‘Existe assédio sexual no futebol e não é pouco’, diz autor de livro sobre abuso no esporte (Torcedores)

‘Existe assédio sexual no futebol e não é pouco’, diz autor de livro sobre abuso no esporte

Por André Martins | Foto Credito: Por André Martins torcedores.com

Com o estimulo da mãe, Alexandre Montrimas, goleiro que iniciou sua carreira na Portuguesa, passou pelo Bragantino e clubes do interior de São Paulo e da Europa, decidiu escrever um livro para relatar por meio da sua vida a realidade da maioria dos jogadores do futebol brasileiro.

No ano de 2014, o jogador se aposentou e lançou o livro “Futebol: sonho ou ilusão?”. Com 20 anos de carreira, Alê revelou detalhes e situações sobre o mundo da bola. A pior revelação que veio à tona foi sobre o assédio, abuso e exploração sexual que acontece no futebol brasileiro.

Nas categorias de base, sofreu assédio por cerca de 10 anos. E esse ataque vinha de todos os lados; dirigentes, treinadores e pessoas que circulavam pelos clubes tentavam, porém Alê tinha suporte da sua família e as investidas não viraram abuso por conta disso. Mas infelizmente viu muitos amigos e colegas em situação de vulnerabilidade que se tornaram vítimas de abuso e exploração sexual.

Indignado com essa realidade, o ex-goleiro com apoio do Sindicato dos Atletas do Estado de São Paulo, lançou a campanha “Chega de Abuso”, onde viaja por clubes de todo o Brasil, já fez palestras em mais de 40 clubes, para explicar e alertar sobre as práticas de assédio, abuso e exploração sexual para os jovens jogadores, além de estimular e motivar que sigam seu sonho.

Alê adiantou para o Torcedores.com que essa campanha ganhará reforços. Cerca de 30 jogadores que atuam na Série A do Brasileirão e no futebol europeu vão divulgar a iniciativa.

Torcedores: Quando e como surgiu a ideia de escrever um livro sobre a realidade da vida de um jogador de futebol? Qual o objetivo do livro?

Alê Montrimas: Eu ainda jogava quando me deu esse estalo de fazer o livro, na verdade, a ideia do livro começou pela minha mãe. Eu sempre fui capitão dos meus times, sempre tive um olhar diferente para o futebol e levava esse olhar diferente para dentro de casa em relação a isso. Então um dia ela me questionou por que eu não escrevia um livro para mostrar uma história real que não é incomum, coisa que a maioria dos jogadores passam pelo o que você passou.

A ideia sempre foi justamente relatar através da minha vida o que acontece no meio do futebol, porque eu vivi 20 anos de muita coisa. E não desmotivar quem tem algum sonho, então através da dificuldade, a minha ideia sempre foi motivar, mas mostrando a realidade, acho que as pessoas só se preparam se elas souberem onde vão pisar.

Torcedores: Além de falar sobre a falta de estrutura dos clubes, baixa remuneração e atraso de salários, você dedica uma boa parte do livro para falar sobre abuso e assédio sexual. Você chegou a ser procurado por abusadores quando fazia parte das categorias de base? Foi por conta disso que resolveu trazer esse assunto à tona?

Alê Montrimas: Sim. Eu sempre falo para os meninos e na palestra que nesses 20 anos que eu joguei futebol, 10 anos foram anos que tentei ser jogador de futebol, porque foram anos de base e clubes pequenos. Eu não tinha estrutura, não recebia, ou seja, eu não era reconhecido, profissionalmente e nem financeiramente. Nessa fase onde eu estava vulnerável financeiramente, eu recebi com uma frequência o assédio sexual, por meio de treinadores, diretores e principalmente de pessoas que ficam em volta dos alojamentos, que essa é a mais comum hoje em dia. Por sorte tinha minha família e não cedia, mas companheiros próximos não tivera a mesma sorte.

Eu vi muito isso durante minha carreira e sempre achei um absurdo. O futebol precisa falar disso e o que é preciso para falar é uma campanha, uma conscientização, que é algo que estamos fazendo. Já falamos em grandes programas esportivos, mas ainda está muito fechado, esse assunto precisa saltar do esporte. É preciso romper barreiras para que o pessoal fale sem pudor que existe
assédio sexual no futebol sim, não é pouco e é diário.

Torcedores: Como esse assédio e abuso acontece no futebol?

Alê Montrimas: Você pega um menino que tem naquela realidade o futebol como única esperança para mudar de vida, por isso falo que é injusto. Quando um menino desse recebe uma proposta, porque nunca é com a agressão, nunca o abuso sexual no futebol é segurando ou agredindo. É uma agressão psicológica a esse sonho, onde é colocado naquele momento que a única opção para se dar bem é cedendo ao abuso e exploração sexual.

Torcedores: Você consegue dimensionar quantos casos de assédio e abuso viu e tem conhecimento durante sua carreira?

