Em 2018, a pornografia é uma indústria: e é abuso, não sexo, que está sendo vendido (Anti Pornografia/Medium)

Em 2018, a pornografia é uma indústria: e é abuso, não sexo, que está sendo vendido

(NOTA: Há uma diferença entre capitalismo e dinheiro do sangue. A maioria dos capitalistas não quer aproveitar a degradação de outro ser humano. AVISO: linguagem forte.)

A pornografia está inegavelmente mais visível do que nunca.

Imagen: 2005 AVN Adult Expo (Credit: Getty Images/Evan Agostini)

Mas o que é a pornografia? A produção de vídeos “pornográficos” surgiu por volta da mesma época em que o cinema foi inventado, em 1895. Se você assistisse a filmagem, veria a atriz Louise Willy fazendo um strip tease. No entanto, o filme é mais pantomímico do que qualquer outra coisa, e não apresenta qualquer nudez. Pergunte a qualquer um e você teria dificuldade em achar alguém que o consideraria pornografia da maneira como a conhecemos hoje, mesmo que não consigam definir o porquê de forma sucinta. A pornografia mudou.

Avancemos para 2018. O pornô é agora uma indústria multibilionária, com uma renda anual que é estimada entre dois bilhões de dólares a mais de 90 bilhões, dependendo da fonte. Ninguém discordaria de que é um negócio crescente e em constante evolução, com funcionários, lucros, impostos e eventos publicitários. Com a explosão da internet nos anos 90, a pornografia ganhou uma plataforma única. Deixou de ser o famoso tabu da “revista escondida debaixo da cama” e virou uma mercadoria de acesso fácil e imediato.

Simultaneamente, a era digital introduziu outras grandes mudanças sociais. Jornais digitais tornaram-se lugar comum (O MailOnline do Reino Unido, por exemplo, tem mais de 200 milhões de leitores mensais); a indústria de apps tornou tarefas básicas, como pedir um táxi, em commodities; e televisão on demand virou a norma.

Devido a isso, empresas precisam estar constantemente oferecendo novos serviços, um melhor custo-benefício, e um USP — ou diferencial único de venda — dentro do que já podemos considerar um mercado saturado. Embora isso não seja novidade no mundo dos negócios, a internet permite que os consumidores só deixem, sem esforço algum, um produto de lado caso este não cumpra mais o que desejam. Nós não precisamos mais esperar por algo, então nós absolutamente nos recusaremos a isso. E por quê a indústria pornográfica seria diferente disso? Num mercado global, a pornografia é apenas mais um produto com consumidores. As pessoas querem gratificação sexual, e elas a querem sem sequer precisarem sair do sofá.

Então como que a pornografia torna-se próspera nesse mercado? Da mesma forma que todos os outros produtos digitais. Ela retém, mantém e expande sua base de consumidores mudando junto e apelando aos seus desejos, seja lá quais forem.

Fundamentalmente, isso significa ter uma riqueza de “conteúdo.” Em 2016, o PornHub registrou 23 BILHÕES de visitas. Isso equivale a aproximadamente 64 milhões de pessoas assistindo a apenas um site mainstream por dia. Em termos de conteúdo assistido — e isso é realmente surpreendente — foi consumido o equivalente a 5246 séculos de filmagem. Isso corresponde a muita pornografia.

Mas nem toda pornografia é criada da mesma forma. Como os capitalistas fiéis ao mercado livre afirmariam, um mercado não-regulamentado reduz preços através da competição. Isso, por sua vez, aumenta os parâmetros para os atores e atrizes. Eles precisam de dinheiro pra viver, e com a pornografia paga se tornando cada vez mais escassa, o segredo está nas produções “amadoras” e gonzo shoots (filmes pornográficos de produção mais barata que ignoram o enredo e vão direto para o ato sexual em si) para manter o produto interessante (não precisa apenas acredite em mim). Ironicamente, enquanto o tamanho e as margens de lucro de sites como o Redtube e o PornHub cresceram, o dinheiro pago às atrizes apenas diminuiu. Estrelas como a Jenna Jameson tornaram-se raras, e contratos para mais de um filme com empresas de grande produção estão mais escassos do que nunca, o que significa que atrizes são pagas por cenas individuais.

