrizes ou modelos menos conhecidas. Todas vinham de um ano que começou com várias Marchas das Mulheres, e de uma década em que as estatísticas sobre a desigualdade no seu sector e noutros ganharam espaço mediático. Tinham o fulgor recente do feminismo pop e dos Estudos de Género e notícias de uma catadupa de casos em que, dos conservadores Bill O’Reilly e Roger Ailes (Fox) ao “pai da América” Bill Cosby, passando pelo fundador da Uber, parecia haver mais espaço para as vozes das alegadas vítimas. E para a empatia. “A única coisa que chocou a maior parte das pessoas na indústria do cinema sobre a história de Harvey Weinstein foi que, subitamente, por alguma razão, as pessoas pareciam importar-se”, escreveu a realizadora Sarah Polley no New York Times.

O problema, claro, não começa nem acaba em Hollywood. Mas Hollywood é uma arena exemplar deste tipo de abuso sistémico de poder de teor sexual, e o seu protagonismo da cultura de espectáculo foi essencial para a propagação da indignação condizente e para a contaminação de outros sectores. “O facto de muitas mulheres de uma posição social elevada terem querido falar sobre uma série de homens proeminentes ajudou o tema a ganhar tracção”, acredita Martha M. Lauzen, professora e directora do Center for the Study of Women in Television and Film da Universidade de San Diego. “Estas mulheres nada têm a ganhar, e têm potencialmente muito a perder, ao contar as suas histórias”, lembrou ao PÚBLICO por email.

Esse espírito espalhou-se. Essa forma de abuso de poder tornou-se num tema incontornável, forçando responsáveis de quase todas as áreas a pronunciar-se. Donald Trump voltou a ter de falar sobre as suas declarações de, enquanto celebridade, pode agarrar as mulheres pelos genitais “e elas deixam” – ainda são “conversa de balneário”; George H. Bush pediu desculpas por apalpões “humorísticos”; o Parlamento Europeu viu-se confrontado com queixas de funcionárias e eurodeputadas, o Capitólio americano também e Inglaterra tem um novo ministro da Defesa porque Michael Fallon admitiu ter tocado de forma inapropriada uma jornalista. Por essa altura, um juiz do Porto que atenuava violência doméstica com citações bíblicas gerou um coro de indignação em Portugal.

Diferentes problemas, diferentes graus numa escala de actos condenáveis e, por vezes, atenções dispersas por pequenos e grandes casos. A locutora britânica Julia Hartley-Brewer veio mesmo chamar a atenção de que a mão de Fallon no seu joelho não deve ser vista como “moralmente equivalente a assédio ou ataques sexuais graves”.

A serra eléctrica
As empresas, instituições, séries de TV ou governos tocados por este tipo de alegações tiveram reacções invulgarmente rápidas. Alguns já tinham sido acusados internamente, mas a força deste Outubro acelerou processos. Cancelaram, despediram, analisaram, desvincularam-se de Roy Price (Amazon Studios), de Mark Halperin (NBC), do ex-publisher da ArtForum Knight Landesman ou do fotógrafo de moda Terry Richardson. O seu poder seria profissional, mediático, mas sobretudo económico. “É importante pensar na economia do consentimento”, defende a actriz e autora Brit Marling na revista The Atlantic. “Não são ‘estes homens maus’. Ou ‘aquela indústria suja’. É ‘este sistema económico desumano’ de que todos fazemos parte. Como produtores e consumidores. Como contadores de histórias e ouvintes. Como seres humanos.”

Dos comentários lúbricos aos exibicionistas sexuais passando pelas tentativas de violação ou agressões sexuais e violações, os alegados perpetradores têm ou negado as acusações de que são alvo, como é o caso de Weinstein, Ratner e Toback, ou admitido alguma responsabilidade. É o caso de Kevin Spacey, acusado há dias pelo actor Anthony Kapp de o ter assediado aos 14 anos. Foi o primeiro de vários acusadores de Spacey, que diz não se lembrar do sucedido mas pediu desculpas pelo “comportamento bêbado profundamente inapropriado” – revelando a sua homossexualidade e sendo criticado pelo oportunismo desse coming out.

Outros casos voltaram do passado. O mais visível é o de Roman Polanski, cuja retrospectiva na Cinemateca Francesa motivou feéricos protestos da organização feminista Femen; o mais recente é o relato dos apalpões e comentários indecorosos de Dustin Hoffman a uma jovem estagiária em 1985. Também o académico Tariq Ramadan foi acusado de violação por duas mulheres, acusações que nega.
 
A indignação espalha-se já via hashtag, porque estamos em 2017 e a ideia da activista Tarana Burke, de Nova Iorque, tornou-se num abrangente #MeToo. “Uma marcha virtual de solidariedade”, nas palavras de Phumzile Mlambo-Ngcuka, sub-secretária-geral das Nações Unidas, que “marca tanto a urgência de encontrar uma voz partilhada quanto a escala oculta do abuso, que antes não tinha registo”. Entretanto, mais de cem artistas, curadoras, responsáveis de museus ou galeristas como Cindy Sherman ou Suzanne Cotter assinaram esta semana uma carta aberta em que prometem não ser mais silenciadas em casos de discriminação ou assédio. 