Alê Montrimas: Eu sempre faço uma comparação. A Inglaterra é um pais que não tem um terço de times que o Brasil, quando o jogador Andy Woordard resolveu denunciar o abuso que sofreu no começo de carreira, vieram 500 casos à tona e no nosso país tem somente 102 casos registrados nos últimos seis anos. Eu falo que esses 102 casos nem de longe mostram a realidade. Acredito que se fosse haver denuncia mesmo, ia passar de 1.000 casos. São números que assustaria qualquer um. Poderia ser um dos maiores escândalos do futebol, porque se as pessoas tomassem coragem você ia ver que jogador de seleção brasileira, que disputou Copa do Mundo já passou por abuso.

Torcedores: Na CPI de 2014 o Congresso Nacional exigiu que a CBF teria que adotar 10 medidas de maneira que combatesse e impedisse o abuso e exploração sexual de crianças no futebol. Até hoje apenas duas medidas foram executadas. Qual o papel da Confederação Brasileira no combate dessa questão?

Alê Montrimas: A gente esteve lá em Brasília, quando a CPI cobrou a CBF. Nós fomos convidados para participar da bancada. A CBF poderia fazer, ela até chegou a se interessar pela nossa campanha, parece que tem um contato do presidente do Sindicato dos Atletas junto a presidência da CBF, para que a gente possa implantar esse assunto no curso de treinadores, na CBF Social, houve sim interesse. Mas as pessoas que está lá organizando não tem muito ideia, pois são pessoas que não viveram o futebol, o suor do futebol, não tem a ideia e noção que nós do futebol temos. Então talvez não dão a importância necessária, como deu o presidente do Sindicato dos Atletas, porque jogou e sabe que isso é comum.

Como não tem denuncia não incomoda, porque não é o filho de ninguém importante, não é sobrinho de ninguém, mas são crianças, jovens e adultos passando por isso.

Torcedores: Você lançou o livro em 2014. De lá até hoje vê um interesse maior dos clubes em tratar o assunto abuso?

Alê Montrimas: Nunca tinha sido falado desse assunto de uma aberta como foi. Quando comecei a ligar para nos clubes, já estava
junto com o sindicato, eles estão na campanha desde o começo, houve dificuldade de explicar para os clubes o que que era.
No começo, o primeiro clube que comecei foi a Portuguesa, que joguei noves anos. Fui lá expliquei o que era e confiaram em mim e pude levar a palestra “Chega de Abuso”. Eu afirmo isso com todas as letras, todo clube de futebol, sem exceção de nenhum no Brasil já passou, passa ou vai passar por pelo assedio, abuso ou exploração sexual. Pode ser dentro do clube ou fora, no momento que o menino sai do alojamento. Por isso é preciso dar importância.

Depois dessa resistência inicial, hoje as portas estão abertas. Estamos indo em clubes de todo Brasil, recentemente fomos nos Cruzeiro, Atlético-MG e América-MG e estamos para ir no Rio de Janeiro nos quatro grandes.

Há hoje uma mudança principalmente na parte de assistência social dos clubes, existe uma aceitação maior para se falar do tema. E nesse tempo de campanha foram mais de 40 clubes, uns com 150 pessoas, outros com 40 e 80, nos falamos com mais mil garotos. Então hoje são mais de 1000 garotos que entendem e sabem o que é assédio e abuso sexual.

Torcedores: Como você aborda o assédio e abuso sexual em suas palestras?

Alê Montrimas: Antes de me apresentar e falar oi, mostrar um vídeo de quando jogava futebol, para que eles saibam que quem vai conversar com eles já jogou bola, para ter uma aproximação maior. É uma palestra onde eu mexo muito na zona de conforto deles, porque chego em uma base e falo que talvez que de todos que estejam assistindo ninguém seria jogador de futebol e aquilo é um choque. Começo dando porrada, mostrando realidade de salário e de um jogador que começa na base e não consegue ir para o profissional. Começo mostrando a importância do extracampo para ele, principalmente do inglês, ligando isso ao rendimento dele dentro de campo.

A partir da disso começo a falar sobre o abuso sexual. Porque como fazer para evitar está totalmente ligado inserido com essa primeira parte, porque se está firme e com um entendimento maior das coisas, se está preparado com um curso, com um inglês é mais fácil evitar uma situação dessa, então tento colocar que se ele está totalmente alienado ao mundo é um pouco mais complicado.

Torcedores: Uma mudança na cultura de formação do jogador de futebol seria a solução mais eficiente para diminuir os casos de abuso?

Alê Montrimas: Falta um trabalho com a mentalidade e consciência dos garotos, para que eles possam buscar coisas fora do futebol e que essa não seja a única opção de vida deles. Justamente para que eles não caiam nesse assédio e abuso e nem sejam mais uma presa fácil.

Uma mudança na cultura de formação por parte das confederações, federações que organizam o futebol e um estimulo dos clubes é necessário. Precisaria de uma reformulação nas categorias de base onde que o sonho, e espero que não utopia, de olhar para os jogadores em campo, igual é na NBA e na NFL, e perguntar em qual profissão esse atleta é formado. Nosso sistema faria que eles estudassem, aproveitassem os anos de base para estudar, uma faculdade seria pensar muito na nossa realidade, mas um curso profissionalizante e uma segunda língua não.

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