Com cada produtora competindo por uma parcela do lucro, elas precisam de algo atrativo e vendável para aqueles 64 milhões de visitantes diários. E qual é esse diferencial? A violência. Enquanto a pornografia sempre centralizou a objetificação da mulher acima de tudo, foi somente depois de assumir um formato digital que o abuso deixou de ser apenas um “risco profissional” e virou o próprio objetivo do conteúdo.

Vale ressaltar agora que este artigo não é necessariamente sobre o consentimento na pornografia. Embora o tema de consentimento seja inegavelmente importante (e eu o abordarei brevemente), é também uma discussão imensa e infelizmente expansiva demais para caber aqui.

Assim como com “pornografia,” é importante contextualizar “violência” para realmente entendermos o quão normalizada ela é na indústria. A violência física é frequente — asfixiam, penetram à força, agridem e batem — mas a violência também pode ser simbólica. A violência é uma ferramenta que oprime e subjuga, e a pornografia está repleta desse tipo de subjugação “simbólica”.

Uma das séries mais populares é a “Casting Couch”. Nela, vemos um homem anônimo conversar com uma quantidade interminável de mulheres, muitas vezes ingênuas, que estão supostamente em busca de oportunidades para atingirem a fama na indústria do cinema. O homem sem rosto diz que sabe como torná-las famosas, mas que precisa fazer um “ensaio” antes. O que as mulheres não sabem, e o que é deixado bem claro para o telespectador, é que essa oportunidade de fama não existe. As mulheres estão lá para serem usadas e depois descartadas. A produção é feita de uma maneira particularmente desconcertante porque, para o telespectador, isso tudo parece muito real. Do estilo de produção amador até a maneira como os performers “atuam.” As mulheres muitas vezes demonstram-se hesitantes a transarem, mas a promessa de dinheiro e uma suposta carreira no cinema significa que elas acabam cedendo, relutantemente.

O que o espectador acaba testemunhando não passa de um “retrato” de sexo forçado. E não vamos higienizar esse conceito: sexo forçado é estupro. Vale a pena ressaltar também que “retrato” está entre aspas porque a linha entre a ficção e a realidade na pornografia é inquestionavelmente tênue. Quantas mulheres entram na indústria pornográficas (e outras indústrias) devido a dificuldades econômicas e são forçadas a participarem de encontros sexuais indesejados por causa de uma possível perspectiva de carreira? É completamente possível que essas mulheres participaram dessa série pornô por essa exata razão. Precisamos apenas lembrar do escândalo de Weinstein para percebermos que isso é extremamente comum.

O fato de que isso é um encontro “fictício” não importa para a realidade do que os espectadores querem assistir. Eles gostam de ver uma mulher ser pressionada a fazer sexo; o fato de que ela está hesitante só serve pra excitá-los e encorajá-los sexualmente. Títulos de vídeos incluem “Broke mom anal and swallow scam” (mãe pobre faz anal e engole, em tradução livre), “Awkward teen” (adolescente desajeitada), “Long hard painal” (uma junção de “pain,” ou dor, e anal), e “Assfucked for fame during casting” (fodida por trás pela fama).

Esses títulos servem para desumanizar e degradar totalmente estas mulheres através da violência e da coerção, e simultaneamente servem de “clickbait” para o espectador. É clara a ideia de que uma mãe sofrendo dificuldades econômicas e tendo que recorrer à pornografia é excitante para quem assiste. Sexo anal violento e dolorido é o que o espectador quer, e é o que o espectador recebe. E isso não é uma categoria de nicho. Me levou apenas dois cliques para encontrar isso depois de pesquisar por “PornHub.”

