Tragédia no mundo pornô (ISTOÉ)

Tragédia no mundo pornô

Mortes de cinco atrizes em menos de três meses, a maioria por suicídio e overdose, abalam indústria pornográfica e levantam questionamentos sobre o tratamento dado às mulheres que atuam no meio

Camila Brandalise | Foto: Divulgação

“Muitos comentários foram feitos recentemente sobre o número de estrelas de filmes adultos que morreram e com tristeza informamos que a lista aumentou. Soubemos hoje que Olivia Lua se foi nesta manhã – que ela descanse em paz”. O comunicado da agência de atores pornô LDA Direct Models, dos Estados Unidos, foi divulgado na quinta-feira 18 em meio a uma série de especulações em torno da morte da atriz de 23 anos, cujo corpo foi encontrado em uma clínica de reabilitação. Principalmente porque ela era a quinta mulher da indústria do entretenimento adulto a morrer em menos de três meses. A primeira aconteceu em 9 de novembro. Shyla Stylez, 35 anos, foi encontrada morta na casa da mãe. A causa ainda não foi divulgada. Diante das tragédias subsequentes e do aumento de casos de depressão, uma organização americana que reúne profissionais da área, APAC, na sigla em inglês, se posicionou sobre a situação pedindo aos profissionais que prestem mais atenção à sua saúde mental. “A negatividade, a violência e a perseguição que os artistas sofrem on-line e na vida real é condenável. Pedimos à comunidade que pratique a compaixão uns com os outros porque há muito fora da indústria trabalhando contra nós.”

Com a quinta morte seguida, levantou-se um debate sobre o tratamento dado às pessoas nesse meio, principalmente às mulheres, que sofrem perseguições e são submetidas a situações de abuso. Há também uma preocupante pressão em relação à idade e ao peso: quanto mais novas e mais magras forem, melhor, pois, segundo as atrizes, o objetivo é que se pareçam com meninas. O prazo de validade da carreira é curtíssimo e extremamente instável, o que leva muitas mulheres a apresentarem quadros depressivos quando as ofertas cessam. “Há muita pressão para não negar trabalho e não opinar sobre coisas que nos deixam desconfortáveis”, afirmou a atriz Odette Delacroix, que deixou o pornô para trabalhar sozinha nas redes sociais, ao jornal New York Post. “Nos sentimos descartáveis.” As consequências desse cenário são tristes: envolvem tentativas de suicídio, episódios de overdose e casos de depressão.

Um dos casos recentes mais trágicos envolveu a atriz August Ames, 23 anos, encontrada morta em um parque na Califórnia no dia 7 de dezembro. August deixou uma carta em que pedia desculpas à família e aos amigos por ter tirado a própria vida. Uma polêmica envolvendo seu nome parece ter sido o gatilho para uma crise que a levou ao suicídio. August escreveu no Twitter que deixou o elenco de um filme porque seu parceiro de cena havia trabalhado em filmes pornôs gays e, por não saber o que ele fazia em sua vida privada, decidiu não seguir com o trabalho pelo medo de contrair doenças. Militantes começaram a questioná-la, apontando a homofobia em seu comentário. Outros seguidores, porém, trataram o caso de maneira agressiva, com ameaças e ofensas durante dias. Ela argumentava estar preservando a própria saúde. A perseguição continuou. A atriz já havia comentado com colegas que sofria de depressão e procurava ajuda. “Os recentes suicídios na nossa indústria são prejudiciais para outras pessoas. Saúde mental e cyberbullying são questões reais que precisam de acompanhamento profissional, e mais fontes precisam estar disponíveis para nós”, afirmou em carta a APAC.

Os outros dois falecimentos foram das atrizes Olivia Nova, 20 anos, em 7 de janeiro, e Yuri Luv, 31 anos, em 15 de dezembro, por overdose. Diante da proximidade das mortes, a mobilização tem sido maior. Mulheres vieram a público para apontar a realidade por trás das câmeras. “A maneira como a sociedade nos vê e nos trata faz com que fiquemos depressivas”, afirmou a atriz Ginger Banks. “É difícil sentir que somos vistas como cidadãs de segunda classe. Tive depressão, a parte mais difícil deste trabalho é a maneira como sou tratada por fazer o que faço.” Enquanto profissionais da área denunciam problemas, a indústria pornô segue lucrando, e o consumo continua alto: um levantamento do Pornhub, de streaming de filmes adultos, mostrou que o site recebe 75 milhões de visitas por dia. Em 2008, eram 5 milhões.

“Tive depressão. A parte mais difícil deste trabalho é a maneira como sou tratada por fazer o que faço” Ginger Banks, atriz pornô

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