Mito: legalizar a prostituição reduz o estigma (Medium/Furiosa)

Mito: legalizar a prostituição reduz o estigma

Tradução do texto de Jacqueline Gwynne, do Nordic Model Now!

É frequentemente dito que legalizar a prostituição a tornaria segura e reduziria o estigma para as mulheres envolvidas. Se isso fosse verdade, nós veríamos os benefícios no estado de Victoria, na Austrália — onde a troca sexual é completamente legal há 33 anos, desde 1984.

Eu me debruço sobre minha experiência como recepcionista em um bordel legal de alta qualidade no centro de Melbourne (no estado de Victoria) para demonstrar que o estigma para as mulheres ainda está vivo e a legalização não melhorou as condições nem a aceitação social de mulheres em prostituição. Eu trabalhei nesse bordel por dois anos começando em 2008, enquanto eu estudava. Eu também trabalhei brevemente em outro bordel legal em uma área industrial nos arredores de Melbourne.

Eu trabalhava no turno da noite (das 18h de um dia às 6h do outro), duas ou três noites por semana. Em todos os turnos havia um incidente com assédio, abuso verbal, violência ou maus tratos com as mulheres. Eu também vivenciei assédio sexual e abuso verbal por parte dos “clientes”; até as ligações por telefone continham assédio.

Havia alarmes de pânico (n/t: botões que, quando apertados, avisariam a polícia de que havia algo de errado) em todos os quartos, mas eles nunca foram usados enquanto eu estive lá. Era simplesmente aceito que assédio sexual e abuso faziam parte do trabalho. Havia pornografia pesada sendo transmitida em todos os quartos, incluindo na recepção, e não dava pra escapar dela. Em qualquer trabalho normal isso seria considerado assédio sexual. Mas prostituição não é um trabalho normal.

Se mulheres tivessem pressionado o botão de pânico — algo que elas poderiam ter feito por diversas vezes todas as noites — o que eu faria? Eu estava sozinha e o dono do bordel esperava que eu ficasse na recepção o tempo inteiro para abrir a porta e atender o telefone. Não havia seguranças, e, até onde eu sei, nenhum bordel em Melbourne os tem. Se um cara bêbado ou drogado se tornasse agressivo, como eu poderia me adiantar e ajudar? Todo mundo simplesmente aceitava que esse tipo de comportamento por parte dos homens é normal e aceitável nessa indústria.

As mulheres ainda são ostracizadas e marginalizadas, e a maioria delas vive uma vida dupla em que elas mantêm em segredo sua vida na indústria sexual — ao ponto de muitas cortarem relações com a família e com amigos e amigas de fora da indústria. Algumas não contam para seus parceiros ou parceiras e fingem trabalhar como faxineiras noturnas ou em depósitos, ou elas inventam uma identidade elaborada de empreendedoras, completa com cartões de trabalho falsos e um site. O estigma existe porque a prostituição é degradante e regulamentação nenhuma pode mudar isso.

Também há vergonha por parte dos homens que compram mulheres para sexo. Em diversos bordéis em Melbourne há uma entrada pelos fundos onde os “clientes” podem entrar sem serem percebidos. Outros bordéis são localizados em áreas remotas ou industriais onde os homens podem entrar sem serem reconhecidos. Não havia entrada dos fundos no bordel em que eu trabalhei, mas isso não impossibilitava que os homens perguntassem se eles podiam utilizá-la. Eles têm vergonha porque eles sabem que o que eles estão fazendo é errado. O horário de pico para os bordéis era depois da meia-noite. Isso também se dá porque os “clientes” querem entrar sem serem vistos.

A linguagem usada na indústria se refere às mulheres como “provedoras de serviço” e elas são consideradas autônomas. Mas autônomas em pequenos negócios convencionais estão no controle e são livres para ir e vir como querem; para sair e comer alguma coisa onde quiserem, por exemplo.

Nos bordéis em que eu trabalhei, era esperado que as mulheres cumprissem um turno pré-combinado do começo ao fim. Uma vez que elas chegavam elas não podiam sair do prédio por motivo algum. Elas ficavam trancadas e isso acontece em todos os lugares em Victoria, e, de acordo com o que outras pessoas me contam, isso é a norma na maioria dos países.