O potencial da mudança duradoura discute-se há quase tantas semanas quantas dura o dilúvio de histórias muitos anos mantidas em silêncio, apenas partilhadas entre confidentes, trancadas por acordos de confidencialidade ou publicitadas sem nomear os agressores. Este é um “momento poderoso”, como escreveu a autora da série The OA, Brit Marling, que também diz ter sido acuada num quarto de hotel por Weinstein? Ou só, como defende no Guardian Michael Kimmel, professor de Sociologia e Estudos de Género na Universidade de Stony Brook, “mais um momento na longa progressão da renegociação da relação entre homens e mulheres no trabalho”?

A professora de Direito Joan Williams acredita que o assédio se “tornará menos comum”, porque “as queixas de assédio sexual são agora a serra eléctrica pode abater uma carreira ou uma empresa”, disse ao USA Today. A sua colega Deborah Tuerkheimer não acredita em viragens abruptas: “Leva tempo”, avisa no Chicago Tribune, esperando que no futuro as alegações de uma mulher “sejam julgadas de forma justa quer sejam feitas por uma actriz famosa ou por uma mulher pobre, uma mulher não-branca, uma mulher sem documentos, uma mulher transgénero – mulheres cujos relatos são mais vezes vistos com cepticismo”.

“Há algo corrupto” em Hollywood
Outubro, mês negro em Hollywood, Novembro to be continued. Krista Vernoff, showrunner de Anatomia de Grey, diz à Hollywood Reporter que Hollywood tem “mais potencial para mudar a cultura como um todo do que qualquer outra indústria, por causa da grande importância da representação”. Mas Hollywood, onde tudo começou há um mês e onde tudo continua a alastrar, tem um problema de origem? “Na indústria do entretenimento há a situação específica em que a autopromoção é essencial para se progredir. As pessoas, a certo nível, estão a vender-se e isso por vezes pode pôr algumas pessoas, homens e mulheres, num território de uma área cinzenta em que têm de tomar decisões que envolvem muitos tipos de bases morais”, reflecte Alan Poul.

“Há algo essencialmente corrupto no negócio do entretenimento, na forma como requer que as pessoas sejam basicamente despudoradas”, explica ao PÚBLICO, e “em cima disso [há que] lidar com as injustiças reais”.

A objectificação do corpo da mulher é mais premente em Hollywood? Brit Marling reflecte como, nos castings, as actrizes estão condicionadas a pensar que vendem “o que é desejado – não a nossa capacidade artística, não as nossas imaginações – mas os nossos corpos”. Para Martha M. Lauzen, tanto na TV quanto no cinema o assédio sexual tem pasto fértil pelo “excesso de oferta” de candidatos a trabalhar no sector que faz com que “estejam disponíveis a manter o silêncio sobre maus comportamentos”, mas também pelo “grave desequilíbrio de género nos bastidores”, porque “os estudos mostram que organizações e indústrias com poucas mulheres provavelmente vão viver mais assédio sexual” – no ano passado só 17% dos realizadores, argumentistas, produtores, montadores ou directores de fotografia eram mulheres.

Em comum, os casos mais sonantes longo rol de acusadores e acusados têm a alegada prática de violência sistémica sobre mulheres – e alguns homens, como denunciaram os actores James Van Der Beek ou Wilson Cruz – em posições de desvantagem. Alguns estão a ser alvo de processos judiciais e investigações policiais, outros nomes circulam (para já) apenas no tribunal da opinião pública. São lançadas suspeitas e histórias em catadupa e até há folhas de cálculo a circular nos EUA e no Reino Unido com alegados agressores e acusações sortidas que já muitos criticaram pela sua falta de rigor. Há que ter cuidado com os “danos colaterais”, diz Alan Poul, e não “perder a humanidade”, avaliando rigorosamente cada caso.

Para que haja uma verdadeira viragem, defende Martha M. Lauzen, “a visibilidade é chave”. Numa altura em que o conselho editorial do New York Times defende o reforço da lei, da educação, também cita a directora de operações do Facebook, Sheryl Sandberg, que diz que “as pessoas precisam de ter medo não só de fazer estas coisas, mas também de nada fazer quando alguém à sua volta as faz”.

Lauzen reforça: “O assédio sexual tem feito parte da cultura de Hollywood há décadas. Claramente não é o comportamento aberrante de apenas alguns indivíduos. Quanto mais tempo o assunto tiver visibilidade, maior será a probabilidade de vermos uma viragem no comportamento e na política”, responde ao PÚBLICO a responsável pelos muitos estudos que demonstram o desequilíbrio estatístico de género, raça ou orientação sexual em Hollywood e o impacto que tal tem nas histórias que nos conta. “Parte do que nos mantém sentadas naquela cadeira naquele quarto a suportar assédio ou abuso por parte de um homem com poder é que, como mulher, raramente vimos outro fim para nós”, lembra Brit Marling.

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