Jessica Harris

A odisseia de uma mulher para vencer o seu vício em pornografia

O tsunami pornográfico não está devastando só os homens. Ele está arrastando mulheres também. E é esse o grande alerta de Jessica Harris.

Por Jonathon van Maren — Finalmente as igrejas e a cultura estão acordando para o fato de que fomos atingidos por um tsunami, e que milhões de homens estão viciados em pornografia. Ela está destruindo casamentos. Está destruindo carreiras. Está destruindo almas.

Mas ainda há uma coisa sobre a qual ninguém está comentando: a pornografia está destruindo mulheres também. E não é só as estrelas pornô que são destruídas através do abuso e da violência nos sets de filmagem. Estou falando das centenas de milhares de mulheres que estão assistindo a pornografia, sem que ninguém reconheça o fato ou toque no assunto.

Por muito tempo eu tive curiosidade em descobrir quais eram as estatísticas. Em 2015, uma estimativa do site Covenant Eyes apontou que 76% das mulheres entre as idades de 18 a 30 viam pornografia pelo menos 1 vez por mês, enquanto 21% delas assistiam a pornografia várias vezes durante a semana. Mesmo assim, parecem ser poucas as mulheres que procuram ajuda ou admitem estar lutando contra o vício em pornografia. Já falei com centenas de homens, mas, quanto às mulheres, fui abordado por apenas três que me vieram contar suas histórias. Na verdade, muitas pessoas ficam até mesmo chocadas ao saber que existem mulheres que vêem pornografia.

Para saber mais sobre as histórias por trás das estatísticas, eu liguei para Jessica Harris. Ela cresceu em um ambiente religioso e conservador, e ia à igreja praticamente todos os domingos. Mesmo assim, Jessica assistiu a pornografia pela primeira vez aos 13 anos, e aquilo começou a destruí-la silenciosamente, nas sombras, onde ninguém a escutava, nem podia sequer compreendê-la. Afinal de contas, mulheres não vêem pornografia, é essa a ideia geral que se tem. Pornografia é coisa de homem, um pecado masculino. Rapazes precisam ser alertados para não caírem nessa armadilha, mulheres não, é o que pensa a maioria. Elas estão imunes a esse tipo de toxina. Porque são mulheres.

“Nunca nos foi dito nada acerca da pornografia. Jamais fomos alertadas sequer de que isso existia. Ao menos não as mulheres. Na minha família isso não era mencionado, ninguém falava desse assunto. Quando descobri aquele material, então, eu não tinha sequer uma palavra para descrevê-lo. Eu cresci em um ambiente de igreja, mas frequentava a escola pública. Pensei comigo: deve ser sobre isso que eles tanto comentam, devem ser essas as coisas a que eles assistem na Internet. Mas eu estava no ensino fundamental, começando o ensino médio, e eu não tinha uma categoria em que colocar aquilo, não tinha um contexto, não tinha nada.”

Mas aquilo a deixou fascinada. E ela começou a assistir. A princípio, Harris pensou que talvez não houvesse mal algum; que, aliás, aquilo até lhe poderia ser útil de alguma forma.

“Eu realmente não achava que era um problema nos primeiros dois anos em que comecei a consumir esse material. Eu pensava: ‘Não estou saindo e fazendo sexo de verdade com ninguém, então é seguro. Vou em frente com isto.’ Não existia o risco de contrair doenças sexualmente transmissíveis, nem chance de engravidar. Não precisava me preocupar com aborto. Não precisava me preocupar com nada. Pornografia era algo totalmente seguro e, quando eu comecei, senti que podia ligar e desligar na hora em que quisesse, como se estivesse totalmente no controle da situação. Não senti a necessidade de contar para alguém até porque não achava necessariamente mau aquilo que eu estava fazendo. Aquela parecia ser uma forma segura de me expressar, de estar em sintonia com meus colegas na escola, de conversar sobre essas coisas e mostrar que eu sabia do que se tratava. Era uma forma de me sentir aceita e conectada.”