Eu não entendia a lógica disso inicialmente. Me falaram que era pra manter as drogas fora de lá. Mas isso não fazia sentido. Havia uma política de “zero drogas”, mas a maioria das mulheres tomava medicamentos sob prescrição, drogas ilícitas ou álcool simplesmente pra aguentar a noite e o sofrimento mental e físico que a acompanha. Elas traziam drogas ou álcool com elas, ou seus “clientes” regulares o faziam. Não tinha como eu fazer cumprir essa política. O que eu poderia fazer — revistar bolsas, revistar seus corpos? Então, a razão para manter as mulheres presas não é sobre drogas de jeito nenhum. É sobre controle e sobre mantê-las obedientes, sobre destruí-las mentalmente. Em todos os sentidos, a troca por sexo envolve a manipulação, o controle e a opressão de mulheres.

Se isso é como as mulheres são tratadas em bordéis legais de ponta nos quais eu trabalhei, você pode imaginar o quão piores as condições devem ser em bordéis ilegais.

Nesse ambiente de trabalho, você perde a noção do tempo. O prédio é banhado por luzes artificiais e estranhas e todas as janelas são tampadas. Não há conexão com o mundo lá fora. Se isso fosse um negócio normal, não haveria necessidade de cobrir as janelas. Elas são cobertas por causa do abuso horrível e da exploração que acontece com as mulheres lá de dentro.

Apesar de eu ter trabalhado em apenas dois lugares, eu fiquei sabendo do que acontece em outros bordéis porque as mulheres se mudam bastante. Algumas até trabalhavam em diversos bordéis ao mesmo tempo, inclusive nos ilegais. Um dos motivos de elas se mudarem tanto é pra se esconder de homens que as perseguem e as assediam.

Dentro dos bordéis legais há corrupção, e atividades ilegais se passam lá inclusive tráfico de drogas e de pessoas. Isso é aceito como uma parte normal desse mundo. Muitas das mulheres acabam lá por conta de disfunções ou doenças psiquiátricas ou pobreza — então pode parecer normal para elas. Ninguém questiona nada.

Negócios dentro da lei em Melbourne são operados e controlados por motoqueiros ou por gangues criminosas. Nos últimos 12 meses tem ocorrido um surto de tiroteios e bombardeios por motoqueiros em alguns dos estabelecimentos populares e regulares da cidade. Houve a suspeita de um assassinato no Dreams Gentlemen’s Club onde uma stripper já havia estado morta por 13h antes de a denúncia ocorrer. Nesses estabelecimentos, apesar de não haver seguranças, há câmeras de segurança funcionando 24h dentro de todos os quartos e também fora dos prédios, então eles sabem quem entra e sai de todas as direções. Como é possível que uma mulher estivesse morta nessas condições e ninguém percebeu?

Durante os anos 90, um bar de topless legal no hotel Kew’s Clifton foi invadido pela polícia porque mulheres traficadas da Ásia estavam sendo mantidas como escravas sexuais nos andares de cima. Todos esses são exemplos de corrupção dentro de negócios regulares. Os bordéis e clubes de strip regulares e irregulares estão todos conectados. Algumas pessoas podem pensar que o strip é um entretenimento inofensivo, mas clubes de strip geralmente têm bordéis dentro deles ou a eles conectados.

O strip está ficando cada vez mais e mais extremo, com a influência da pornografia virtual. Por exemplo, mulheres inserem objetos, incluindo vegetais, dentro de seus orifícios como parte de seus atos. O jeito de fazer dinheiro sendo stripper é com danças privativas envolvendo qualquer coisa que o pagante requisite, frequentemente penetração e contato sexual. Muitas mulheres alternam entre strip e prostituição simplesmente pra conseguir pagar as contas. Muitas vezes elas se sentem mais seguras na prostituição porque, no strip, elas lidam com multidões de homens perigosos e bêbados. Elas se sentem mais no controle e é menos degradante prostituir-se.

Quando a troca sexual é legalizada, a demanda é criada e normalizada. O público a aceita e perde a noção entre bordéis legais e ilegais. É uma indústria que opera fora dos horários normais para que o público não veja o que realmente acontece.

De acordo com estatísticas recentes, houve um aumento de 500% de bordéis ilegais desde 1984 e todos os anos essa porcentagem aumenta. Para cada bordel legal, há cinco ilegais de que as autoridades não têm conhecimento. E há muitos que sequer são contabilizados, como os bordéis temporários que se estabelecem apenas por um curto período de tempo. Por que essa indústria específica recebe imunidade de regulamentação?