“Mas isso é apenas fantasia,” diz o lobby pró-pornografia, e portanto não deveria estar sujeito aos rigores do escrutínio moral. Muitas vezes, a pornografia é defendida como um lugar onde pessoas podem explorar fantasias sem que hajam consequências no mundo real. Isso é bonito na teoria, mas como a Andrea Dworkin disse, “a pornografia acontece às mulheres.” Sem mesmo levar em consideração que aquilo que acontece na tela está acontecendo com uma mulher de verdade, você precisaria ser deliberadamente ignorante para acreditar que essas representações existem num vácuo e não influenciam as atitudes do mundo real em relação ao sexo e às mulheres. Basta olhar para o pai da atriz pornô Stoya. Ele ficou chateado quando sua filha começou a vender produtos eróticos porque era uma distração para ele quando ele queria assistir pornografia. Provavelmente porque ele percebeu que estrelas pornô são realmente mulheres humanas de verdade, e não apenas buracos a serem abusados. Quem diria.

Pensa que a pornografia não afeta atitudes do mundo real em relação ao sexo? Pense de novo. Em um estudo feito pelo British Medical Journal (BMJ) examinando os motivos pelo aumento da normalização de sexo anal entre adolescentes:

“Sexo anal heterossexual muitas vezes parecia ser doloroso, arriscado e coercivo, especialmente para mulheres. Os entrevistas frequentemente citavam pornografia como a ‘explicação’ para o sexo anal… [mas] outros elementos incluíam e competição entre homens; a afirmação de que ‘as pessoas devem gostar se elas o fazem’ (feita ao lado da expectativa aparentemente contraditória de que seria doloroso para as mulheres); e, crucialmente, a normalização da coerção e da penetração ‘acidental’…”

E também:

“…narrativas sugerem que reciprocidade e o consentimento para o sexo anal não eram sempre uma prioridade. Os entrevistados frequentemente falavam sobre penetração onde mulheres provavelmente sofreriam ou seriam coagidas (“você pode rasgá-las se tentar forçar sexo anal”; “você continua até que elas fiquem putas e deixem você fazê-lo”), indicando que eles não somente esperam que a coerção sejam uma parte do sexo anal, mas também que muitas aceitam ou pelo menos não os desafiam explicitamente.”

Agora, isso não é para julgar o valor moral de atos sexuais específicos, mas sim o contexto dentro do qual eles surgem. Esse estudo deixa claro que o consentimento não é uma prioridade, a coerção é vista como um desafio e a dor é esperada. Enquanto o estudo do BMJ concluiu que a pornografia é apenas um aspecto desse aumento da demanda por anal, não é difícil de afirmar que o elemento da hipermasculinidade na competição sexual entre homens e a atitude laissez-faire em relação ao consentimento são resultados diretos de vídeos que apresentam mulheres como nada além de objetos-alvos dessas atitudes. Não precisa nem terminar em sexo para que essas atitudes transpareçam. A acusação recente contra o Aziz Ansari é apenas um exemplo que demonstra que homens frequentemente ignoram a ausência de sinais entusiásticos e explícitos de consentimento em sua busca por sexo. É realmente tão difícil acreditar que a cultura de abuso na pornografia contribui para isso?

“Mas e a pornografia não-violenta?” (se é que existe tal coisa). Bem, mas e toda a pornografia que o é? Quantas mulheres precisam ser abusadas e objetificadas até que entremos num território moralmente questionável? 23%? 36%? 88%? Quanta miséria irrestrita precisa ser infligida às mulheres em nome da (falsamente dicotômica) “positividade sexual” antes que comecemos a nos sentir desconfortáveis? Quanta fetichização de orientação sexual (“lésbica”), raça (“japonesa” e “mulata”), maternidade (“grávida”) e o reforço da cultura da pedofilia (“adolescente”) precisa acontecer antes que comecemos a analisar nossas propensões sexuais e, consequentemente, o que esperamos de interações no mundo real? Essa fetichização também não é de nicho. Uma olhada rápida na página principal do PornHub dá uma ideia: “destrói minha buceta adolescente…,” “filha gostosa goza no papai…,” “estudante preta gostosa” e “tailandesa grávida de 12 semanas leva gozada na cara depois de ultrassom.” Isso é o que um mercado livre alavancado pela misoginia, racismo e objetificação demanda.