Vícios, é claro, não podem jamais ser controlados. Eles sempre terminam controlando você: a menos que você se liberte antes… eles o destroem. Com o vício em pornografia não é diferente, e logo Jessica começou a se sentir arrastada para baixo. A pornografia começou a dominar a sua vida.

“Foi no final do ensino médio que aquilo realmente começou a fazer um grande estrago em minha vida”, ela diz. “Era como se eu precisasse daquilo, então eu ficava acordada até tarde da noite… Comecei a ter dificuldades para manter a minha média na escola. Não conseguia dormir bem. Até nos dias em que eu não queria fazer aquilo, o meu corpo pedia mais. Eu dizia: ‘Hoje não, hoje não, hoje não’, e os meus pés caíam sobre o chão e caminhavam até o computador por conta própria — e eu odiava não estar mais no controle da situação.”

Ela lutou para retomar o controle por todos os meios possíveis, e o desespero se transformou em pânico. A pornografia era poderosa. De fato, era mais poderosa do que ela poderia ter imaginado.

“Eu imprimia fotografias e ateava fogo nelas porque queria provar que era mais forte. Eu salvava imagens em disquetes — eles estavam em alta na época — e quebrava os discos ao meio de tanta raiva e frustração. Eu costumava usar uma tesoura também, porque eu queria provar que era mais forte. E quando isso não funcionava, eu começava a me machucar fisicamente. Se eu não conseguisse me segurar, se eu fosse para o computador e assistisse cinco horas de pornografia, ou o tempo que fosse enquanto eu estava em casa sozinha, eu ia até ao banheiro quando terminava e simplesmente batia a minha cabeça contra a banheira, de tão zangada que eu ficava. Eu pensava que, se conseguisse fazer aquilo doer, talvez eu conseguisse parar. Quando isso não funcionava, eu entrava no chuveiro escaldante até a minha pele ficar vermelha. Eu só queria que aquilo acabasse.

Quando eu finalmente decidi usar o Google e procurar ajuda para acabar com o vício da pornografia, mas vi que tudo era para homens, pela primeira vez me questionei o porquê daquilo. ‘Espere um pouco’, eu pensei, ‘o que isto significa? Porque não existe nada para mulheres?’ Depois comecei a procurar por mulheres em situação semelhante e não encontrei nada. Então eu meio que entrei em pânico porque, se não há ninguém para me ajudar, como eu vou sair dessa? Se não há ninguém falando sobre isso, se não há ninguém como eu, como vou sair disso?”

Para piorar, Jessica começou a ter uma sensação horrorosa: a de que ela era a única mulher com este problema. Só ela assistia a pornografia. Por isso não havia nenhum tipo de ajuda disponível — porque, aparentemente, ela era a única mulher que precisava daquilo! Em alguns sites antipornografia destinados para homens, ela leu como tudo aquilo era degradante e violento para as mulheres. O que há de errado comigo?, ela passou a se questionar. Quando partiu para a faculdade bíblica, o vício pornográfico acompanhou-a. Ali, ela pensava, certamente haveria ajuda para alguém como ela.

“Eu tinha rezado para que fosse pega, porque pensava que, se alguém tivesse recursos para ajudar, seriam pessoas como o reitor, ou algum funcionário da faculdade. Certamente eles já viram esse tipo de comportamento antes. Com certeza eu não sou a única mulher com este problema. Alguém vai me ajudar. Mas eu estava apavorada com a ideia de que fosse eu a iniciar essa conversa. Eu não queria entrar na sala da reitoria, me apresentar e dizer: ‘Ah, e, por acaso, eu sou viciada em pornografia.’

Eu eventualmente fui pega algumas semanas depois de as aulas terem começado, e fui convocada a me apresentar na reitoria. Eles tinham o relatório com o histórico de Internet do meu login. Eles tinham imprimido tudo e sublinhado todos os sites que eram obviamente pornográficos. Naquela ocasião, eu já estava entregue a um tipo de pornografia muito obscura com fetiches depravados. Eu fui de coisas leves a coisas pesadíssimas, que até me assustavam quando eu assistia. Eles ficaram enojados e disseram: ‘Isto é nojento. Isto é depravado. Quem vê essas coisas precisa de ajuda.’ E eu estava pronta para assumir tudo, caso eles me perguntassem: ‘Isso foi você?’. Mas isso não aconteceu. A conversa rapidamente evoluiu para: ‘Bem, isso não foi você. Mulheres não têm estes problemas.’ Eu fui repreendida por ter dado a senha do meu login para rapazes da faculdade. Eles pensaram que eu tinha dado a minha senha a uns amigos, para eles usarem como quisessem. Foi essa a minha acusação. Eles me fizeram assinar um contrato dizendo que eu jamais voltaria a dar a minha senha a alguém. Eu assinei, então, e voltei para o meu quarto.”

