As artistas portuguesas não denunciam abusadores sexuais? (Pedro Tadeu, Diário de Notícias)

As artistas portuguesas não denunciam abusadores sexuais?

Catarina Furtado, Cristina Ferreira e Oliva Ortis. Estas são, que desse por isso, as únicas portuguesas do nosso meio artístico ou televisivo que disseram publicamente terem sido, ao longo da sua carreira, vítimas de agressão com cariz sexual cometido por alguém ligado às suas carreiras profissionais. Nenhuma delas relata pormenores nem revela os nomes dos agressores. Mas eu acredito nelas e acredito que, como elas, muitas outras mulheres, figuras públicas na sociedade portuguesa, poderiam juntar-se ao movimento #metoo, que agita os Estados Unidos da América e junta uma grande quantidade de atrizes e anónimas na denúncia de comportamentos criminosos, abusivos ou, apenas, abrutalhados, de muitas vedetas masculinas cuja reputação está agora arruinada.

Catarina Furtado, que não conheço, explica-se no Facebook desta maneira, que me impressionou: “Era uma muito jovem rapariga, cheia de vontade de provar que gostava de trabalhar e que queria dar o meu melhor, agarrando os meus sonhos. Com minissaia, de calças, de vestido decotado ou de fato de treino ou gola alta.

“Ora, tenho uma filha e uma enteada, a minha enteada tem 21 anos, e eu quero que hoje elas percebam que quando um homem mais velho utiliza o seu “poder” para tentar algo mais, exercendo chantagem em relação às suas ambições, elas possam dizer “Não” mas sem medo das represálias profissionais. Eu disse “Não”, com medo, e fingindo que não estava a perceber bem, arranjando desculpas e sorrindo para não nascerem conflitos irreparáveis. Consegui. Fiquei orgulhosa. Mas inconscientemente sabia que eram situações que não seria suposto contar a ninguém, nem aos meus pais.”

O que mais me toca nesta descrição é o mecanismo de defesa relatado, provavelmente repetido ao longo de décadas, literalmente, milhões de vezes por inúmeras jovens portuguesas que viveram uma situação idêntica: conseguir dizer “não” a sorrir para evitar um “conflito irreparável”… Tanta força e tanta fragilidade num mesmo comportamento!

No caso norte-americano preocupa-me a escorregadela para o exagero e a falta de medida justa de algumas acusações e reações, que podem reverter a influência positiva na sociedade suscitada pelas primeiras denúncias.

No caso português preocupa-me o contrário: a prevalência do medo não faz aparecer, em quantidade suficiente, nem o número de relatos nem a descrição factual, esclarecedora, de casos de assédio sexual no local de trabalho das artistas nacionais.

Sobre isto é indefensável dizer que Portugal é um país de “brandos costumes” onde tentativas de abuso sexual cometidas por superiores hierárquicos são raras. Quem tem ou teve mulher, filha, irmã e mãe, como eu, está fartinho de saber que não é assim. E quem trabalha na profissão de jornalista já ouviu uma tal quantidade de relatos, embora a título de boatos ou rumores, suficientemente credíveis para se convencer: tanto fumo tem intenso fogo por detrás. E até, nos anos 90, um infeliz juiz absolveu um agressor sexual de umas jovens turistas por elas se terem ido meter, cito, “na coutada do macho ibérico”.

Na coutada do macho ibérico, a mulher é objeto de caça e, por isso, haver predadores e presas sexuais nos locais de trabalho, incluindo nos plateaus televisivos, é uma constrangedora e banalizada inevitabilidade. É por isso que o número e o tipo de denúncias feitas em Portugal, a reboque do movimento #metoo, são sintomaticamente escassas.

Não é difícil encontrar uma explicação para esta falta. Vanessa Martins, que o site Delas.pt apresenta como influencer, não deixa equívocos em resposta a uma pergunta da jornalista Margarida Brito Paes: “Acho que muito poucas pessoas vão falar. Este meio é muito pequenino e falar pode pôr em causa futuros trabalhos. As pessoas precisam de estar no ativo e o meio televisivo é muito competitivo. Nos EUA, as atrizes ganham muito mais, têm muito mais visibilidade e ganham um certo respeito na indústria. Aqui em Portugal não, somos mesmo pequeninos.” O medo, legítimo, ou a cobardia, injustificada, estão a vencer…

E porque era importante haver mais denúncias? Porque se mais mulheres consideradas exemplares, como Catarina Furtado, avançassem para a linha da frente deste combate, a sociedade portuguesa poderia ser abalada pelo pathos do horror ao abuso sexual, o que levaria muitas mulheres anónimas a serem capazes de travar batalhas semelhantes e muitos homens de tendência sexualmente predadora a refrear a bestialidade íntima.

Como as coisas estão, agravadas, ainda por cima, apesar da retórica da igualdade, pela desproporcionalidade de poder e de salário, em enorme favorecimento dos homens, na maioria das empresas, dos organismo do Estado e do meio artístico, ainda passarão muitos anos para milhares de mulheres portuguesas tentarem resolverem situações de avanço para abuso sexual procurando, como Catarina Furtado fez quando iniciava a carreira, uma maneira de dizer “não” a sorrir para evitar um conflito irreparável…

>Ver artigo original.

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