Nenhum mal? ‘Distritos Sexuais’ fazem da cidade um lugar mais ameaçador para mulheres
(The Conversation/Mariana Amaral/Medium)

Nenhum mal? ‘Distritos Sexuais’ fazem da cidade um lugar mais ameaçador para mulheres

Por medo de serem assediadas ou abusadas, muitas mulheres saem do próprio caminho para evitar andar por partes da cidade em que as avenidas de entretenimento sexual são concentradas.

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Atitudes crescentemente liberais em relação ao sexo permitiram uma celebração pública da diversidade sexual, mas os desejos dos homens heterossexuais ainda dominam os ambientes públicos.

Vizinhanças em que bordéis, clubes de strip tease, grupos de sex shops e shows de voyerismo, devido aos “distritos de entretenimento sexual”, se tornaram comuns nas cidades neoliberais. Um olhar mais apurado sobre essas áreas, que constam no CBD como cidades históricas e subúrbios afastados de novas cidades, revela como a desigualdade entre os sexos se materializa nos espaços urbanos.

A maioria dos críticos ao redutos de entretenimento sexual, também conhecidos como “distritos dos vícios”, foca na crescente onda de crimes e na baixa imobiliária das propriedades ao redor. Nós raramente discutimos os efeitos desses distritos na população de mulheres habitando os espaços urbanos.

Os clubes de strip apresentam um enigma especial, uma vez que eles não são sujeitos às mesmas restrições que por exemplo, os bordéis. Na Austrália e no Reino Unido, os primeiros clubes de strip legalizados abriram as portas nos anos 1990. Desde então, o comércio do sexo rapidamente aumentou seu domínio.

Em paralelo com uma legislação mais aberta, os clubes de strip operam com uma certa flexibilidade. Diferente dos bordéis, eles podem fazer propaganda nas mídias tradicionais e têm licença para vender álcool aos clientes. Com uma receita global estimada em US$75 bilhões, a indústria dos clubes de strip se estabeleceu como uma força econômica urbana. Mas a que custo?

Um relatório feito pela Coalização Anti-Tráfico de Mulheres descobriu que o consumo de álcool nos clubes de strip cria um risco significativo para a segurança das mulheres da região. O relatório sugere que a licença para vender álcool tem efeitos diretos no controle comunitário das avenidas de clubes de strip e gera zonas infrequentáveis para mulheres.

O recente projeto interativo de mapeamento criado pelo Plan International Australia, Free to Be, descobriu que mulheres evitam deliberadamente todo o cumprimento da King Street, a principal avenida de clubes de strip de Melbourne. Os participantes do projeto relataram que qualquer mulher que frequente a área é considerada aberta a investidas sexuais pelos estranhos.

Envios anedóticos para o mapa do Free to Be incluiam depoimentos como:

“Homens acham que só porque você está andando pela King Street, você deve ser uma stripper ou uma prostituta”

“São práticas comuns aqui, o assédio, o abuso e a hostilidade aberta.”

Os dados do Plan International Australia indicam que as mulheres de Melbourne internalizaram a ligação entre as áreas de clubes de strip, a suposição de que qualquer mulher na área esteja “pronta para o sexo”, e normalização da violência hiper masculina.

Para reduzir o risco de assédio e abuso, mais e mais mulheres se vêem forçadas a modificar seus trajetos pela cidade — especialmente durante a noite e nas madrugadas.

Essa questão não está limitada apenas à Austrália — é um problema global.

A organização do Reino Unido, Object, também relatou que a presença de clubes de strip cria zonas em que o “senso de segurança e pertencimento das mulheres ao espaço público” é reduzido.

Nesse contexto, infraestruturas públicas e de transporte, como paradas de ônibus, se tornaram locais de assédio, intimidação e outros comportamentos anti-sociais.

Exploração além dos muros dos clubes de strip
É vital entender como o comportamento e as relações de poder dentro da indústria do sexo, como nos clubes de strip, influenciam as interações sociais fora deles.

Minha última pesquisa sugere que a exploração das mulheres dentro da relação cliente-e-stripper se estende para os espaços públicos e transforma a cidade em um ambiente hetero-sexista. Aqui, as mulheres cobradas de imitar os aspectos da indústria do sexo e perdoar o comportamento sexualmente abusivo dos homens.

A cobertura da mídia sobre casos de abuso sexual confirma essa ideia. Por exemplo, em 2015, três homens assistiram rindo à outro homem abusando de uma mulher, apenas um quarteirão de distância do Goldfingers Men’s Club na King Street. Isso aconteceu numa noite de terça-feira, em que a vítima estava no seu caminho para casa de volta do trabalho.

Em um incidente de 2013, um homem desconhecido perseguiu uma mulher de 23 anos no seu caminho para casa pela King Street, em que ela foi fisicamente violentada e sexualmente abusada as 14:45 da tarde de um domingo. Ela tinha se recusado a segurar a mão do homem.

Esses exemplos do mundo real estão de acordo com uma afirmação da acadêmica Meagan Tyler sobre a objetificação das mulheres nos clubes de strip e seu impacto na população em geral. Tyler diz:

“Se você permite a algumas mulheres serem compradas e vendidas para o prazer sexual dos homens ou para seu entretenimento, você compromete a posição de todas mulheres em uma comunidade.”

Para onde vamos daqui?
É evidente que os clubes de strip e outros negócios da indústria do sexo criam um ambiente social que estimula o privilégio masculino e sua dominância. Como resultado, algumas feministas sugerem que a proliferação avenidas de sexo urbanas servem para relembrar às mulheres de seu lugar e “as manter quietas”.

Em 2010, a Islândia baniu os clubes de strip se baseando no argumento de que a existência desses lugares compromete a seguranças de todas as mulheres, não apenas aquelas trabalhando na indústria.

De acordo com a CEO da Australia’s National Research Organisation for Women’s Safety, Heather Nancarrow, nós precisamos examinar nossa ligação cultural com a hiper masculinidade. Isso inclui as maneiras pela qual as cidades normalizam a comercialização hiper sexualizada e a objetificação sistêmica dos corpos femininos.

Pesquisadores, planejadores urbanos, criadores de políticas públicas precisam prestar atenção nesse fenômeno. Não é apenas um “divertimento inofensivo”, mas um sistema que legitima as infraestruturas da exploração sexual e estereótipos que oprimem as mulheres.

Hoje vemos uma grande determinação social e política para agir nas causas e consequências da desigualdade de gênero e a violência sexual. E quanto mais entendemos sobre a influência dos distritos de “entretenimento sexual” na sociedade, mais difícil fica de ignorar seus impactos negativos.

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