Hollywood fala pela primeira vez em directo para o mundo sobre assédio sexual (Público Cultura)

Hollywood fala pela primeira vez em directo para o mundo sobre assédio sexual

É bom ter um elefante na sala”, diz o apresentador Seth Meyers sobre o caso Weinstein e suas réplicas na sociedade – e na temporada de prémios que agora começa. Actrizes vão vestir negro em protesto, mas este pode mesmo ser o “ano das mulheres”.

Joana Amaral Cardoso

Este ano, os Globos de Ouro têm o papel simbólico de ser a ocasião em que pela primeira vez a indústria falará em directo para o mundo sobre o escândalo Weinstein. O tiro de partida da temporada de prémios será inevitavelmente marcado por um dos temas do ano, o assédio sexual e o papel social e laboral das mulheres – talvez na lista de premiados, seguramente no discurso. A passadeira vermelha será mais negra, não em resposta ao tema dominante dos últimos anos, a diversidade racial, mas porque as actrizes decidiram ser essa a cor do protesto #MeToo.

“É bom ter um elefante na sala. Nada ajuda mais do que uma coisa em que toda a gente está a pensar”, diz o apresentador da cerimónia deste domingo, Seth Meyers. O elefante é o abalo tectónico lançado de Hollywood para o mundo há três meses, que instalou no ar a expectativa de que se “digam algumas coisas que não poderiam ser ditas nos anos anteriores”, completa, no New York Times, o anfitrião do talk show Late Night (não exibido em Portugal). Meyers é uma conhecida voz da comédia (Saturday Night Live) e um rosto do comentário à presidência de Donald Trump – ele que será hoje ultrapassado pelas mulheres, garante Seth Myers, porque o que saiu de Hollywood nos últimos meses é mais importante do que o que se passa em Washington, disse à Hollywood Reporter. Trump, porém, não poderá ser ignorado, e, tal como aqueles que foram acusados de assédio, violação ou outros tipos de violência sexual, será alvo da sua intervenção na gala, que em Portugal será transmitida pela SIC Caras, a partir da meia-noite.

Festejar ou não? Os Globos de Ouro são o teste ao escândalo sexual em Hollywood

Os Globos de Ouro são sobretudo uma boa festa, uma mistura pop de cinema e TV. Não são conhecidos pelas nomeações certeiras, nem como indicador fiável acerca dos que chegarão à meta da grande corrida anual, os Óscares. Atribuídos pela Associação de Imprensa Estrangeira de Hollywood (um grupo de cerca de 90 de jornalistas que em nada coincide com os mais de seis mil votantes da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas que decidem os Óscares), são ainda assim um catavento que aponta para a disposição da indústria – “e este ano estão a dizer que é altura de abrir alas para as mulheres”, escreve Sonia Saraiya na Variety.

“Os últimos meses foram de acerto de contas para Hollywood, que muitas vezes – especialmente na temporada de prémios – se projecta como um farol de progressismo e inclusão.” Em 2015 o movimento Black Lives Matter gerou a campanha #OscarsSoWhite, em protesto contra a clamorosa ausência de nomeados não-brancos, e dois anos depois Moonlight recebia o Óscar de Melhor Filme; agora, os sucessivos escândalos de assédio atingiram o núcleo de Hollywood e por isso “não é surpreendente que as nomeações pareçam ser compensações pelas más notícias”, continua Saraiya. Será este o ano de Lady Bird, Três Cartazes à Beira da Estrada ou I, Tonya no cinema, como 2017 foi o ano de The Handmaid’s Tale e Big Little Lies na TV?

