Ex-funcionários acusam diretor do Museu Afro Brasil de assédio sexual (Folha de S. Paulo/O Estado)

Ex-funcionários acusam diretor do Museu Afro Brasil de assédio sexual

Dois ex-funcionários do Museu Afro Brasil acusaram seu diretor, o curador baiano e ativista do movimento negro Emanoel Araujo, 77, de assédio sexual.

O educador, produtor e massagista Felinto dos Santos foi o primeiro a compartilhar o que diz ter testemunhado ou sentido na pele durante os cinco anos que trabalhou na instituição.

Em depoimento publicado em seu perfil do Facebook no dia 20 de dezembro, ele diz lá ter presenciado, de 2008 a 2013, “muitos assédios e abusos cometidos por seu diretor”.

Araujo nega as acusações e diz que “essa questão de falar sobre assédio sexual está na moda”.

Hollywood também está aqui”, escreveu Felinto. Enquanto acusações de assédio abalam a meca do audiovisual americano, o ex-funcionário afirma que, no museu, as ofensivas seriam sobretudo contra jovens negros.

“Araujo se investe do poder conferido por sua posição de prestígio. É atrás dessa cortina que o mesmo encobre as encoxadas, as passadas de mão, os dizeres invasivos, as ameaças de demissão sem causa justificável, as vexações contra as equipes de profissionais que trabalham na instituição.”

Nesta terça (26), ele voltou a acusar o curador, que, segundo ele, tentou segurar seu braço à força em certa ocasião.

Ele -que deu ao relato o título “Emanoel Araujo: abusador com salvo conduto a nos evocar memórias de capitães de mato”- não está só.

Depois de Felinto postar a denúncia, Newman Costa escreveu na caixa de comentários: “Fui um dos assediados por este TRASTE. Não foi pior porque tinha nada a perder e me protegi. Ganhei uma demissão. Nunca toquei no assunto por ‘n’ motivos. Sabe como é, fogo amigo, blá, blá, blá…”

‘RETALIAÇÃO’

Araujo credita os relatos a uma “retaliação de uma turma do irmão da Renata”. Segundo ele, essas pessoas estariam incomodadas pelo fato de o curador “ter criticado ela no [programa] ‘Roda Viva’.”

Ele se refere à artista plástica Renata Felinto, que coordenou o Núcleo de Educação do Museu Afro Brasil de 2004 a 2010.

Ela, que moveu processo trabalhista contra a instituição dirigida por Araujo, foi criticada por ele no programa “Roda Viva” exibido pela TV Cultura no último dia 18.

“Tem algumas artistas contemporâneas que tenho dúvidas com elas. Não gosto dessa tal Renata Felinto”, diz Felinto.

“Teve uma atitude péssima com o museu, sendo negra, pondo o museu em uma situação de Justiça. O museu teve que pagar a ela mais de R$ 120 mil. Uma artista que não tem consciência de onde ela está não me interessa.”

À reportagem, Araujo lamenta o que identifica como uma situação do Brasil de hoje, em que “você fala mal de uma pessoa, e ela te cria um problema de processo”.

“Essa Renata trabalhou no museu em uma época em que não tínhamos recurso nenhum, e eu tirava do meu bolso para manter o museu. Ela botou um processo trabalhista. Ganhou, e o dinheiro foi pago.”

CARA FECHADA

Newman Costa diz ter conhecido Araujo em 2006 e, logo depois, recebido uma proposta para trabalhar na recepção.

Após “dez encaradas e zero palavra” trocada com o curador, ele, então com 21 anos, deixou o posto. Até que ligaram perguntando se ele tinha interesse numa vaga para “montagem”. Tinha.

Na mesma equipe havia um rapaz baiano. “A primeira cena que lembro foi ele subir em uma escada e PLAU! Tapão na bunda dado pelo Emanoel. ‘Ahhh, esse Emanoel é danadinho mesmo, hein!’, disseram os que estavam em volta.”

“Já eu, na minha ignorância jovial, pensei: ‘Bom, se [o baiano] não falou nada é porque gosta, né? Dá a liberdade. Comigo não aconteceria.” Mas aconteceu, ainda segundo o relato do Costa.

Ele conta que certo dia, saindo do banheiro, deu de cara com o patrão, que teria obstruído a passagem. “Ele me segura pela cintura, me põe contra parede, encosta a barriga dele na minha e vem chegando com o rosto perto do meu”, narra.

Costa afirma que, “no instinto”, empurrou e xingou o artista. “Não sei ao certo o que disse, mas guardei o ‘cê ta louco’ e o ‘vai tomar no cu’. Em resposta, ele começou a berrar muito mais alto pedindo por socorro. Invertendo a situação. Umas quatro pessoas chegaram correndo.”

Ele diz que tentou explicar que fora atacado, e não o contrário. “Pra minha surpresa, nessa hora tudo que eu ouvia era ‘sim, sim a gente sabe”. Ele afirma que foi demitido minutos depois.

Araujo diz não ter ideia de quem seja Costa. “Eu não posso imaginar quem são essas pessoas que estão me acusando.”

‘CORTINA DE FUMAÇA’

O caso de Araujo, para Felinto, expõe “questões que o ativismo negro ainda não sabe manejar”.

“Como agir quando o abusador é negrx? Como criar um debate que não incorra no prejuízo dos diversos projetos desenhados pela negritude, que em algumas instância se ancoram em certos consensos, como a ideia de que negrxs não perpetram o racismo.”

Fonte: O Estado e Folhapress

>Ver artigo original.

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