Mau sexo e assédio sexual
(João Miguel Tavares, Público Opinão)

Mau sexo e assédio sexual

Sendo o sexo o mais movediço dos terrenos, era inevitável que alguém acabasse por transpor a linha que separa a denúncia justa e necessária da denúncia imbecil e gratuita.

JOÃO MIGUEL TAVARES | Foto: Sapo

A importância do movimento #MeToo é indiscutível, e desta vez não estamos a falar de picuinhices identitárias, nem dos insuportáveis trigger warnings que ameaçam a liberdade de expressão em todo o lado. O assédio sexual é um problema gravíssimo e transversal às várias classes sociais. É impressionante como nós ouvimos as maiores estrelas de Hollywood contarem histórias de assédio que poderiam ser relatos de agressões sexuais sofridas por uma qualquer trabalhadora a ganhar o salário mínimo numa fábrica do Vale do Ave. Denunciar o assédio sexual é urgente, é necessário e é absolutamente justo.

Tal como é necessário e justo criticar aquilo que se quer fazer passar por assédio sexual quando, de facto, não o é. Sendo o sexo, por natureza, o mais movediço dos terrenos, era praticamente inevitável que alguém acabasse por transpor a linha que separa a denúncia justa e necessária da denúncia imbecil e gratuita. Se o nome do produtor Harvey Weinstein fica ligado à denúncia justa (e para perceber a extensão dos seus crimes aconselho a leitura do extraordinário testemunho de Salma Hayek, Harvey Weinstein Is My Monster Too, publicado no New York Times), o nome do comediante Aziz Ansari vai ficar ligado à denúncia falsa e gratuita, por causa de uma jovem mulher que confundiu uma experiência sexual má e sentimentalmente frustrante com um caso de sexo não consentido.

A história de Aziz (contada no site babe.net) envolve uma fotógrafa com o nome fictício de “Grace”. Primeiro erro: o anonimato pode certamente justificar-se para contar um episódio de assédio sexual evidente e traumatizante, mas não para relatar esta história. Grace conheceu Aziz numa festa, trocaram mensagens, jantaram, concordaram em subir até ao seu apartamento, e aí ela começou a não apreciar a velocidade com que ele estava a querer levá-la para a cama. Aziz insinou-se demasiado, praticaram sexo oral (mútuo e consentido), ela argumenta que ele foi insensível aos seus sinais “não-verbais” de desconforto. Admite também que sempre que disse “não” em voz alta Aziz parou com os avanços. Ele acabou por chamar um táxi e Grace foi-se embora. No dia seguinte, Aziz enviou-lhe uma mensagem: “Foi divertido estar contigo ontem à noite.” Ela respondeu-lhe que não tinha achado nada divertido. Ele pediu desculpa por “ter interpretado mal” os seus sinais. A história acabou na Internet porque Grace viu Aziz nos Globos de Ouro com o pin “Times Up” e sentiu-se revoltada.

Após o seu longo e pormenorizado relato, Grace admite: “Tive dúvidas se aquilo foi uma experiência sexual estranha ou uma agressão sexual. Por isso, ouvi a opinião de muitos amigos meus. Queria que eles me confirmassem que tinha sido realmente mau.” Eu sugeria, para ajudar, que estabelecêssemos esta regra universal: se persistem dúvidas de que tenha sido uma agressão sexual, é porque não foi uma agressão sexual. Se eu levar um soco, não faço um pow-wow para saber o que me aconteceu. Se uma mulher for sexualmente agredida, não é costume ter dúvidas sobre isso. O problema de histórias infelizes como esta caírem na alçada do assédio sexual — ou da “importunação sexual”, para utilizar a expressão do Código Penal português — é triplo: 1) desvaloriza a verdadeira violência sexual; 2) infantiliza as mulheres; 3) transforma um movimento absolutamente necessário num ajuste de contas com homens brutos e maus amantes. É uma pena que estes existam, com certeza — mas não são criminosos.

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