Conhecidas em Dezembro, as nomeações dos Globos repetem o que já tinha sido uma tendência nos Emmys, na esteira da derrota Clinton e da reacção contra a retórica Trump, e juntam-lhes histórias do cinema com uma marca de mulher. Casos de poder (The Post, Três Cartazes), de sexo e agência (The Deuce), de atletas ambiciosas (I, Tonya, GLOW, Guerra dos Sexos). “Este ano, a história pode muito bem ser a narrativa Anti-Harvey”, avisou a Vanity Fair. Ainda que dominada pelas mulheres brancas, nota Saraiya – Issa Rae, autora e protagonista de Insecure, é a única actriz não-branca nomeada. Entre as nomeações, convém notar, também há filmes de forte carga masculina, como o heróico Dunkirk, racial, como Foge (cujos realizador e protagonistas, negros, estão nomeados), ou gay, como Chama-me Pelo Teu Nome.

Uma temporada de ausências

Eu vi 2018, e vai ser um ano das mulheres

Esta será também uma temporada de ausentes, sem o outrora poderoso Weinstein, sem o até recentemente admirado Louis C.K., sem o em tempos adorado Kevin Spacey, mas com o seu rasto: Todo o Dinheiro do Mundo, o filme de que Spacey foi apagado e em que acabou substituído por Christopher Plummer, está nomeado nas categorias de Melhor Realizador e Melhor Actriz; Pamela Adlon concorre com a comédia Better Things, produzida e criada com Louis C.K.; Oprah Winfrey, uma das vozes do projecto Time’s Up, que quer combater o assédio sexual, vai receber o prémio honorário Cecil B. DeMille.

Sendo um dos trunfos dos Globos de Ouro o seu alcance mediático, a gala deste ano será inevitavelmente usada como palco para forçar a mudança. Meryl Streep, Jessica Chastain, Allison Janney, Shonda Rhimes, America Ferrera, Reese Witherspoon ou Mary J Blige vão vestir de preto em protesto contra a desigualdade de género – é parte da iniciativa Time’s Up, que além de prestar apoio legal a vítimas de assédio visa tornar momentos como estas passadeiras vermelhas, repletas de imprensa focada em cor e cultura de celebridades, em plataformas de discussão. Alguns actores irão juntar-se ao tom negro solene.

“Isto pode ser o princípio de algo melhor”, diz Meyers sobre a viragem construtiva das últimas semanas. Contudo, a iniciativa não é imune a críticas – é um protesto “silencioso”, critica a actriz Rose McGowan, que acusa Weinstein de a ter violado e tem sido uma das vozes mais despudoradas do momento; as actrizes deviam “comprar um vestido” ao invés de “serem vestidas” pelas marcas, sugere a jornalista de moda Robin Givhan.

Se há anos Cate Blanchett questionava frente às câmaras se certas perguntas eram também feitas aos homens na passadeira vermelha, este ano o The Cut, site da revista New York, abdicou de classificar os bem e os mal vestidos “por respeito pela causa” e “porque o jogo mudou”. O New York Times quer olhar de forma diferente para estes rituais da sociedade-espectáculo, e deixar de “tratar as cerimónias de prémios como coisas tontas para pessoas tontas”. Da sua equipa nos Globos farão parte Jodi Kantor, uma das jornalistas que revelaram o caso Weinstein, ou o fotojornalista premiado Damon Winter, que tentará lançar um outro olhar sobre o desfile de corpos, vestidos e marcas a que normalmente se reduzem estas noites.

O feminismo é para toda a gente

Até 4 de Março, dia dos nonagésimos Óscares (as nomeações serão conhecidas a 23 de Janeiro), Los Angeles receberá uma série de cerimónias – os prémios dos Produtores (dia 20), dos actores (dia 21), dos realizadores (3 de Fevereiro) e dos argumentistas (11 de Fevereiro). E haverá mudanças, umas mais populistas como a da Guilda dos Argumentistas, que vai ter apenas apresentadoras, por exemplo, outras menos visíveis. A poderosa agência de talentos Creative Artists Agency, visada como possível cúmplice das actividades ilícitas de Weinstein, cancelou a sua festa dos Globos e dará o dinheiro a vítimas de assédio e abuso. Sinais de ajustamento a um novo clima, que alguns vêem com cepticismo: “é um sinal de virtude – ou será de contrição?”, perguntava esta semana Dana Goodyear na New Yorker.

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