Por que o incesto provoca (com razão) tanto horror na sociedade? (Gazeta do Povo)

Por que o incesto provoca (com razão) tanto horror na sociedade?


As raízes da revolta e do asco contra o incesto têm origem na própria evolução humana, antes mesmo do estabelecimento da cultura

Jones Rossi

O reality show Big Brother Brasil, cuja 18ª temporada começou nesta segunda-feira (22), confinou pela primeira vez uma família — pai, mãe, filha e sobrinho. Mas não demorou muito para a família Lima cair em desgraça nas redes sociais. Logo na primeira noite, durante uma festa, o pai, Ayrton, deu um beijo demorado na boca da filha, Ana Clara. Mais tarde, no quarto, Ayrton se deitou sobre a filha, e fez movimentos com o quadril.

Rodrigo Constantino:

Incesto em BBB não é “polêmica de rede social”; é depravação mesmo!

A interação entre pai e filha provocou revolta nos telespectadores, que foram às redes sociais demonstrar repúdio. A hashtag #ForaFamíliaLima ficou entre as principais dos trending topics no Twitter durante a noite de segunda-feira e terça-feira (23).

Na mesma rede social, muitos levantaram a possibilidade de incesto diante do comportamento exibido pelos dois. Na prática, sem denúncia ou algum ato mais claro, não há o que denunciar. Além disso, a lei brasileira não prevê o crime de incesto. “Caso um adulto faça sexo com um menor de 14 anos, o crime tipificado é o de estupro, mesmo que seja consensual. Dos 14 aos 18, caso a relação envolva violência”, explica Regina Beatriz Tavares da Silva, doutora em direito pela USP e presidente e fundadora da Associação de Direito de Família e das Sucessões (ADFAS).

“Mas não é só o direito penal que organiza a sociedade”, afirma Beatriz. “Além da lei, há a moral e os bons costumes, que repudiam este tipo de comportamento.”

As raízes da revolta e do asco contra o incesto têm origem na própria evolução humana, antes mesmo do estabelecimento da cultura. “O incesto entre parentes próximos não é apenas moderadamente nocivo. Ele é potencialmente catastrófico. A seleção para evitar ativamente o incesto poderá ser tão forte quanto qualquer outra pressão seletiva que já foi medida na natureza”, escreve Richard Dawkins em seu livro “O Gene Egoísta”.

Outros animais vivenciam a mesma pressão seletiva. “Os leões adolescentes machos, por exemplo, são expulsos do grupo dos seus progenitores, onde existem fêmeas aparentadas que poderiam tentá-los, e só se acasalam se conseguirem se introduzir num outro bando. Nas sociedades dos chimpanzés e dos gorilas, é a fêmea jovem que tende a abandonar o grupo à procura de machos de outros bandos”, afirma Dawkins. Esse tipo de comportamento observado na natureza evita a consanguinidade e, consequentemente, problemas genéticos.

Como Dawkins explica em seu mais famoso livro, os humanos possuem genes potencialmente letais. Ao se relacionar com pessoas distantes, as chances dos genes letais serem “ativados” por combinação nos filhos é muito mais baixa que qualquer união com parentes.

Moral
As restrições ao incesto não se localizam apenas no campo biológico e evolutivo. Para o escritor e psicólogo Michel Shermer, “a evolução nos dotou de emoções morais para evitar relações sexuais com parentes consanguíneos.”

A biologia não é tão determinante, na visão do filósofo inglês Roger Scruton. No livro “A Alma do Mundo”, ele faz uma distinção entre moral e natureza. “Nós perseguimos o verdadeiro, o bom e o belo, apesar de o falso, o feio e o confuso talvez serem igualmente úteis para os nossos genes. O exemplo da matemática é especialmente marcante. Nós poderíamos ter evoluído sem a capacidade de entender o campo da verdade matemática e ainda assim estarmos bem-adaptados para resolver enigmas aritméticos de pequena escala do caçador-coletor.”

Falecido há pouco mais de um ano, o sociólogo polonês Zygmunt Bauman acreditava, como deixou claro no livro “Ensaios sobre o Conceito de Cultura”, que a repulsa ao incesto é “o ponto de encontro mais evidente entre natureza e cultura”. Uma mescla entre os conceitos de Scruton e de Dawkins.

O psicólogo canadense Steve Pinker cita o professor de psicologia americano Jonathan Haidt, autor da tese das cinco esferas morais: lealdade intragrupo e autoridade/ respeito, autonomia em equidade/ reciprocidade (a moralidade que fundamenta o altruísmo recíproco) e cuidado com danos (o cultivo da bondade e compaixão, assim como a inibição da crueldade e da agressividade).

Segundo Pinker, é graças a esses fundamentos morais universais (“podem ser encontradas nas instituições morais dos ocidentais seculares”) que comportamentos reprováveis são evitados. “Em seus espantosos cenários, por exemplo, a pureza/ santidade sublinha a repulsa do participante pelo incesto, a bestialidade e a devoração de um cãozinho da família. A autoridade/ respeito comandam a visita ao túmulo da mãe. A lealdade intragrupo proíbe a dessacralização de uma bandeira do seu país”, escreve em “Os anjos bons da nossa natureza: Por que a violência diminuiu”.

Em “Totem e Tabu”, o criador da psicanálise, Sigmund Freud, analisa o incesto a partir do exemplo dos aborígenes australianos, que mesmo tendo uma cultura considerada primitiva, proibiram a prática. Os aborígenes proíbem membros do mesmo totem de ter relações sexuais entre si. “É a instituição da exogamia”.

Produto da evolução de milhões de anos, da moral inerente ao ser humano, o horror ao incesto faz parte da cultura universal. Mesmo que hoje, como alerta o filósofo lituano Leonidas Donskis, “nossa cultura esteja pronta para conviver com tudo, menos com o envelhecimento. Mais cedo ou mais tarde essa cultura vai tentar quebrar os últimos tabus, os que se relacionam à pedofilia, ao canibalismo e ao incesto.”

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