O impacto da legalização levou os “clientes” a ficarem mais exigentes. As demandas agora incluem práticas que não existiam há 20 anos — os praticantes aprenderam com a pornografia. Como recepcionista, eu informaria os serviços genéricos oferecidos, incluindo sexo, sexo oral e massagem erótica. Tudo o mais seria considerado um extra pelo qual eles pagariam dinheiro. Os homens me perguntavam o que as mulheres faziam. Era claro que eles queriam o que eles viam na pornografia e eu sabia o que eles queriam porque eu assistia pornografia pesada em todos os meus turnos. Na pornografia nunca há camisinha, há três homens ejaculando na cara de uma mulher, há abuso verbal, há sexo anal, há estrangulamento, há puxões de cabelo, há estapeamento — e isso só no pornô comum. Eles queriam que as mulheres se parecessem com as mulheres das telas: muito jovens, como adolescentes, loiras, com silicone, e sem nenhum pelo pubiano.

Eu me mudei de Sydney para Melbourne em 2002 e via os “salões de massagem” com aparência suspeita e placas com LED piscando, janelas cobertas, longos turnos em que você não via clientes entrando nem saindo pela porta da frente.

O público talvez saiba o que acontece lá dentro mas fica em negação ou não sabe o que fazer. Com certeza a polícia, conselhos e governo local sabem o que acontece? Por que nada está sendo feito? Seria por que eles se beneficiam e lucram com a exploração sexual de mulheres?

Nos últimos quatro anos eu tenho trabalhado num negócio de vendas e propaganda. Eu converso com o WorkSafe (que aplica as leis de saúde e de segurança locais) pelo telefone e eles nos visitam para uma inspeção rigorosa todos os anos. Você sempre sabe quando eles vêm, mas no bordel eu não sabia dessas inspeções. Eu tenho certeza de que eu saberia se houvesse uma inspeção. Se o WorkSafe tivesse feito uma inspeção básica eles teriam fechado o local em menos de cinco minutos. O fato de que há pornô passando em todos os ambientes é uma das razões pelas quais esse trabalho não ocorre em um ambiente de trabalho seguro. Mulheres são regularmente expostas a doenças sexualmente transmissíveis. Essas condições não existem em nenhuma outra profissão. Receber a ejaculação de um homem em sua cara, arrebentar sua vagina e seu ânus não só são dolorosos e degradantes, mas arriscados para a saúde da mulher a longo prazo e aumenta sua vulnerabilidade a doenças infecciosas.

Em um dos bordéis premiados de Melbourne, “clientes” são tratados como reis e nada lhes é negado em nome da luxúria. As instalações femininas ficam no extremo oposto do lugar. Os homens têm um ambiente espaçoso com sofás de couro e mesas de sinuca. As dez ou mais mulheres fazendo turnos de até 12h devem compartilhar um quarto apertado sem nenhuma privacidade. Elas sequer têm espaço para se sentar confortavelmente e relaxar entre os compromissos agendados.

O bem-estar das mulheres não é prioridade dos cafetões, dos donos de bordéis, ou mesmo do governo, que se beneficiam todos de sua exploração sexual. O direito sexual dos homens é considerado mais importante que a segurança e a saúde de mulheres vulneráveis e empobrecidas.

Em um nível básico, a prostituição é sexista, no sentido de que requer que um grupo de mulheres esteja disponível para que homens as explorem sexualmente. A indústria é perigosa, misógina e exploradora por uma multidão de razões. A legalização não funciona e nunca vai funcionar. Desde a legalização da prostituição em Victoria em 1984, a indústria legal do sexo está fora de controle, perigosa e desregulamentada.

Por que ainda justificamos o direito dos homens de sexualmente explorar mulheres? Nós nunca defenderíamos o direito de pessoas brancas a terem escravos pretos. Todo o conceito é arcaico e a solução lógica é acabar com a demanda masculina de comprar mulheres e meninas por sexo.

O modelo legal que está funcionando é o Modelo Nórdico, que tem operado na Suécia desde 1999 e, mais recentemente, na França. O modelo Nórdico atua para acabar com a demanda pela compra de sexo. Criminaliza os traficantes, os cafetões, os donos de bordel e também os consumidores. Às mulheres são providenciados treinamento profissional, reabilitação e serviços para tratamento de drogas, terapia e apoio financeiro e de moradia para que elas possam retornar a uma vida de segurança e de normalidade.

Comprar sexo não é um direito humano. Homens não têm o direito de explorar mulheres sexualmente e nada nunca vai justificar isso.

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