Foi depois de deixar a sala da reitoria que Jessica finalmente desistiu. “Eu sentia que a única forma de conviver com aquilo, e comigo mesma, já que obviamente havia algo de muito errado comigo, era me juntar à indústria pornográfica, porque não fazia sentido eu ser a única mulher do mundo a me sentir assim”, ela conta. “Obviamente devem existir outras, e essas outras devem ser as atrizes pornográficas, já que deve ser esse o motivo pelo qual elas escolheram essa profissão. Foi assim que pensei nessa profissão da indústria pornográfica. Esse foi o ponto a que cheguei. Fui do desejo de ser médica e tornar-me uma aluna nota 10 a uma pessoa que diz: ‘Esqueça, não posso continuar vivendo assim, continuar fingindo que sou perfeita e que alcanço todos os objetivos almejados para ser bem sucedida enquanto me arrasto sozinha nessa situação. Se eu não consigo sair dessa, então a única maneira de lidar com isso é me juntando à indústria.”

Harris resignou-se ao seu destino. Ela entrou em um relacionamento online com um rapaz e enviou-lhe fotos explícitas. Fez planos de se juntar à indústria pornográfica, onde ela achava que encontraria as únicas outras mulheres do mundo que a compreenderiam. Mas, como ela relata em seu site dedicado a ajudar mulheres e meninas que são viciadas em pornografia, algo mudou:

“No ano seguinte, depois de deixar aquela faculdade, eu estava em uma faculdade diferente, tentando viver a vida com este segredo horrível dentro de mim, e cogitando fortemente me juntar ao mundo pornô e acabar logo com tudo. Mas, durante uma reunião de mulheres no campus, um membro da equipe de reitoria tomou a palavra e disse, na frente de todos: ‘ Nós sabemos que algumas de vocês lutam contra o vício em pornografia, e nós vamos ajudá-las.’ Aquele momento foi libertador. Pela primeira vez senti que não estava só, que minha luta não era anormal. Ainda existia esperança!

Os anos desde então têm sido uma jornada contínua de liberdade. Tudo isso é muito mais do que simplesmente não assistir a pornografia. Tem a ver com cura interior, com a descoberta de uma vida sem ter que carregar o peso esmagador da vergonha e do medo.”

Jessica Harris agora se compromete em oferecer a outras mulheres e garotas essa mesma experiência de liberdade — aquele momento em que alguém finalmente percebe que não está só, que outras pessoas o compreendem, e que existe um caminho para a libertação. Ela viaja por toda a América do Norte, contando a sua história em auditórios, uma história que se conecta com mulheres em situações semelhantes, as quais pensavam estar absolutamente sozinhas, até que alguém ficou diante delas e prometeu entendê-las. As pessoas precisam tomar consciência, ela diz, que as mulheres têm mais dificuldades em assumir esse problema:

