Paradoxo masculino: a pornografia como auxílio masturbatório e como algoz da sua própria masculinidade (Yatahaze Kayasuma/Medium)

Paradoxo masculino: a pornografia como auxílio masturbatório e como algoz da sua própria masculinidade

NOTA: a masculinidade verdadeira protege mulheres e crianças. Masculinidade tóxica não.

Pesquisas passadas se concentraram nas mulheres e meninas na indústria pornográfica, mas para prevenir a violência sexual, devemos começar a nos questionar como o homem heterossexual usuário de pornografia a usa como auxílio masturbatório e como isso dá forma a suas visões sobre as mulheres e meninas, mas mais importante como isso forma a sua própria masculinidade e sexualidade.

Enquanto isso precisamos discutir pornografia para prevenir a violência sexual, muitas pessoas, ambos os homens e mulheres, não querem falar sobre isso a fim de reduzir a violência sexual na sociedade, precisamos examinar o meio ambiente em que socializamos meninos para estabelecermos normas na cultura masculina. Os homens precisam começar a se perguntar como eles podem mudar essa cultura e se comprometer com honestidade revolucionária: ser sincero com suas dúvidas e contradições.

Os altos incidentes de estupro e assédio sexual na sociedade estão ligados à violência generalizada e objetivação das mulheres. Pornografia é uma um problema que suscita fortes reações emocionais e como muitos outros problemas, as visualizações na pornografia têm se tornado muito polarizadas.

Isso também dividiu feministas: feministas pró-pornografia (a expressão sexual desenfreada é um interesse próprio das mulheres e as mulheres não devem ter que reprimir sua sexualidade) e feministas anti-pornografia (objetivação, sexualização e degradação das mulheres e é um fator crítico na manutenção da desigualdade de gênero). E divide também a sociedade, naqueles que condenam a pornografia com viés moralista e religioso, que vê a pornografia como pecado ou algo de pessoas promíscuas e aqueles que veem a pornografia como expressão da sexualidade e até mesmo uma arte subversiva que expõe a podridão de uma sociedade reprimida sexualmente. A pornografia é um produto da indústria do sexo, assim como a prostituiçãoe o tráfico humano sexual. Uma das faces da exploração burguesa em uma sociedade de classes que faz de tudo um produto dentro do capitalismo, inclusive corpos e sexo.

A pornografia normaliza a satisfação dos homens ao sexualizar a degradação das mulheres. A violência sexual é comum em nossa cultura, não porque os homens nascem doentes, mas porque garotos normalmente são socializados para serem sexualmente dominantes e as meninas normalmente são sexualizadas para serem socialmente subordinadas. A dor e degradação feminina foram sexualizadas e alavancadas como prazerosa.

A maioria das pessoas que usam pornografia são homens — devemos perguntar por que eles acham que a dor nas mulheres durante a atividade sexual não é um obstáculo para a sua capacidade de alcançar prazer sexual e acham que a dor é um fator que pode inclusive aumentar seu prazer sexual.

Um dos fatores é que os homens são tão dessensibilizados para o sofrimento das mulheres e que não são incomodados pela crueldade que elas sofrem. A pornografia normalizou e solidificou isso dentro da nossa cultura. Reforçando mitos como o não de uma mulher pode mudar para um sim. Ou ainda a falta de vontade para o sexo pode ser mudada pela insistência ou pelo inicio da relação sexual em que a mulher vai começar a gostar do sexo assim que o homem iniciar a atividade sexual. Fazer a mulher sentir dor também está na cultura masculina como algo que faz dele um homem bom de cama. Deixar a mulher dolorida,arrebentada, com dificuldade de andar faz o homem se sentir um macho alfa. Infligir dor nas mulheres se tornou sinônimo de sexo com pegada. E as mulheres aprenderam a aceitar a dor e permanecerem caladas diante do sofrimento para que os homens possam se satisfazer. Homens socialmente ensinados a serem dominadores e mulheres socialmente ensinadas a serem submissas.

Os produtores de pornografia não têm muita consideração pela socialização de jovens homens e meninos —eles produzem e estimulam comportamentos sádicos. Eles falam pra um menino que procura na pornografia a educação sexual que não encontrou na escola e com os responsáveis,que aquilo que os atores pornográficos estão fazendo com as mulheres que vai o tornar um homem de verdade. E todo o menino quer ser um homem de verdade, a sociedade heteronormativa e falocêntrica espera dele isso.

O que os pornógrafos pensam das mulheres:

“Eu gostaria de realmente mostrar o que eu acredito que os homens querem ver: a violência contra as mulheres. Eu acredito firmemente que nós [pornógrafos] servimos um propósito mostrando isso. O mais violento que podemos obter é gozar no rosto. Os homens saem atrás disso, porque ficam com as mulheres que não fazem isso. Nós tentamos inundar o mundo com orgasmos na cara. “- Bill Margold , veterano do setor de pornografia, citado em Robert J. Stoller e IS Levine, Coming Attractions: The Making of an X-rated video; 1993.

“Não há nada que eu ame mais do que quando uma menina insiste que ela não vai ter um pau em sua bunda, porque — oh, sim, ela vai!” -Max Hardcore, entrevistado em Hustler (junho de 1995).

Os pornógrafos claramente não se envergonham disso. Eles literalmente admitem odiar as mulheres. Eles admitem que estão tentando dar aos homens o que querem ver: violência, degradação, humilhação e brutalização. Pornógrafos são os homens que socializam todos os meninos e jovens homens no mundo em uma cultura pornificada misógina e violenta.

Os avanços na tecnologia permitiram que jovens homens e meninos acessem a pornografia mais facilmente — não podemos culpar esses meninos porque eles agora têm fácil acesso, que passam pela puberdade, rebebendo gratificação instantânea através da pornografia.

A pornografia tornou-se tão importante quanto a TV, e as crianças não se chocam mais com ela. Se tornou normal repassar vídeos, comentar sobre eles sem nem ao menos ter perdido a virgindade. A pornografia enche um vazio para muitos meninos sexualmente inexperientes — e eles acabam considerando o que eles veem como normal e sentem uma pressão para imitar esses comportamentos. Antes mesmo da primeira relação sexual, um menino vai ter assistido mais vídeos e ter internalizado comportamentos predatórios que moldarão a sua visão em relação à mulheres e meninas.

Para se combater a violência sexual e a cultura do estupro precisamos mudar nossa sociedade, mudar as noções de masculinidade tóxica. Os homens precisam se comprometer nessa luta. E isso precisa começar com educação sexual e precisa começar em casa. Conversando com as crianças sobre sexo e sobre os danos da pornografia. Se a escola, as responsáveis não educam sobre sexualidade, a pornografia vai fazer isso.

Texto de Yatahaze.

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