A Biologia da Pornografia Parte 1 (Press X)

A Biologia da Pornografia Parte 1

O QUE FAZ A PORNOGRAFIA AO NOSSO CORPO? COMO PODEMOS MEDIR O IMPACTO DA PORNOGRAFIA NOS NOSSOS ORGANISMOS?

Este post tenta responder a algumas perguntas sobre o consumo de material pornográfico, e como o nosso corpo reage a estes estímulos. Numa série posterior, falaremos sobre os efeitos psicológicos, sociais e morais.

Serão abordados alguns conceitos relevantes e termos específicos para a compreensão do tema. É importante salientar que nem todas as pessoas têm predisposição para ficarem dependentes de pornografia. No entanto, é importante reconhecer que ela encerra em si os “ingredientes” para se tornar num vício. Existem outros aspetos sociais e éticos que estão relacionados, mas que serão abordados noutro post.

O CÉREBRO QUE MUDA
O cérebro humano é um órgão bastante plástico e flexível. Isto significa que mediante o processo de aprendizagem e de interpretação de estímulos recebidos, ele pode adaptar-se, ou mesmo alterar alguns aspetos do seu funcionamento. A neuroplasticidade é a capacidade do cérebro humano de criar e reorganizar ligações sinápticas, em resposta a aprendizagem (nova informação), experiência ou trauma.

O desenvolvimento da informática, dos computadores e dos smartphones trouxe uma nova forma de interação entre o nosso cérebro e o mundo que nos rodeia, com um impacto direto sobre este sistema.

De facto, um estudo realizado sobre a concentração, concluiu que a nossa capacidade de atenção diminuiu de 12 para 8 segundos, no espaço de uma década. Isto porque a própria informação se tornou volátil, curta e mais digerível. A comunicação tornou-se simbólica, com a ajuda de emojis, memes e GIFs. O nosso cérebro adaptou-se a este tipo de comunicação, à medida que fomos expostos à mesma.

O mesmo aconteceu com a pornografia! Sim, leste bem: a pornografia da era digital reúne características que permitem ao cérebro mudar e adaptar-se… A questão é: será esta mudança positiva?

A NOVA PORNOGRAFIA

Relegando os aspetos históricos para mais tarde, e para o ambiente social que caracteriza as diferentes etapas de evolução da forma de distribuição de pornografia, importa-te saber que a representação da pornografia moderna começou em posters e cartazes, passando pelas revistas, VHS e CDs, sites de streaming, até chegarmos à realidade virtual (VR).

A pornografia é tão antiga quanto a civilização. No entanto, a Internet tem de nos fazer olhar para ela de uma nova perspetiva. A ameaça da pornografia digital está relacionada com os efeitos que ela provoca no sistema de recompensas do cérebro.

Norman Doidge, autor de The Brain That Changes Itself, apresenta uma descrição incrível do que acontece quando vemos pornografia:

Os homens que vêem pornografia nos seus computadores, começaram a ser aliciados para um “treino pornográfico”, com várias sessões, que cumpriam todas as condições necessárias para uma mudança efetiva no cérebro. Como os ‘neurónios que disparam juntos, ficam juntos’, estes homens tiveram muita prática em assimilar estas imagens nos centros de prazer dos seus cérebros, e a atenção necessária para fazer esta mudança plástica. De cada vez que sentiam excitação sexual ou tinham um orgasmo quando se masturbavam, um fluxo de dopamina (neurotransmissor de recompensa) consolidava as ligações criadas no cérebro durante as sessões.

Isso não só facilitava o comportamento, como tirava qualquer sentimento de culpa ou embaraço ao comprar uma revista Playboy numa loja, por exemplo. Este comportamento só possuía recompensa, e nenhum castigo. O conteúdo do que achavam excitante mudou progressivamente à medida que os sites mostravam mais variedade de temas e histórias, alterando o cérebro sem se aperceberem. Como a plasticidade é competitiva, o cérebro pede imagens novas e mais excitantes, retirando o que previamente os atraía — motivo pelo qual eu penso que cada vez mais as suas namoradas eram menos atraentes para eles …

De forma muito simples, Norman descreve o que acontece connosco quando vemos pornografia. Os sites de streaming vieram trazer alguns elementos que nos incentivam a consumir pornografia, sem qualquer tipo de consequência: são acessíveis, grátis, com diversidade de conteúdos, e anónimos. Facilmente podemos ter vários separadores abertos no browser, com diferentes vídeos, em busca do melhor para sentirmos prazer e atingir o orgasmo.

O SISTEMA DE RECOMPENSAS
Mas é aqui que temos um problema. O sistema de recompensas do nosso cérebro é primitivo, e não está preparado para este fluxo de informação e de prazer. A pornografia funciona como um super-estímulo, que o cérebro não consegue gerir.

A nossa atenção às imagens, o factor de novidade, e o mecanismo de atração sexual passam a fazer parte das condições ideais para o nosso cérebro pedir mais imagens!

Um jovem descreveu como se sente ao consumir pornografia, segundo Gary Wilson (Your Brain On Porn):

Eu consigo perceber a necessidade de ver 10 vídeos de uma vez, e quase ao mesmo tempo… É incrível ouvir alguém dizê-lo. É como uma explosão nos sentidos, ou talvez como acumular e nos empanturrar com a nossa fast food favorita.

Outros dizem ainda:

Os sites de Tube, especialmente os maiores, são como a cocaína da Internet pornográfica. Há tantos, e tantos vídeos novos todos os dias, a cada hora, a cada 10 minutos, que eu conseguia encontrar sempre um novo estímulo.

Agora com alta velocidade, e com smartphones, eu podia ver ainda mais vídeos e com maior resolução. Às vezes tornava-se um evento de um dia inteiro, procurar pelo vídeo ideal para acabar em grande. Mas nunca, nunca satisfaz. O cérebro diz sempre: preciso de mais!… que mentira!
Na parte primitiva do cérebro, navegar por sites de Tube é interpretado como uma novidade, por causa do estímulo sexual envolvente. Esta excitação extra reforça a necessidade de ver mais pornografia, porque fortalece os circuitos cerebrais associados. Em comparação a este estímulo, as fantasias individuais são muito fracas e não substituem a capacidade de prazer que a pornografia traz ao cérebro.

Na parte 2, falamos do funcionamento do centro de recompensas de forma mais detalhada. Também colocamos alguns efeitos em destaque.

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