Pornografia: um moedor de carne humana
(Daniel Alves de Araújo/Trendr)

Pornografia: um moedor de carne humana

Abuso sexual. Tráfico humano. Pedofilia. Drogas. Suicídio.

Quando eu tinha catorze anos de idade, um colega de preparatório deixou escapar, em uma conversa dessas no meio da aula, que ele dormia a hora que ele quisesse.

Eu, filho de professora linha dura, que pouco tempo antes disso pedia permissão para ver Pokemon às 21h30 da noite, achei aquilo surreal. Era tão fora da minha realidade que não dei tanta atenção para o que ele disse depois:

“Fico assistindo filme pornô”.

A mente humana é uma coisa engraçada. Esse diálogo, e a própria existência desse colega de turma que só estudou um ano comigo, me ocorre agora pouco antes de começar a escrever esse texto.

Um texto sobre um problema social. Um problema que ainda não nos demos conta da gravidade. Que sequer encaramos como um problema.

Pornografia.

Forçando um pouco a memória, lembro que esse ex-colega de turma ficou conhecido por ter um caderno cheio de desenhos autorais da Kim Possible (quem lembra?) pelada. Também ostentava, como algum super poder, seu grande repertório de brincadeiras obscenas — e as respostas corretas para não cair nas pegadinhas (“você leva Nabunda ou deixa Nabunda?”).

Para ser sincero só me recordo de conversas que não envolviam sacanagem quando falávamos de D&D. O menino era obcecado por sexo. E em grande parte ele não tinha como não ser.

Porque a pornografia altera o cérebro.

O vídeo acima é uma produção do movimento Fight The New Drug que tem feito um ótimo trabalho de conscientização sobre os males da pornografia.
O nome Fight The New Drug não é um exagero: a pornografia atua no cérebro exatamente como a cocaína ou crack. É o que explica o neurocientista Gary Wilson, autor do livro Sexo na Cabeça (em entrevista uma entrevista que você pode ver aqui).

O cérebro libera descargas de dopamina quando o jovem acessa pornografia. O pico de dopamina é alto, mas depois há uma baixa (“bateu a bad”). O cérebro cria “caminhos” para você encontrar o prazer, e por conta disso, conforme o consumo de pornografia se torna frequente, ele se condiciona a buscá-la cada vez mais. Você se acostuma e cria gatilhos para querer assistir, da mesma forma que um alcoólatra que tem vontade de beber ao passar perto de um bar, sentir o cheiro de álcool, ouvir copos de vidro se chocando, etc.

O problema é que a dopamina está associada também à novidade. A primeira vez que você acessa pornografia, o pico de prazer é maior. Esse pico nunca será atingido novamente. A cada novo acesso, fica cada vez mais banal. Os picos são cada vez menores. E para piorar tudo, a bad, aquele pico negativo, é cada vez maior.

O cérebro se acostuma a ser exposto aos níveis anormais de dopamina, precisando de quantidades maiores para se alegrar. Oque é cada vez mais difícil, porque a pornografia parou de ser novidade. E isso leva há duas consequências horríveis:

A necessidade de buscar pornografia extrema: se antes mulher pelada era uma novidade excitantes, orgias passam a ser necessárias, porque o cérebro já banalizou. Depois das orgias, talvez violência? Zoofilia? O usuário termina se sujeitando a coisas que antes consideraria repugnantes.

A vida perde o prazer. Como o cérebro se acostuma a grandes descargas de dopamina, o que antes gerava um prazer passa a se tornar indiferente. Uma nuvem de melancolia, tédio e indiferença atinge a vida. Provavelmente é um dos fatores mais tristes. A pessoa perde a capacidade de se alegrar com um programa de amigos, um bom filme, um passeio diferente… Os pequenos prazeres da vida desaparecem.

Consegue dimensionar o drama que é isso? Gary Wilson leu esse depoimento de um jovem em uma palestra no TEDx:

“Eu estive em psicólogos e psiquiatras nos últimos oito anos. Fui diagnosticado com depressão, ansiedade social severa, falha de memória severa e alguns outros.