“Os homens tendem a confessar o problema quando ele começa a ameaçar o seu relacionamento ou quando flagrados por suas esposas. Eles tendem a se abrir em relação ao assunto quando se cansam de esconder ou simplesmente porque querem desabafar, enquanto as mulheres sempre escolhem a direção oposta. Elas vão fazer o máximo para esconder, pois sentem-se muito envergonhadas e isso que fazem diz muito sobre quem elas são. Ao mesmo tempo elas tentam se desvencilhar da situação e separá-la de si mesmas. Chegam a criar outra personalidade, uma imagem de mulher perfeita que têm tudo sob controle, ao mesmo tempo em que tentam de verdade ser essas mulheres. Eu tenho mulheres que me escrevem, esposas de pastores, missionárias, líderes espirituais, freiras. São mulheres que tentam com todas as forças manter uma imagem de pessoas emocionalmente equilibradas e convencer-se de que: ‘Não, você não precisa ser como a mulher do vídeo. Você vale mais que isso. Você não precisa ser assim.’ Elas vivem navegando, portanto, entre essas vidas duplas que levam. Uma mulher não pede ajuda a menos que esteja à beira de um colapso, ou que a situação supere o medo de alguém descobri-la. Ou seja, ela só pede ajuda quando está dominada pelo terror absoluto. Com os homens, esse assunto tem mais a ver com uma modificação comportamental; com a mulher, no entanto, trata-se de uma crise de identidade. Ajudá-las significa salvá-las de ir para onde elas acham que estão indo enquanto pessoas.”

E quanto às estatísticas do site Covenant Eyes, eu perguntei a Jessica, elas estão corretas? Ou estão um pouco exageradas?

Geralmente eu calculo que metade do meu público de alguma maneira tenha sido exposta à pornografia“, ela respondeu. “Eu diria que, em uma sala com 100 pessoas, pelo menos 50 já tiveram algum tipo de exposição. E outra coisa para lembrar a respeito das mulheres, também, é que nós temos um alcance maior do uso de pornografia. Algumas, por exemplo, entram na literatura erótica e aquilo se torna o estímulo sexual delas. Elas entram em sites eróticos não tão explícitos — coisa com a qual os homens já não se preocupam, eles pulam essa parte. Por outro lado, também pode haver mulheres lutando bastante com o pornô pesado.”

Uma pergunta final: como as mulheres que não sabem aonde ir iniciam o caminho para a libertação? Como mulheres universitárias, a exemplo de Jessica Harris, podem romper com esse vício que as domina?

A primeira coisa que lhes quero dizer é que elas não estão só. É incrível, eu recebo emails e mais emails todas as semanas. Conheço mulheres sempre que vou dar uma palestra, e vejo que toda história, em certo ponto, é parecida com a minha. Sempre fico boquiaberta, mesmo quando estamos trabalhando com uma estatística de 20%, essas 20% sempre acham que são uma em seis bilhões, que são as únicas no mundo com aquelas dificuldades. Você não está sozinha, por isso não se martirize. Pare de achar que está só.

Você tem que destruir esse padrão duplo de vida. Você tem que se libertar, reconhecer o que está acontecendo. Sim, você pode ser uma exímia aluna, uma líder espiritual, mas você também é uma mulher que luta contra este vício, e não tenha medo de se conectar com pessoas que também sofrem deste mal para receber ajuda. O que eu descobri de maravilhoso, toda vez que conto a minha própria história ou encorajo outras garotas a darem o seu testemunho, é que, quando imaginamos que seremos cobertas de vergonha, o que acontece, na verdade, é uma efusão de graça. Tive moças que se libertaram contando para as colegas na faculdade o que as atormentava. E, para a surpresa delas, outras também revelavam ter problemas semelhantes e, no fim, elas acabavam criando grupos de apoio no campus. Isso tem acontecido em faculdades, em igrejas, com mulheres do meu trabalho, as quais eu simplesmente aconselhei, dizendo: ‘Você tem que compartilhar isso com alguém.'”

O tsunami pornográfico não está arrastando apenas homens e crianças. Ele está levando mulheres também, e muitas delas estão se afogando porque ninguém tem consciência sequer de que elas estão na água, ninguém é capaz de escutar os seus gritos de socorro. Nós vemos as estatísticas, mas não conseguimos ver os rostos por trás delas. Mas, finalmente, uma mulher decidiu colocar uma história por detrás das estatísticas. A história de Jessica Harris é poderosa, sua mensagem é essencial e seus conselhos são necessários. Faria bem se todos ouvíssemos. A sua história é um coro para muitas que não encontraram a sua voz, e que ainda procuram trilhar o caminho da liberdade.

Fonte: LifeSiteNews.com | Tradução: Equipe Christo Nihil Praeponere

>Ver artigo original.

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