“Mas o abuso é consensual.” Além do fato de que isso é uma afirmação bem questionável, fundamentalmente isso não importa. Em ‘A morte do autor’, Roland Barthes sugeriu que a identidade de um autor não deveria ser usada para inferir o significado de um texto, e este também é o caso da pornografia. Não importa se os atores querem que um vídeo seja uma exploração da “liberdade sexual”, se este diretamente contribui para a misoginia violenta e não-consensual no “mundo real” por causa da “interpretação pessoal” do espectador.

O “empoderamento” nasce e morre com as estrelas pornô. É verdade que, num mundo patriarcal, não deveria recair sobre a mulher a responsabilidade de medir seu comportamento para que este não “instigue” os homens a agirem de modo abusivo (os homens que deveriam aguentar o ônus de não agirem assim em primeiro lugar). No entanto, quando o paradigma da sociedade já é um em que mulheres são rotineiramente objetificadas, sexualmente abusadas e violentamente agredidas, simplesmente não faz sentido afirmar que adotar esse abuso e chamá-lo de “empoderador” vai mudar o problema estruturalmente enraizado da violência sexual masculina. Afinal, o que chamamos de rosa, sob outra designação teria igual perfume. Precisamos de uma mudança radical e fundamental, não uma solução individualista. O fato de que a classe oprimida (nesse caso, as estrelas pornô) conseguem lucrar com seu próprio abuso não torna esse abuso moralmente justificável ou inexistente. Abuso é abuso; chamá-lo de qualquer outra coisa apenas dá aos homens a oportunidade de tê-lo justificado para nós sem que precisemos pensar duas vezes.

Nós homens vemos a forma como mulheres são degradadas e desumanizadas na pornografia, e agimos nisso. Ela informa e molda nossa sexualidade e, como resultado, faz o mesmo para com as mulheres. Elas são vistas como “puritanas” se elas não participam, mas ironicamente como “putas” se abraçam essa ideia. Apenas veja como a Bree Olsen fala sobre a forma sob a qual as pessoas enxergam sua carreira pós-pornografia. Esta é a faca de dois gumes do patriarcado.

Então o que podemos fazer? Em termos simples, podemos parar de consumir e acabar com a demanda pelo abuso. A pornografia está claramente afetando nossas atitudes em relação ao sexo de maneiras tangíveis e reais, em detrimento de ambos os homens e as mulheres, e aos custos das mulheres. Assim como a maioria das indústrias, a pornografia continuará a refinar seus serviços num mundo cada vez mais digital. E a moeda nesse mercado digital específico é a mulher.

De acordo com a tendência até agora, a pornografia vai tornar-se cada vez mais abusiva e violenta para que mantenha-se relevante e rentável, e para quê? Nós não precisamos da pornografia, e nem deveríamos desejá-la. Dois adultos podem explorar suas sexualidades sem a necessidade prévia de um vídeo retratando mulheres mal-pagas (e cada vez mais jovens) sofrendo abuso físico e verbal para nos “inspirar.” Se homens liberais e de esquerda realmente acreditam na igualdade, então está mais do que na hora de começarmos a rejeitar as coisas que somente reforçam a desigualdade. É hora de começar a esperar mais de nós mesmos, e melhor de nós mesmos.

Tradução de Luana Salles Mendes. Texto em inglês por Tom Farr aqui.

>Ver artigo original.

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