Já usei Fexer, Ritalin, Xanax, Paxil, larguei duas faculdades, fui mandado embora duas vezes, usei maconha para acalmar minha ansiedade social.

Fui abordado por várias mulheres, acho que por causa de minha aparência e status, mas elas rapidamente sumiram devido a minha esquisitice.
Sou viciado em pornografia desde os 14″.

Viciado em pornografia desde os 14. Podia ser meu ex-colega de turma.

Também podia ser seu sobrinho, seu irmão caçula, seu filho.

Com o acesso à internet de alta velocidade e dispositivos móveis, vemos hoje uma geração que vai se viciar com 13, 12, 11 anos de idade. No momento em que o cérebro está mais “plástico”, em formação.

Uma geração inteira que não vai conseguir se relacionar afetivamente. Que não vai se alegrar tomando um chopp com os amigos ou com uma festa de aniversário surpresa.

Há muita coisa que pode ser dita sobre esses males, mas o que quero aqui chamar a atenção é que a pornografia precisa ser tratada como um problema social.

Ainda mais porque ela sustenta o câncer chamado indústria pornográfica.

Conversando esses dias com minha noiva, ela disse que uma cena de Taken — Busca Implacável ficou em sua memória. Quando o personagem protagonizado por Liam Neeson encontra a amiga da filha sequestrada, em um bordel no Leste Europeu, magra, pálida, cheia de furos e doente.

“Sempre que penso em tráfico humano me vem aquela cena em mente”.

Macabro, não é? E se eu disser que muitas ex-atrizes pornô viveram situações parecidas?

“Foram sete anos de tortura. Eu estava miserável, sozinha, caí nas drogas e no álcool e cheguei a tentar suicídio. Eu sabia que queria cair fora mas não sabia como sair”

O depoimento de Brittni Ruiz, ex-atriz pornô, é apenas um dos milhares de testemunhos do inferno que é a indústria pornográfica.
Indústria essa que possui íntima ligação com o tráfico humano.

De acordo com a organização de combate à escravidão Rescue:Freedom, em uma pesquisa feita com ex-escravos sexuais em nove países 49% deles afirmaram que foram forçados a participar de filmes pornôs enquanto estavam cativos.

A coisa piora quando falamos de tráfico sexual infantil. 70% dos menores de idade mantidos em cativeiro foram usadas para a produção de material pornográfico.

“Lutar contra o tráfico humano e assistir pornografia é como protestar contra a corrupção e fazer doações aos políticos acusados”
A coisa se retroalimenta. Aquelas mulheres são drogadas e mantidas em regime de escravidão. Os próprios sites nos revelam a violência que coisa envolve, quer ver?

No Pornhub alguns termos disponíveis para a pesquisa são “facil abuse” (sexo oral forçado), “teen crying”, “extreme brutal gang bang” (um estupro múltiplo!).

Só isso deveria bastar para termos os dois pés atrás com a pornografia.

E mesmo quando a escravidão não é formal a indústria pornográfica escraviza na prática.

É o que vemos no depoimento de Greg, que por 23 anos atuou com o pseudônimo “Randy Spears” no meio pornográfico “limpo”. Foi premiado, chegou a produzir filmes pornôs. Mas na verdade Greg era um desesperado quando aceitou gravar o primeiro filme e depois ficou preso à indústria pornográfica:

O que eu fazia era ir trabalhar. Fazer pornô para poder comprar as drogas. Para aguentar a dor de fazer pornô”.

Abuso sexual. Tráfico humano. Pedofilia. Drogas. Suicídio. É isso que nossos “clicks” alimentam. Não se trata somente de uma punheta.

Cada vez mais as pesquisas comprovam os males psíquicos e neurológicos que a pornografia causa, mas ainda pouca coisa é dita contra milionária indústria pornô.

Que a internet possa denunciar cada vez mais (e dar cada vez menos lucro para) esse moedor de carne humana.

>Ver artigo original.

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